Daniel Braga e reflexões de um novo tempo: imersão na obra de Valéria Pires

O contexto atual nos levou a um conjunto de adaptações, reinvenções e reposicionamentos. Aos que acompanham minha coluna, sabem que me dedico a visitar e, a partir de uma boa prosa, escrever um pouco da trajetória de vida dos meus entrevistados. Temporariamente impossibilitado do gostoso contato com as pessoas e, seguindo os passos da querida colunista desta revista – Ana Jardim – dediquei-me a fazer um mergulho em mim. Como a minha solidão nunca me deixou sozinho, citando Antônio Abujamra, optei acompanhar esta turbulência mundial na excelente companhia de alguns livros, em especial, os saborosos textos da escritora paulista Valéria Sílvia Pires.

Nascida em Itaí, interior de São Paulo, graduada em Letras, pós-graduada em Psicologia Junguiana, Advogada e atenta observadora do cotidiano, Valéria Pires conciliou a atuação no mundo dos negócios na eletrizante capital paulistana com o papel de mãe e a escrita de textos poéticos, reflexivos e “causos” típicos das cidades interioranas do Brasil. Como o prazer demanda tempo, aproveitei esta oportunidade que ganhamos para um mergulho em duas de suas obras: “Um Pouco de Tudo” (2016) e “Mutação” (2018). Em suas páginas, alcei voo para o jardim das delícias que lançaram alguma luz sobre a realidade, com muita positividade e esperança – um sorriso para o futuro! Segundo ela, quando nos distanciamos das rotinas diárias, realizamos um mergulho mais profundo e verdadeiro em nós mesmos, nossos segredos, medos e nos permitimos romper fios que nos impedem a transformação para a liberdade.

Seus textos, leves em sua leitura, mas densos em suas reflexões, dedicam-se às recordações de sua infância no campo, cenas do cotidiano na cidade caótica, introspecção e mudança de atitude, relações pessoais e seus conflitos, sentimentos, desejos e amor… Alguns excertos de sua obra oferecem uma degustação neste mergulho interior que ela propõe. Quando se debruça sobre o amor: “Encontrar ou reencontrar um grande amor e poder vivê-lo é uma experiência única! Algumas pessoas passam pela vida e não experimentam tal emoção. Outras nem chegam perto! Muitas, com receio de sofrer, blindam-se e não permitem viver a experiência. Fogem. Somente quem vive um amor de verdade sabe a diferença entre um amor e outro qualquer”; ou sobre nossa essência, “Se somos plurais como presumo, fiquei pensando, talvez nossa alma seja coletiva e não individual e transitamos nos dois mundos todos os dias o tempo todo”. 

Ao falar de sonhos, Valéria descreve com maestria o contexto que estamos vivendo, “algumas vezes precisamos adiar, por um tempo, velhos sonhos e projetos para que possamos vivenciar, por inteiro, o que a vida nos apresenta no momento. Se somos afetados pelas mudanças da vida, também nossos sonhos precisam, algumas vezes, serem reformulados”. A viagem, o projeto, o emprego, o casamento, tudo que sonhamos ou planejamos precisou ser refeito, reformulado, adiado, mas, jamais esquecidos. Estimulado por suas reflexões, segui as minhas viagens mentais que me confortaram e me fizeram encarar o momento atual como uma reforma de casa: incomoda a nossa rotina, faz barulho e perturba nosso sono, gera poeira e irrita nosso corpo, destelha e nos deixa ao relento, derruba paredes e muros que nos protegem e dão a sensação de segurança, mas, ao final do processo, nos deixa orgulhoso com o resultado da transformação. A vida desaparece, mas não cessa…

A incerteza sobre os próximos passos, a insegurança na capacidade de sustento da família, as turbulências e inconstâncias das ações das autoridades e a as restrições de locomoção perturbam a todos. Voltamos para “nossas cavernas” e, ameaçados pelas “forças naturais” – talvez como resposta ao nosso desrespeito no tratamento ao meio ambiente – fomos convidados a este mergulho reflexivo em nós mesmos. Assim como nos povos “primitivos” ou “antigos”, buscamos nos mitos (em especial os fenômenos naturais) uma forma de nos reencontrarmos diante da vida. A filosofia mostra que o mito primitivo pode ter nascido do nosso desejo de dominar o mundo e fugir da insegurança. Desta forma, às forças naturais foram atribuídas qualidades emocionais e humanas. Como no passado, vamos ter que “agradar” estas forças para que tenhamos proteção e abundância na “tribo humana contemporânea”.

Seja nas pré-históricas cavernas de Lascaux, na Serra da Capivara ou nas atuais cavernas dos Jardins ou Copacabana, a natureza nos desafiou! Com isso, precisaremos ressignificar nossa existência para reencontrarmos nosso lugar no mundo após esta grande reforma da casa. Uma nova narrativa sobre o mundo será necessária e, assim como Valéria Pires apresenta em seus textos, a base desta nova sociedade não poderá se isentar da valorização das nossas raízes; da curiosidade das crianças; da abertura da mentalidade para o novo; da prática do perdão; da sobrevivência e responsabilidade coletiva, do respeito ao lar (sustentabilidade do meio ambiente); da fé e do amor com o aperfeiçoamento dos laços de afeto e respeito às diferenças. Ser muito antes do que ter!

Momentaneamente, durante esta reforma, trouxemos o mundo (escola, academia, igreja) para nossas cavernas e estamos observando a vida no enquadramento delimitado pelas nossas janelas. Mesmo com essa limitação espacial e visual, saibamos ajustar as lentes para capturar o melhor ângulo de tudo. Deixemos o sol entrar, vamos sentir o céu e a grandeza divina dentro de nós e prepararemos nossa melhor roupa – a alma – para a grande reinauguração da casa. Se não encontrarmos a paz dentro nós e de nossas cavernas, não saberemos encontrá-la além de nossas janelas. Ainda que separados fisicamente, estamos juntos neste desafio. Finalizarei esta pequena reflexão com uma frase da sábia escritora: “Às vezes, a distância é apenas uma questão geográfica. O Amor e o afeto, quando genuínos, tornam a quilometragem irrelevante”.

Para maiores informações sobre a obra e as reflexões da escritora Valéria Sílvia Pires acesse o Facebook @Valeria Silva Pires ou e-mail vselias@hotmail.com

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