Daniel Braga e a reflexão sobre a única certeza

Cena do filme O Sétimo Selo (1957)

De repente, as mitológicas Moiras parecem ter girado abruptamente a Roda da Fortuna e o mundo foi sacudido. Decisões, projetos, empresas, tudo foi abalado. Poucas, ou quase nenhuma, certeza temos. Será que vai chover ou fazer sol; será que vamos nos casar, será que vamos ter filhos; vamos fazer aquela viagem desejada: será? Guimarães Rosa nos dizia que viver é uma travessia perigosa. O contexto forçou-nos a uma reflexão, como nunca nos últimos anos, sobre as dúvidas e a relação mais próxima como a única certeza que julgamos saber.

A sensação de que a finitude bateu às nossas portas tem estimulado inúmeras manifestações interpretativas – em especial pelas redes virtuais – da realidade social, política e econômica do futuro e uma readaptação do presente, vivido dentro de nossas “cavernas contemporâneas” e as porções de verdade que alcançamos segundo o limite visual de nossas janelas (físicas ou virtuais). Se a “partida” é uma certeza, por que a inquietação?

Cena do filme O Sétimo Selo (1957)

O primeiro versículo de Apocalipse 8 diz “e, havendo aberto o sétimo selo, fez-se silêncio no céu por quase meia hora”. A partir desta provocação, em 1957, o cineasta sueco Ingmar Bergman, ao observar os traumas da Europa no pós-guerra, a inquietação com medo da bomba atômica e a possível extinção humana, realizou a obra prima do cinema “O Sétimo Selo” contando a história do cavaleiro medieval Antonius Block que encontrou uma terra devastada e repleta de cadáveres vítimas da peste negra ao voltar das Cruzadas. Em uma manhã, ao se deparar com a morte, convidou-a para um interessante e reflexivo jogo de xadrez visando entender o significado de sua existência.

Séculos depois da peste medieval, as mitológicas “Fiandeiras do Destino” ao observarem o desrespeito conosco e nosso semelhante, com a natureza e com as relações humanas, pegaram a tesoura para ameaçar um corte no fio da nossa existência. Com isso, fomos desafiados a reorganizar as peças do nosso xadrez em um tabuleiro repleto de dúvidas e a ressignificar uma série de questões: família, amigos, trabalho, liberdade, futuro. Tudo nos leva a crer que estamos diante da única certeza. O fio parece estar enfraquecido…

Foto Daniel Braga

Sem aprofundar nas questões do desrespeito que praticamos com nosso templo sagrado (corpo) e nossa casa (meio ambiente), vou me dedicar à provocação das relações humanas na contemporaneidade. Ao mesmo tempo em que aperfeiçoamos os meios de comunicação para aproximar pessoas, menosprezamos a conversa, a escuta, a presença e o contato verdadeiro – crème de la crème das relações. O toque (ser) deu lugar ao visual (parecer). Na “sociedade do espetáculo”, priorizamos aquilo que parecemos ser e a audiência em um palco fantasioso onde todos devem ser interessantes, felizes e fascinantes. Mais “curtidas” e “likes” do que abraços e beijos. Ninguém quer ser anônimo e, como diz o historiador Leandro Karnal, “viver é ser visto, um teste constante de vaidade”. O descarte das relações humanas tornou-se mais fácil do que o enfrentamento das dificuldades e o trabalho de restauro ou conserto destas relações.

 

Foto Daniel Braga

Com as limitações de locomoção que, por proteção adotamos, descobrimos que sentimos falta das pessoas, do contato, dos lugares e da liberdade. Em poucas semanas, supervalorizamos a coletividade e os momentos, de fato, compartilhados com o próximo. Fez-nos falta conviver com o semelhante. Dentro de nossas cavernas, reduzimos os contatos físicos e a sociedade se fragmentou em micro mundos. A realidade exterior, por ora, só nos chega através de umas cinco ou seis polegadas via wi-fi. O mundo está em nossas mãos, mas não podemos tocá-lo, senti-lo, desvendar seus aromas, sabores ou cores reais, já que esta realidade nos chega com tantos filtros. A ida ao restaurante, ao bar ou ao show teve que mudar: as “lives” pipocaram e passaram a cumprir o “circenses” neste mundo digital; mas incertos ainda se teremos o “panis” no futuro. Até a “caridade” para as câmeras do celular viraram parte da grade de programação diária deste circo eletrônico. Espero que não nos acostumemos com este mundo mediático e paremos de reclamar da falta de tempo para fazermos coisas, de fato construtivas, pois, tempo é uma questão de prioridade e priorize o que realmente vale a pena! 

Foto Daniel Braga

O tabuleiro está confuso! Ainda não temos condições de movimentar as peças com segurança, mas teremos que fazê-lo! Com serenidade e responsabilidade vamos lidar com a percepção de finitude e repensar o nosso propósito nesta existência. Perderemos algumas peças neste desafio (emprego, renda, amigos, hábitos) e, assim como o cavaleiro do filme, ainda que tenhamos nossas crenças e convicções, vamos recear a hora da partida. Se pudesse deixar macetes para este jogo, elencaria: tenhamos fé e fé em nós mesmos; saibamos que há uma força superior que não nos desamparará; busquemos um propósito nesta trajetória pautado na ética, humanidade e respeito; priorizemos e eternizemos momentos especiais com as pessoas, não em postagens, mas dentro de nossos corações e mente (saiba mais se meu vizinho precisa de um ombro amigo do que o dia a dia dos Kardashians); pratiquemos a tolerância a solidariedade e coroemos a humildade como virtude, uma vez que percebemos que nada somos. Como escreveu Padre Antônio Vieira em seus Sermões Seiscentistas, estamos diante de uma porta onde não podemos retroceder e temos medo de avançar. Ainda que chova, não desistamos da caminhada e criemos um propósito, do despertar do dia ao adormecer da noite.

Foto Daniel Braga

A arte será fundamental para sublimação de angústias e incertezas deste jogo. Vamos agarrar com vontade os fios de luz que as “Rendeiras do Universo” estão nos permitindo e, juntos, vamos tecer uma linda história certos da única certeza de que temos hoje: A VIDA!

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