Xandy Novaski entrevista a atriz Sonia Zagury

SONIA SAGURY - Crédito Arquivo Pessoal

A atriz SONIA ZAGURY tem uma história de vida que poderia resultar num filme, de tão emocionante. Nascida no Marrocos, filha de pais brasileiros, ainda menina ela se deparou com o distanciamento do pai, levado a um campo de concentração na Segunda Grande Guerra Mundial. Já no Brasil, tornou-se executiva na Embaixada Americana por 13 anos e no Copacabana Palace por outros 6, dentre outras empresas multinacionais. Contudo, seu lado atriz pulsava, tanto que o destino preparou uma linda vereda em sua carreira. São vários os papéis que marcaram a nossa teledramaturgia, dentre eles a inesquecível Antônia de Terra Nostra, na Rede Globo. Confira a trajetória de vida dessa atriz fantástica, que é puro cinema!

1 – Você veio ainda menina do Marrocos. Como foi a adaptação numa cultura completamente diferente da que você vivia lá?

Meus pais nasceram no Brasil e decidiram voltar pra cá quando a guerra acabou. O Brasil, do qual eu só sabia o nome, abriu uma nova era na minha vida. Passou a ser o lugar que eu considero meu país do coração. Hoje talvez eu seja até mais brasileira do que meus pais o foram algum dia. 

2 – Sua saída do Marrocos acontece após a Segunda Grande Guerra. Para nós aqui no Brasil, as referências são sempre as europeias, principalmente oriundas da Alemanha e Polônia. Como foi viver tempos tão sombrios na cidade de Casablanca?

Fui uma menina que cresceu nesse clima convivendo com o extermínio de seis milhões de judeus em campos de concentração. Meu pai chegou a ser levado para um deles no deserto do Saara, e que era comandado por uns franceses que colaboravam com o nazismo. Mas felizmente com a chegada dos norte americanos na África do Norte ele foi libertado após três meses de cativeiro. Não foi muito fácil não.  

SONIA ZAGURY COM 3 ANOS, AINDA EM CASABLANCA, MARROCOS - IMAGEM DA INOCÊNCIA - Crédito Arquivo Pessoal

3 – No Brasil dos anos 50, você viveu tempos áureos no Rio de Janeiro. Como era aquela época nos calçadões da zona sul e que resulta em saudade?

Ainda na idade escolar eu era considerada avançada pra minha época. Quando comecei a trabalhar, ganhava meu dinheiro, chegava à noite em casa, às quatro da manhã, minha mãe não gostava. Dizia: “O que os vizinhos vão pensar?”. Com meu pai eu não tinha problema, não. Ele sempre foi muito compreensivo. Mas olha, nada disso impediu que eu fizesse tudo aquilo que tinha vontade. Posso dizer que não me arrependo de nada, não. Muito pelo contrário. Só me arrependo daquilo que não fiz. Foi uma época muito boa. O Rio de Janeiro viveu seus anos dourados.

4 – Quando a atriz passou a ganhar espaço em sua vida?

Foi a minha paixão pelo teatro que fez com que eu aliasse a longa carreira de executiva à arte de interpretar. Comecei com uma espécie de terapia, fazendo cursos, até que me tornei profissional com umas pequenas participações em peças, novelas. Não preciso dizer que isso foi um bálsamo na minha vida.

SONIA ZAGURY COM 11 ANOS, NO BRASIL, APÓS A II GUERRA MUNDIAL - ALUNA DO COLÉGIO SANTO AMARO - Crédito Arquivo Pessoal

5 – Você viveu papéis marcantes na teledramaturgia, dentre eles a Antônia de ‘Terra Nostra’. O que permanece daquela época em você?

A Antônia de Terra Nostra foi um presente da TV Globo pra mim. Foi uma honra trabalhar naquela novela maravilhosa, que foi sucesso internacional. Isso realmente ficou na minha lembrança e vai ficar para o resto da vida. 

6 – Na sua carreira há passagens marcantes no teatro e principalmente no cinema. Qual é o papel da sétima arte na vida do ator e do público?

Ingressei no cinema mais tarde, mas foi uma experiência maravilhosa. Eu realmente gostei de fazer cinema, tanto como eu gosto de fazer televisão e teatro. O cinema representa um papel muito importante pra mim, na minha vida de atriz.

SONIA ZAGURY NO DESFILE DE MISS BANGU - DÉCADA DE 50 - Crédito Arquivo Pessoal

7 – A dramaturgia tem a capacidade de exteriorizar a criança que existe em nós, envolvendo-nos com a ficção. Como isso eclode em você?

No teatro, o momento é mágico. E é inexplicavelmente extasiante. Viver os personagens como se fossem reais mexe com a nossa fantasia e exterioriza a criança que existe dentro da gente. Nós nos envolvemos com a ficção ficando às vezes impossível separá-la da realidade. É quase uma catarse, como se vivêssemos com um pé no chão e outro no ar.

SONIA ZAGURY NA SUA PRIMEIRA NOVELA QUATRO POR QUATRO, REDE GLOBO - Crédito Divulgação

8 – Quando o ator sai da fantasia e cai de novo na realidade, o mundo se torna o quê?

Quando caímos na realidade com os dois pés no chão, o mundo se apresenta mais feio, sem os encantos dessa fantasia que é a arte de representar, e que só nós os atores podemos entender.

SONIA ZAGURY VIVENDO A INESQUECÍVEL ANTÔNIA EM TERRA NOSTRA, REDE GLOBO - Crédito Divulgação

9 -No ofício de ator há sempre as férias forçadas, ou seja, aquele intervalo entre um trabalho e outro. Como você lida com isso?

No momento o meu lado atriz está reprimido. Espero que seja temporário, por causa dessa pandemia que infelizmente paralisou tudo. A relação do artista com seu trabalho é permanente, a gente se encontra sempre em ebulição. Penetra no sangue e nada consegue tirá-lo de você. Profissão ingrata, né, pois tem seus altos e baixos. O ator quer estar sempre trabalhando e é obrigado a tirar longos períodos de férias forçadas por não existir trabalho para todos.

SONIA ZAGURY NA NOVELA EXPLODE CORAÇÃO, REDE GLOBO - Crédito Celito Medeiros

10 – Vivemos tempos de confinamento devido à pandemia. Você inclusive participou da última novela das sete ‘Salve-se Quem Puder’, que foi interrompida. Existe alguma situação atual que tenha vivido e que lhe remete aos tempos de guerra?

Eu acho que a situação atual é muito pior do que qualquer outra que eu já tenha vivido. Parece um pesadelo, porque não tem perspectiva para acabar, não sabemos o que vai acontecer daqui pra diante, se o mundo vai ser igual. Eu acredito que não. Só espero que, pelo menos, tenhamos oportunidade de voltar a uma vida normal entre aspas, e que possamos voltar a trabalhar. Tá muito difícil realmente. A situação que eu vivi na Guerra Mundial, eu era criança e talvez não atinasse, não achasse que fosse tão violenta como está sendo agora. Enfim, eu só espero que possamos voltar a trabalhar.

11 – Que conselho você dá às pessoas que, por algum motivo, pandemia ou medos, deixou de viver um sonho profissional?

Eu só posso aconselhar a todos que tiveram seus trabalhos suspensos, não só pela pandemia, mas por outros motivos, falta de verba, patrocínio, etc. Nunca perder as esperanças. Sempre há uma porta que se abre, ou mesmo uma janela. Mas a gente não pode deixar de sonhar. A nossa profissão é essa, não perder as esperanças. 

SONIA ZAGURY E MARCIA MARIA NO LONGA-METRAGEM QUANDO CHEGA A HORA DE ESQUECER - Crédito Divulgação
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