Douglas Delmar: Florbela Espanca - A dor e a delícia de sentir intensamente

Capa do livro Sonetos - Crédito Editora Pradense

                                         E se um dia hei de ser pó, cinza e nada

                                          Que seja a minha noite uma alvorada

                                          Que me saiba perder, pra me encontrar…

 

Nascida em Vila Viçosa, em 1894, a moça miúda e de olhos negros não imaginava que iria tornar-se um dos maiores nomes da poesia feminina de Portugal. 

Na infância teve duas mães: Uma legítima, Antónia da Conceição Lobo e a outra, Mariana Toscano, que a criou. Porém, os laços com a mãe biológica foram muito ínfimos, fato que pode ter contribuído para a inspiração artística da poetisa, a figura feminina triste e abandonada. 

Florbela rabiscou os primeiros versos desde cedo, quando aos oito anos de idade já sabia sentir a vida de forma dramática e intensa. Na adolescência mantinha uma relação profundamente fraternal com o irmão Apeles Espanca, dois anos mais novo. Aos 19 anos casou-se com Alberto Moutinho, seu primeiro marido em 1913. Embora casada, Florbela não seguia o padrão submisso das mulheres da época. Por possuir uma personalidade forte e o gosto pela escrita, aspirava por sonhos mais altos e nunca desistiu de publicar seus versos, mesmo não obtendo apoio de seus cônjuges e sendo ignorada pelos círculos literários mais exigentes. 

O amor romântico foi um dos traços mais marcantes em sua escrita. Permitiu-se experimentar as paixões em sua total plenitude e intensidade e, entregou-se às emoções com ardor. Em 1919 lançou sua primeira obra, o livro de sonetos “Livro Das Mágoas

Ingressou na Faculdade de Direito, em Lisboa, onde viveu uma época boemia, usando calças sempre que lhe apetecia e tendo contato com outros escritores. Foi quando saboreou os amargores da vida: teve um aborto espontâneo, seguido de uma crise de neurastenia (doença herdada de sua mãe biológica) que abalou o lado emocional da escritora, resultando em seu desenlace matrimonial, em 1921.

Entalhe em madeira pertencente a Ederson Cruz

Após o triste episódio, Florbela enamora-se por um oficial chamado António Guimarães, casando-se com ele no mesmo ano. Porém, a união prosperou até o ano de 1925, período em que sofreu um segundo aborto involuntário e mais crises de saúde. 

Antes mesmo de divorciar-se do segundo marido, apaixonou-se novamente. Desta vez, pelo médico Mário Lage, com o qual passou a morar. Porém, o destino preparava um novo golpe para a poetisa, uma dor que ela jamais se recuperaria: um acidente com o hidroavião que ceifou a vida do irmão Apeles, em 1927, cujo corpo nunca foi encontrado. Florbela guardou dois flutuadores recuperados dos destroços do hidroavião até o dia de sua morte. Nesse ano, escreveu um conjunto de contos chamado “As Máscaras do Destino”, com a seguinte dedicatória “A meu irmão, a meu querido morto”. Em 1928, teria atentado contra a própria vida pela primeira vez.

Em 1930, seu derradeiro ano, Florbela já debilitada pela doença, recebe o diagnóstico de edema pulmonar. Fuma em demasia e começa a perder peso. Começou a produzir o seu Diário do Último Ano, encerrando-o com a frase “e não havendo gestos novos nem palavras novas! ”

No dia 8 de dezembro de 1930, no seu 36° aniversário, fechou-se em seu quarto e pediu para não ser incomodada. Naquela madrugada, a poetisa despediu-se da vida e seus dissabores, ingerindo uma grande quantidade de barbitúricos. Antes teria deixado uma carta com alguns pedidos, dentre eles, queria que os destroços do hidroavião do irmão Apeles fossem depositados em seu caixão.

Florbela Espanca produziu inúmeros contos, traduziu romances franceses e colaborou em revistas femininas. Porém, os poemas são suas obras mais marcantes, quase sempre em sonetos, permeados pela temática amorosa e romântica, juntamente com um sentimento de profunda solidão, uma imensa saudade, a tristeza, o tédio, o erotismo feminino e o desejo da morte. 

Há em Florbela um querer imenso, uma vontade insana, dramática e desconhecida que habita todos os seres donos de almas profundas e insatisfeitas, os tais poetas. Há uma mulher que quer amar e ser perdidamente amada, uma mulher que buscou o amor desesperadamente, mas que nunca na vida o encontrou. Há uma mulher que sofre e regozija a dor e a delícia de sentir a vida e suas sensações ao extremo. 

 

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