Xandy Novaski entrevista Adele Fátima

ADELE FÁTIMA - Crédito Arquivo Pessoal

 “Se o planeta, que é milenar, está em SOS, que dirá a humanidade!”

Linda frase, né! Quem a disse foi ADELE FÁTIMA, ícone da nossa dramaturgia e arte. Bailarina, modelo, cantora, atriz e ambientalista, a artista tem uma linda passagem pelo cinema, inclusive o internacional. Além disso, foi destaque no Carnaval brasileiro, é focada em assuntos do meio ambiente, tem cinco livros e se prepara para aclamar um documentário e um longa-metragem sobre a sua majestosa trajetória de vida e carreira. Confira!

ADELE FÁTIMA e OSCAR NIEMEYER - Crédito Arquivo Pessoal

“8 Adele Fátima e Sargentelli. Foto: Arquivo Pessoal[/caption]

Sua carreira começa aos 17 anos participando do show de mulatas comandado pelo Osvaldo Sargentelli. Como foi fazer parte dessa época de ouro do samba?

O princípio da minha carreira foi a minha base. Quando a temos, vamos em frente. Sargentelli me ensinou muita coisa. Ele tratava a gente com muito carinho e respeito. Dali eu me preparei para seguir adiante. Tenho agradecimentos mil ao Sargentelli. Ter trabalhado com ele pra mim foi tudo de bom. Aprendi muito, principalmente a ter limites. Comecei, então a diversificar minha profissão. Fiz cursos, me formei em balé clássico e contemporâneo, afro, fui me aperfeiçoando. Quis ir além do título de dançarina. Tenho meu registro como bailarina, modelo, cantora, atriz e ambientalista. Daí pra frente foi tudo como uma bola de neve. Fui fazer televisão, cinema, teatro, comerciais, capas de revistas, capas de disco. Até empresária de futebol eu fui. Foi uma época glamorosa, de respeito.

 

 Você estreou no Carnaval ainda criança e foi destaque na Avenida. Escola de Samba é sinônimo de ‘evolução’. Ao assistir as apresentações na Sapucaí nos dias de hoje, qual é seu parecer sobre a evolução das Escolas? O Carnaval ainda tem o glamour daqueles tempos?

Eu estreei no Carnaval com 04 anos de idade no ‘Bafo da Onça’ e com 18 anos eu já era rainha do bloco. Desfilei em várias Escolas de Samba: Salgueiro, Mocidade, Portela, Vila Isabel, União da Ilha. Sem querer, inventei uma posição chamada ‘Madrinha de Bateria’. Pedi ao Castor, no dia do meu aniversário, data em que festejamos juntos, pois ele estava aniversariando também, se eu poderia vir daquela maneira que eu já estava gostando muito, pois eu adorava sair perto da bateria desde o bloco ‘Bafo da Onça’. Ele deixou e gostou da ideia. Lembro que ele me dava champanhe, que é uma bebida que amo, e eu repassava aos músicos que deixavam o sangue no instrumento. Então vim como Madrinha, cuidando deles, isso em 1981. Aquele tempo era melhor, pois era o Carnaval em si, as pessoas se divertiam, iam pra Escola pra dançar. O Carnaval chamou muito o turismo para o Rio de Janeiro. Hoje vemos mais a coreografia das alas, uma atrás da outra, algo mais teatral, representando. Hoje é muito business.

CAPA DA REVISTA GENTE - Crédito Arquivo Pessoal

Em 1978 você protagonizou um comercial de TV, o das Sardinhas 88, que fez um sucesso tremendo. Hoje vemos que o garoto ou garota propaganda é algo mínimo na publicidade, diferentemente dos áureos anos 70 e 80. Como foi a repercussão nas ruas naquela época?

Foi bom, pois me popularizou, já que a exibição era nacional. Contudo, tenho uma carreira diversificada, mas o pessoal lembra muito da ‘88’. O lado bom foi o que me popularizou e me aproximou das pessoas, fiz muitos amigos e os tenho até hoje.  Antigamente o comercial era mais marcante. Hoje é tudo mais mastigado. Houve mudança na televisão, em tudo. Fiz vários comerciais. Fiz do ‘Pechincha Modas’ duas vezes, o da ‘88’ foram três vezes. Os outros não tiveram a força deste que foi exibido durante a Copa de 1978. Nos intervalos dos jogos da Seleção entrava o comercial, e na Rede Globo, que tem força.

 A sétima arte também tem uma passagem fantástica na sua carreira. São 18 filmes no currículo. Uma obra memorável é “Histórias que Nossas Babás Não Contavam”, sucesso que foi além das salas de cinema. Como era fazer cinema naquela época?

O cinema sempre foi a minha maior paixão e continua sendo até hoje. Inclusive está sendo feito um filme sobre minha vida, e estou muito feliz por isso, em poder mostrar o meu lado ‘essência’, que as pessoas desconhecem. Elas conhecem o lado artístico. Fazer cinema pra mim é tudo, pois é algo que fica, que praticamente se eterniza. O longa-metragem ‘Histórias que Nossas Babás Não Contavam’ passou no SBT, mas também na TV Educativa, na TV Bandeirantes e no Canal Brasil.

 

CARTAZ DO FILME HISTÓRIAS QUE NOSSAS BABÁS NÃO CONTAVAM - Crédito Arquivo Pessoal

O filme franco-britânico “Moonraker” contou com a sua atuação como uma Bond Girl brasileira. Aliás, você é a única com o título, representando a beleza da mulher brasileira. Como surgiu o convite, vindo do produtor Albert Broccoli, famoso por produzir a franquia ‘James Bond’ durante três décadas?

Foi em pleno Carnaval que o produtor de cinema Albert Broccoli me descobriu, e através de um amigo em comum. Estávamos no mesmo camarote. Esses produtores têm olhar clínico e perguntou ao meu amigo quem seria eu. Fomos apresentados. Na época vinha numa escola de samba como destaque. Ele sabia que eu representaria aquele papel bem. Fiz uma entrevista com a equipe e acabei assinando o contrato. Teve uma grande festa no Hotel Meridian com todo o elenco e cerca de cinquenta fotógrafos do mundo inteiro pra mostrar qual atriz faria papel com o Roger Moore. Depois foi feita outra festa grandiosa no Intercontinental na Barra para celebridades, TV, personalidades e mídia, pra mostrar o filme. Fui capa de revista com o Roger Moore, estou no cartaz do filme. Fui a única Bond Girl brasileira, e acredito que continuarei sendo, pois não sei se haverá mais James Bond, já que Albert Broccoli e Roger Moore morreram.

  De todos os filmes que atuou, qual segue em seu coração até os dias de hoje?

Gostei de atuar no Brasil. Tem os internacionais: ‘Morte em Palco’ é italiano, o ‘Si Tu Vas à Rio… Tu Meurs’ é francês, o Ronald Biggs era uma pessoa que eu gostava muito, o ‘Moonraker’ com o Roger Moore foi um divisor de águas na minha carreira no cinema, um pulo maior, fui coroada como a única Bond Girl brasileira. Gosto dos brasileiros, ‘As Granfinas e o Camelô’ que é um filme com o Carlos Mossy. Estreei no cinema com ele e fizemos juntos ‘Manicures a Domicílio’ também. Tive bons papéis, não existe papel pequeno. ‘Natal da Portela’ que foi pra Cannes e fui indicada a melhor coadjuvante, com Milton Gonçalves e Grande Otelo. ‘Os Amores da Pantera’ com direção do Jece Valadão. Trabalhei com grandes atores. É sempre uma aula. ‘Histórias que Nossas Babás Não Contavam’ foi um filme que gostei bastante, um clássico, um dos filmes que teve três épocas áureas: quando estreou, depois de 10 anos voltou e por fim as exibições na televisão. Passou na Europa e América do Sul. Um filme muito bem feito, muito bem cuidado, muito respeito entre os atores. Dos 18 filmes que fiz gostei de todos. Gostaria de continuar fazendo cinema. E agora tá sendo feito um filme da minha vida e um documentário também.

ADELE FÁTIMA DESFILANDO NA ‘MARQUÊS DE SAPUCAÍ’ - Crédito Arquivo Pessoal

Como está a produção do longa-metragem e do documentário sobre sua vida e carreira, já que a pandemia tem dificultado bastante o audiovisual?

Tá tudo sendo produzido online. Até antes da pandemia vinha fluindo bastante. Fizemos diversas reuniões. São três roteiristas escrevendo. Estava de vento em popa. Com a chegada da pandemia ficou mais difícil, porém, tudo caminhando. O roteiro do longa-metragem está no segundo tratamento. A trama está muito bonita, pois ela é real. O que sobressai muito é meu lado profissional, mãe, amiga, empresarial. São diversas fases da minha vida. Também falo das perdas que tive, perdi minha filha com 18 anos. O filme tá muito bonito, estou apaixonada por ele ter as duas partes, o lado bom e o lado ruim, que é a nossa vida. Os lances ruins também vêm pra acrescentar, lapidar-nos. O documentário é menor, mostram-se os vídeos, capas de revistas. Acho tão bom quando somos lembrados vivos! Estou feliz da vida e agradecida. É uma homenagem que está sendo feita.

 Na teledramaturgia, você trabalhou em duas minisséries marcantes, “Agosto” e “Memorial de Maria Moura”, além de duas novelas. Gostaria de ter feito mais televisão?

Eu amo trabalhar! Dentro da minha arte é o que eu sei fazer de melhor. Trabalhei com grandes atores, com o meu querido Norton Nascimento que já está com Deus e fui sua esposa na minissérie ‘Agosto’. Foi muito bom, gratificante, você cresce com esses atores, Glória Pires em ‘Memorial de Maria Moura’, que contou com a direção do Mauro Mendonça Filho. Também fiz ‘Sítio do Picapau Amarelo’, e as novelas ‘Ti Ti Ti’ e ‘Gabriela’. Gostaria de estar fazendo novela. Continuo na carreira diversificando. Hoje tenho 41 anos de casamento, tive dois filhos, Diogo e Bárbara. Bárbara está com Deus. Diogo me deu dois netos. Tem os filmes que estou fazendo e os livros. Fora isso minha vida é viajar, mas como aprendizado, conhecendo a história deste planeta lindo chamado Terra. Moro aqui e em Portugal. Viajo pra aprender os costumes, os artesanatos, as danças, um grande aprendizado. Meu marido está aposentado e juntos fazemos essa roda ao mundo. E agradeço a Deus todos os dias por ele me dar essa condição em conhecer nosso planeta melhor em todos os sentidos.

ADELE FÁTIMA - Crédito Arquivo Pessoal

Você também teve uma bela passagem na linha de shows da Globo, como o Viva o Gordo e o Chico Anísio. Como foi o trabalho?

Foi mamão com açúcar, correr para o abraço, e com dois mártires da linha de show. Era tudo maravilhoso, tudo que uma atriz possa querer como aprendizado. Também fiz teatro com o Atílio Riccó. Fiz ‘Férias Extraconjugais’, trabalhando com Ewerton de Castro. Foi um tempo de ouro, só aprendi com eles. Trabalhei com Betty Faria no ‘Brasil Pandeiro’, no ‘Alerta Geral’ com a Alcione, no ‘Fantástico’. Toda a programação da linha de show eu adorava trabalhar.

Como cantora, você tem um momento memorável na carreira ao lado do saudoso Cauby Peixoto. Foi quando ele completou 25 anos de carreira. A parceria se estendeu inclusive para apresentações no Chile. O que desse momento a Adele carrega ainda hoje na lembrança?

Ele havia comemorado com a  ngela Maria seus 25 anos de carreira em São Paulo. Então, veio para o Rio de Janeiro, e na mídia se falava bastante da minha carreira. O Cauby decidiu que eu estaria nessa comemoração dos 25 anos de carreira dele no Rio. Eu disse a ele que cantar ao seu lado não seria tão fácil, até porque o meu canto era simples e ele um marco. Ele respondeu que já tinha me visto cantando e que gostava do meu tom de voz meio rouca. ‘Eu quero você ao meu lado’. E fizemos três meses no Cine Show Madureira. Foi lindo! Acabamos indo para o Chile. Ele disse que tinha uma estrela que a levaria junto. Fui convidada para me apresentar numa TV com exibição nacional. Lá eu tive a minha participação e ele a dele. Minha carreira de cantora explodiu lá. Fui convidada pra cantar uma semana no ‘Viña Del Mar’, e também pra representar o Brasil no ‘Festival da Canção’. Acabei passando mal nesse meio tempo e não pude ficar. Não sabia o que tinha, não estava bem. Quando cheguei, fui fazer os exames e deu a gravidez do meu primeiro filho, o Diogo. Parei tudo. Voltei depois, montei uma banda e voei com o grupo o Brasil todo com o patrocínio da Vasp. Gravei um CD pela Chorus onde interpretei ‘Morena de Angola’ e ‘Maluco Beleza’. Com o ‘Morena de Angola’ fiz vários programas de TV. Mas é como te falei: na vida tudo tem ciclos. Quando um fecha, o outro se abre. Eu sempre respeitei o fluxo da vida. Estou agora com a Simone Raio, cantora muito conceituada na Bahia. Ela me convidou pra ser madrinha do projeto ‘Feijão com Samba’. Quando a pandemia passar, pretendo estar na Bahia ajudando a Simone no projeto social, cantando no seu trio elétrico, ou seja, novamente minha carreira de cantora na ativa.

MAGAZINE DO FILME MOONRAKER - ADELE FÁTIMA, ROGER MOORE, PRODUÇÃO ALBERT BROCCOLI - Crédito Arquivo Pessoal.

Você tem 5 livros sendo produzidos. Fale um pouco sobre as obras. 

O primeiro livro é uma biografia em que relato desde quando nasci até os dias de hoje. É o livro carro-chefe, onde faço os ganchos para a chamada dos outros. O segundo é ‘Eu e o Carnaval’. Digo nele que eu já nasci do Carnaval, desde os 04 anos que participei de blocos, o que eu ganhei com isso, as viagens, fiz cinco capas de países nórdicos, estampei a latinha do primeiro café com leite gelado e água ardente no Japão e um óleo de bronzear na Itália, fui chamada para o 007 por causa do Carnaval, e acabei coroada pelo Oscar Niemeyer como ‘Musa de Inspiração da Apoteose’. O terceiro aponta minhas viagens, para conhecimento. A história do planeta me interessa muito, sou estudiosa e aprendo artesanato, danças, gastronomia. Tudo que posso aprender eu fico feliz com isso. Minhas viagens são como uma magia, ou seja, é só alegria. O quarto puxa para o lado espiritual. Abro meu coração para as pessoas que já perderam entes queridos, amigos. Não digo ‘perder’, pois não perdemos. Sou espiritualista e acredito que exista outra vida, o paraíso existe sim. Aqui é uma vida passageira, a de lá é definitiva. Aqui ninguém mora, todo mundo passa. Falo dos contatos que tive com minha filha. Falo do lado espiritual. Conforto, com as minhas palavras, o que fica no coração dos pais, dos parentes, da humanidade. Esse livro faz a chamada para o outro que é o ‘Terceiro Milênio’, que aponta essa nova era que estamos vivendo agora, completamente diferente de todas as outras. Precisamos encarar o futuro como ele é.

Por falar em terceiro milênio, quero terminar a entrevista apontando seu projeto ‘Terceiro Milênio’, que seria implantado na Lagoa Rodrigo de Freitas, nas 03 Disneys e em Hamburgo, na Alemanha. A capa do projeto é um relógio sem marcador. Por que a simbologia?

É que nós estamos num tempo em que ele acabou. Por quê? Chegamos a um ponto máximo da destruição do planeta. O ser humano precisa partir para um novo comportamento, pois estamos numa Nova Era. Temos que aceitar que o planeta agora exige respeito. É um alerta que eu faço. O projeto é uma visita onde o corpo humano é um planeta. Tudo se passa em salas e túneis. As pessoas olham através de cinco lunetas logo na entrada, e com uma interrogação acima de cada uma delas. Cada luneta tem uma imagem diferente. Tudo parece normal, até que sai do controle, com muito impacto: avalanche, terremoto, maremoto, vulcão, furacão. O projeto é todo impactante. A fúria da natureza vem pra cima dos seres humanos. As pessoas vão andando, vêm as mudanças da Lua, as suas fases que medem as plantações, as marés e a gestação na mulher. Tem a influência do Sol também, dos bichos em relação à extinção, que infelizmente até a borboleta entra para esse patamar. Tudo isso tem afetado o planeta, e não é só no Brasil. O progresso muito acelerado desacelera a vida. E muitos não entenderam ainda isso. A tecnologia é preciso, mas de uma forma mais amena. Eu espero que tudo isso termine bem, para o planeta e para os humanos. E que fiquemos cada vez mais habituados à natureza, ao meio ambiente. Nosso ar é tudo pra sobrevivermos.

ADELE FÁTIMA E CASTOR - Crédito Arquivo Pessoal
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