Xandy Novaski entrevista a atriz Thaïs Garayp

THAÏS GARAYP - Crédito Arquivo Pessoal

THAÏS GARAYP já nos presenteou com personagens inesquecíveis. Quem não se recorda de Anapurna em “Caminho das Índias” ou Terê Tenório em “Araguaia”?  Figura marcante no teatro, a atriz esteve presente em grandes musicais, como “Mulheres de Hollanda” e “Na Era do Rádio”. Sua trajetória na dramaturgia não para por aí. O filme “Filhos de Bach”, uma coprodução Brasil/Alemanha, contou com os dizeres que só o olhar de Thaïs Garayp consegue pronunciar. Com vocês, uma das atrizes mais talentosas de sua geração!

1- Sua carreira inicia-se nos palcos. E a música sempre esteve presente nessa jornada. Quando isso acontece, ou seja, a junção do atuar com o cantar, qual é o diferencial não só na expressão vocal, mas em todo o trabalho de corpo do ator?

Acho importantíssimo o ator ter pelo menos alguma vivência com a dança e o canto. Não precisa se tornar exímio, mas pelo menos permitir-se experimentar porque isso só acrescenta ao desempenho. Somos um todo: corpo, mente e alma, e a arte perpassa por tudo isso.

THAÏS GARAYP COMO ANAPURNA EM CAMINHO DAS ÍNDIAS - Crédito Arquivo Pessoal

2 – A cena teatral não é tão explorada pela mídia. Contudo, ela consegue levar o ator a patamares jamais imaginados pelo grande público. Você, inclusive, já se apresentou no exterior com produções de sucesso. Conta pra gente como foi essa ‘cena’ da sua vida!

Filha de funcionaria pública estadual e de um representante de laboratório, ambos lutadores mal pagos, tudo começou quando lá em 1974, minha mãe sempre sensível resolveu me matricular nas aulas de balé da Fundação Palácio das Artes, uma conceituada organização aqui em BH. Eu e meu irmão sempre demonstramos dotes artísticos, herança dos mouros (avô libanês e avó italiana) somados à arraigada musicalidade mineira (avós maternos). Fiquei bailarina de 74 a 76. Como cada ponto que Deus traça faz sentido na costura final, aconteceu de eu me candidatar a bolsista nas aulas de canto da mesma instituição onde tínhamos a chance de fazer figuração nas grandes óperas que eram produzidas nessa instituição. Descobri que eu era afinada e tinha uma boa voz. Daí, como queria aprender inglês e meus pais não podiam pagar, me candidatei a bolsista de uma instituição de inglês que possibilitava a participação num coral. Coincidentemente a maestrina era esposa do grande maestro do Coral ‘Ars Nova’ da UFMG e daí pra esse coral foi questão de meses. E lá estava eu viajando pras Filipinas/1979, quando o máximo que tinha feito era ir ao Rio de Janeiro visitar umas tias. Viajei muito pelo mundo com esse coral, Europa, Ásia e América Latina representando o Brasil. 

THAÏS GARAYP COMO TERÊ TENÓRIO EM ARAGUAIA - Crédito Arquivo Pessoal

3 – Na televisão você tem duas participações especiais e logo em seguida nos presenteia com a doce Abigail de ‘Como Uma Onda’. O que traz de saudade daquela época?

Estava eu já longe do coral ‘Ars Nova’ fazendo um musical atrás do outro, cito aqui “Na Era do Rádio”, “Mulheres de Hollanda”, “Pianíssimo” do Tim Rescala, “Mahagonny” e os “Sete Pecado Capitais” de Brecht, e fazendo também muitos vídeos empresariais e comerciais de TV em Minas Gerais, quando fui chamada pela Globo pra fazer uma participação em “Da Cor do Pecado”. Era uma cena icônica, o parto da protagonista Preta de Souza, vivida pela Taís Araújo, dentro de um ônibus, que percorria vários hospitais sem ser atendida, até que eu, uma reles passageira arregaça as mangas e faz o parto ali mesmo. Me lembro que o país parou nesse dia e eu fiquei feliz porque estava finalmente lá na nossa Hollywood, sem nunca ter planejado. Alguns meses depois veio outra cena icônica de Celebridade, a surra da personagem Maria Clara (Malu Mader) na personagem Laura (Claudia Abreu). Eu estava lá como a fiel funcionária da protagonista que a ajudava a se trancar no banheiro pra efetuar a surra. Pronto! O Brasil parou nesse dia também e meu telefone disparou com os amigos e parentes, tamanha a abrangência da cena. Eu fico muito feliz que tudo tenha acontecido de um jeito mágico como é o universo da televisão. Isso porque ainda não contei que de 76 a 80 me formei em Engenharia Civil cantando e viajando com o coral que já citei. Muito bem, de engenheira a atriz de uma das mais concorridas redes de TV, a Globo, entrando de vez para a teledramaturgia em “Como Uma Onda”, fazendo uma novela depois da outra,  culminando agora com o grande sucesso que foi ‘Bom Sucesso’. Sempre tive a oportunidade de contracenar com grandes nomes da dramaturgia como Hugo Carvana, Laura Cardoso, Tony Ramos, Antônio Fagundes, e por aí vai. De indiana a Índia, e de empregada a dona de Circo, sigo agradecendo a Deus a versatilidade que ele me deu.

THAÏS GARAYP - MOMENTOS DA CARREIRA - Crédito Arquivo Pessoal

4 – Em ‘Caminhos das Índias’ você também se destaca com a Anapurna, a prima de Ashima (da saudosa Mara Manzan). A personagem chega para cuidar da pastelaria enquanto a prima viaja. Anapurna estava na sinopse ou ela foi criada devido ao afastamento da Mara por causa do tratamento de quimioterapia?

Em ‘Caminho das Índias’ eu estava cotada pra fazer outro papel do núcleo principal que acabou sendo feito por outra atriz. Mara Manzan infelizmente adoeceu e teve que se ausentar de uma boa parte das gravações. Então, para manter a coerência da trama aparece a prima Anapurna, pra cuidar dos filhos e da lanchonete da prima Ashima que viajou pras Índias a negócios. Várias cenas engraçadas aconteceram na lanchonete ambientada na Lapa e protagonizadas, por exemplo, por Dira Paes. Fui muito feliz nessa novela que foi mais um dos grandes sucessos da Globo, tendo representado o Brasil e recebido pela primeira vez o prêmio internacional Emmy Awards. Olha só que interessante: por me atentar agora à sonoridade do título da novela, que tem a palavra ‘Índias’, acabei me lembrando da ‘índia’ Iraci, mãe da personagem da Letícia Sabatella em ‘Desejo Proibido’, papel que contribuiu mais uma vez pra eu entender sobre essa versatilidade que o ator precisa ter. 

5 – Anapurna se tornou outro grande momento da sua carreira. Como foi se despedir dessa personagem?

É sempre doloroso se despedir de um personagem, ainda mais quando ele nos cai tão bem. Mas são os ossos do ofício, temos que renovar a esperança e abrir espaço para outros que virão com certeza e nos trazendo muito aprendizado.

THAÏS GARAYP COMO BEZINHA EM BOM SUCESSO - Crédito Arquivo Pessoal

6 – Eis que em 2010, ao som de ‘Companheiro’ (belíssima canção interpretada pela Maria Eugênia) estreia ‘Araguaia’. E a novela nos traz outro grande presente: Terê Tenório, que se torna o centro das atenções na trama e te coloca frente a frente com Lima Duarte. Você imaginou que a Terê seguiria pelo caminho que lhe foi apresentado?

Eu não sabia nada do universo do Circo e fui escalada pra fazer a dona de um mambembe ainda por cima. Mas a Globo sempre nos propicia a preparação dentro dos temas abordados e assim me tornei grande amiga do pessoal do Circo que nos deu todo o suporte. Circo Las Vegas. Até hoje sou amiga de uma das matriarcas desse circo. Nos falamos pelas redes sociais.

7 – Na sua trajetória televisiva ainda temos ‘Sangue Bom’, ‘Sete Vidas’ e por último ‘Bom Sucesso’ que, aliás, te coloca ao lado de Antônio Fagundes e está sendo um sucesso em Portugal. Como tem sido a repercussão da trama em terras lusitanas?

‘Bom Sucesso’ está sendo um sucesso arrebatador em Portugal, assim como foi aqui no Brasil. Recorde de audiência! Tenho muito orgulho de ter feito parte, ainda mais contracenando com um dos maiores ícones da TV brasileira que é o Antônio Fagundes.

THAÏS GARAYP E EQUIPE DO FILME FILHOS DE BACH, BACH IN BRAZIL - Crédito Arquivo Pessoal.

8 – Você tem uma trajetória interessantíssima no cinema, e aponto aqui ‘Filhos de Bach’, uma produção Alemanha/Brasil com direção de Ansgar Ahlers. Conta pra gente: como é trabalhar numa coprodução estrangeira?

Não foram tantas experiências assim, mas bem significativas pra mim. O cinema é outra linguagem, diferente do teatro e da TV, e eu tive oportunidade de pegar equipes muito competentes e pude aprender muito, como em ‘O Circo das Qualidades Humanas’ contracenando como mãe de Daniel de Oliveira, “Mulheres do Brasil’ como mãe de Camila Pitanga, e a produção internacional “Bach in Brazil” filmada em Berlim e Ouro Preto, fazendo uma ranzinza disciplinar de uma instituição para jovens carentes. Foi uma experiência linda, ainda mais que me fez reviver as viagens ao exterior que tanto me iluminaram na época do coral.

9 – Quero terminar com algo inusitado, falando dos seus gatinhos, principalmente dos que já se foram. Qual é o poder de um pet no dia a dia de uma pessoa, e como você está se virando nos tempos de pandemia?

Meus gatos foram minhas grandes paixões. Já tinha tido experiência com cachorros, pássaro preto, papagaios, calopsitas, mas os gatos foram meus grandes amores. O gato é uma lição de independência mesmo partilhando afeto, lição de como lidar com a afetividade sem se tornar escravos dela. Os gatos se bastam. Isso foi fundamental pra mim que levo uma vida mais pra solitária. Aprendi a me bastar, sem jamais perder a ternura.

THAÏS GARAYP COMO ROSA EM SETE VIDAS - Crédito Arquivo Pessoal
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