Xandy Novaski entrevista o Capitão Portella

CAPITÃO PORTELLA - Crédito Divulgação

CAPITÃO PORTELLA cresceu na periferia e, assim como a maioria, passou por situações de discriminação. Entretanto, no seu âmago pulsava o sonho de vestir uma farda. Atrelado aos estudos, seu grande aliado, ele foi vencendo barreiras e hoje o quase Major contabiliza o sucesso na carreira e a satisfação em poder ajudar o próximo. Confira a história de vida emocionante de um homem que tem no trabalho, na educação e cultura, os rumos certos para mudar a realidade de todos nós!

1 – Quero iniciar apontando os inúmeros talentos que há nas comunidades, mas que pelos noticiários de violência, muitas vezes são ofuscados. Como fazer com que isso se reverta?

Holp, Holp, Salve, Salve!  Você está certo porque realmente tem inúmeros talentos nas comunidades que, por vezes, são ofuscados pelos noticiários de violência. O que podemos fazer para que isso se reverta?  O tema não é simples, considero um tema bem difícil. Porém, existe um caminho, esse caminho passa por dois sustentáculos: a cultura e educação. Hoje o Estado deixa muito a desejar na parte cultural, principalmente nas comunidades. O que acontece é que o poder paralelo aproveita essa ausência do Estado e absorve toda essa garotada, toda essa juventude que tem um grande poder cultural. São dançarinos, bailarinos, atores, compositores e MC’s, enfim, uma diversidade cultural muito grande da qual o Estado deixa a desejar em investimento. E aí o tráfico absorve essas crianças e adolescentes. Muita das vezes financiando até o próprio trabalho deles no local. Esse poder cultural precisa ter um investimento maciço. O Estado precisa entrar com a cultura nas comunidades. Se isso acontecesse eu tenho certeza que nós não teríamos tantos noticiários violentos em nossas comunidades. Se a gente tivesse o Estado realmente fazendo rodas culturais, campeonatos de dança, campeonatos de Happy e investindo na cultura maciçamente na comunidade, nós poderíamos usar esse poder para traçar grandes caminhos de saída para esses jovens tão talentosos, tudo isso atrelado à educação, é claro.

2 – Você viveu a rotina de uma comunidade, onde jovens são discriminados. Sentiu na pele essa discriminação?

Sim, exatamente, eu vivi a rotina de uma comunidade. É onde a gente sente, na pele, essa discriminação. E não é o fato de você ser branco ou negro. Dentro do nosso país o negro sofre muito mais discriminação do que o branco. Porém, se você é oriundo de comunidade você também é visto de maneira diferente. Isso aconteceu comigo inúmeras vezes. Às vezes eu ia numa entrevista de emprego e me perguntavam onde eu morava. Era nessa hora que eu percebia que era alvo de discriminação.  Quando passava o meu endereço era certo de sofrer discriminação, porque morando em comunidade carente, muita das vezes, não chegava nem o serviço do correio lá, é considerado como área de risco, onde o correio não faz entrega regular da sua carta, então, a discriminação é vivida e sentida dia após dia.

3 – Aos 15 anos, impulsionado por um filme, o lendário ‘Top Gun’, você prestou e foi aprovado para ‘Aprendiz de Marinheiro de Santa Catarina’. A arte, também tão sofrida, te inspirou. Qual é a importância dela na vida dos jovens?

Realmente a arte é inspiradora e eu fui inspirado muito por ela. Assistia ao grande clássico do cinema, Top Gun. Foi ele que me motivou realmente a estudar, fazer prova para a Marinha. Com 15 anos eu fui aprovado para aprendiz de marinheiro de Santa Catarina. Por isso que a arte é tão importante, pois se não fosse aquele filme eu não teria vivenciado os sonhos de um adolescente de 15 anos com um desejo de mudar sua vida e vestir uma farda branca. Então, vejam a importância e a influência que a cultura pode ter em nosso meio. Por isso que a gente tem que fomentar a cultura e todos os poderes públicos também. Só dessa forma teremos uma virada em nosso país. Se tivermos um investimento maciço em educação e cultura, poderemos mudar a vida de milhares de jovens, pois educação e cultura andam lado a lado.

4 – O que te trouxe de volta ao Rio de Janeiro, após passar para Aprendiz de Marinheiro?

Olha, o que me trouxe de volta ao Rio de Janeiro após passar para aprendiz de marinheiro foi, na verdade, um grande amor de adolescente. Tinha uma namorada e estava longe dela em Santa Catarina e a namorada falou: “Volta que eu estou com saudade”. Eu era jovem, adolescente, achando que poderia ter tudo na vida ao mesmo tempo. Resolvi não dar importância para o meu sonho, segui o meu coração. Voltei. Assim que voltei, terminamos em um mês e meio depois e ficou a dolorosa experiência de ter perdido um grande sonho profissional em minha vida. Graças a Deus, Ele me deu força e a gente recuperou o caminho dos estudos. E hoje Capitão quase Major da nossa gloriosa Polícia Militar com muito orgulho, viu!

5 – Sua vontade de vencer não media esforços: vendeu picolé na praia, foi porteiro de loja comercial, vendedor em loja de shopping. Eis que é aprovado em outro concurso, o de Guarda Municipal do Rio de Janeiro. A gente vê em noticiários as discordâncias entre polícia e comunidade, parece até que uma turma tem um distanciamento sentimental da outra. O que te animava em fazer parte de uma grande corporação como a GM-Rio?

Olha, realmente a gente teve uma experiência muito bacana, profissional e de vida. Fui vendedor de picolé, vendedor de shopping, enfim, tive várias experiências profissionais até passar pela nossa gloriosa Guarda Municipal e, realmente, a Guarda Municipal, e posso falar para vocês, de carteirinha, é uma grande corporação. Uma corporação de amigos e uma corporação que está à frente de muitas outras no Brasil. Ela tem um setor de tecnologia hoje que nem a Polícia Militar tem, desenvolvido somente para a Guarda Municipal. Então eu posso dizer de coração que é uma excelente casa e uma excelente corporação e ela tem tudo para crescer realmente. 

CAPITÃO PORTELLA - Crédito Divulgação

6 – Da GM-Rio para a PMERJ (Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro). Posso dizer que você materializou sua vontade em ajudar os jovens das comunidades?

Da GM para a PM, realmente materializa a minha vontade em ajudar o jovem na comunidade. Eu, independente da profissão que eu tivesse na vida, a minha grande vontade era ajudar o próximo. Então, em qualquer corporação que eu estivesse, ou não corporação, ou trabalhando de CLT, a gente estaria ajudando ao próximo. Na Guarda Municipal eu ainda saí como aluno porque fui aprovado para a PM. Na PM, com 16 anos, eu me sinto muito realizado pelas inúmeras vezes que a gente pode ajudar o cidadão. Quando a gente prendeu um estuprador tirou ali da rua um matadouro homicida, e um ladrão roubando as pessoas, enfim, tantas coisas ruins nós evitamos porque a gente estava lá e agiu preventivamente. Então isso é muito gratificante e isso é que nos faz caminhar sempre seguindo em frente, viu! É um prazer muito grande. Hoje eu posso, de fato, materializar todo meu sonho que é ajudar o próximo.

7 – Sua vocação para ‘educar’ é algo que marca sua trajetória na polícia. Tanto que você tem a missão de desenvolver um protocolo de caráter preventivo nas escolas. Como é esse dia a dia de, vamos dizer assim, um agente multiplicador de informações num Protocolo de Segurança Escolar?

Olha é verdade, viu! Eu sempre tive uma vocação muito grande para educar, porque eu vivi toda a minha vida através da educação, mudei toda a minha vida através da educação. Então eu percebi, vi e realizei na própria pele um sonho através da educação e eu te digo claramente que na nossa mente, através da educação, podemos mudar as nossas realidades. E foi através da educação que eu vou me aprofundar no assunto de segurança escolar. Hoje a gente é uma referência nacionalmente em segurança escolar. Eu sou o autor do Protocolo de Segurança Pública nas Escolas (PSE) e juntamente com uma equipe multidisciplinar que me ajudou em outras áreas como o bullying, cyberbullying, que a gente passou a ter a missão de ser um agente multiplicador. A nossa missão é ir formando agentes multiplicadores para que esse protocolo não seja uma realidade somente do nosso Rio de Janeiro, mas uma realidade do Brasil. O protocolo de segurança não é específico do capitão Portella e nem da Polícia Militar, mas sim, da sociedade que possa a se apropriar e falar desse instrumento de educação, para que seu filho, sua filha estejam seguros dentro de uma escola.

8 – Além da autoria do Protocolo de Segurança Escolar, você também é proponente da operação Táxi Legal. O que seria essa intervenção?

Olha, a Operação Táxi Legal foi uma operação que teve de 2014 a 2016 enquanto estive à frente da coordenação de transportes do Rio de Janeiro e era uma operação que visava à retirada dos táxis piratas do gênero. Nós fazíamos em vários pontos turísticos e nos terminais rodoviários. A gente fazia fiscalizações para ver se primeiramente os passageiros estavam sendo atendidos com qualidade, e segundo retirando das ruas todos os táxis piratas que se encontravam na cidade do Rio de Janeiro, e olha foram muitos casos. Foram muitos os casos e hoje a gente fica muito triste porque, assim que a gente saiu da gestão da coordenação dessa operação, ela acabou. Ela não existe mais. Então, é um grande sonho né, para que a gente tenha de volta essa grandiosa e importante operação de volta em nossa cidade que chama Operação Táxi Legal, que é uma operação que visa a retirada e fiscalização dos táxis piratas.

9 – Sua trajetória é marcada pelos estudos. Mesmo trabalhando muito, e isso vem desde a adolescência, você não deixava de lado os cadernos. E isso continuou dentro de polícia. É graduado em Direito e também tem duas pós-graduações. A educação é o alicerce que mantém de pé os sonhos e salva vidas?

Olha, exatamente. Educação é o alicerce que mantém de pé os sonhos e realmente ela salva vidas, não somente através da educação. Nós que somos pessoas de bem, a gente tem condições de mudar a nossa realidade. Eu aprendi isso desde cedo. Sempre trabalhando muito, mas sabendo que o trabalho, e somente o trabalho, não me levaria a patamares tão sonhados quanto hoje. Então eu procurei muito trabalho com muito estudo. E aí não tem jeito, quando você está trabalhando muito e estudando muito, sempre as pedras vão ser maiores no seu caminho, sempre vão aparecer pessoas para dizer que você não vai conseguir. ‘Você não é capaz’, ‘que o caminho correto não é esse’, mas olhe amigo, quando você está no caminho do bem e você tem a perspectiva de um futuro melhor, siga em frente, não olhe para os lados e avance. Sempre foi essa a minha meta minha trajetória e a gente conseguiu realmente mudar a minha realidade através do estudo. Por isso o estudo é muito importante na vida de todos nós.

10 – Para terminar, o que você diria aos jovens de qualquer parte do Brasil, que muitas vezes desistem dos sonhos por dificuldades encontradas no caminho?

Olha, pra terminar quero deixar o nosso recado para todos os jovens de qualquer parte do Brasil que, por vezes, desistem de soluções pelas dificuldades encontradas no caminho. Eu queria dizer para vocês o seguinte: que eu sou a história viva de que a persistência e a resiliência venceu o medo, através da esperança conseguimos obter o êxito. Então, eu te digo que, por mais que seja espinhoso seu caminho, por mais que seja difícil a sua trajetória, não desanime. Porque é difícil para quase todo mundo. A gente vive num país de desigualdade muito grande, vive num país que é difícil um trabalho, que é difícil mais escola de qualidade. Então, não desista porque para a grande maioria é muito difícil, por isso, a maioria desiste. Então, você que está nos lendo: Não desista. Deu certo comigo vai dar certo pra você. Acredite em você, acredite no seu sonho. Acredite que você possa superar os obstáculos. Acredite e acorde cedo, durma tarde e tenha sempre muita fé em Deus. Tenha sempre muita fé em Deus. Somente com um Deus acima de tudo a gente consegue vencer todas as barreiras, viu. Então fica aqui o meu recado a todos os jovens. O meu hop, hop, salve, salve. Seguimos sempre em frente. 01!!

CAPITÃO PORTELLA - Crédito Divulgação
Compartilhe nas redes sociais
Publicação Anterior

Flávia Correia: ‘O cantor castrado’

Próxima Publicação

Francis Fachetti: ‘Os necessários sentimentos e o desvelar dos ritmos na música espanhola – o flamenco’

17 Comentários

  • Adorei a entrevista!superacao!

    • Entrevista agregadora! Capitão Portella tem ótimas ideias 👏👏👏👏👏👏👏

  • Parabéns Capitão Portella , entrevista Sensacional 👏👏👏👏

    • Excelente entrevista e ótima referenciando vida, os jovens q seguirem o que foi falado com certeza terão uma vida melhor!!!!

  • Entrevista agregadora! Capitão Portella tem ótimas ideias 👏👏👏👏👏👏👏

  • Parabéns pela entrevista meu irmão… É isso!!! Somente com a educação o ser humano se libertar da escravidão.

  • … [Trackback]

    […] Info on that Topic: revistadovilla.com.br/2020/08/01/xandy-novaski-entrevista-o-capitao-portella/ […]

  • … [Trackback]

    […] There you will find 29984 more Info to that Topic: revistadovilla.com.br/2020/08/01/xandy-novaski-entrevista-o-capitao-portella/ […]

  • … [Trackback]

    […] Find More on to that Topic: revistadovilla.com.br/2020/08/01/xandy-novaski-entrevista-o-capitao-portella/ […]

  • … [Trackback]

    […] Read More to that Topic: revistadovilla.com.br/2020/08/01/xandy-novaski-entrevista-o-capitao-portella/ […]

  • … [Trackback]

    […] Info on that Topic: revistadovilla.com.br/2020/08/01/xandy-novaski-entrevista-o-capitao-portella/ […]

  • … [Trackback]

    […] Here you can find 83742 additional Information to that Topic: revistadovilla.com.br/2020/08/01/xandy-novaski-entrevista-o-capitao-portella/ […]

  • … [Trackback]

    […] Read More to that Topic: revistadovilla.com.br/2020/08/01/xandy-novaski-entrevista-o-capitao-portella/ […]

  • … [Trackback]

    […] Read More Information here to that Topic: revistadovilla.com.br/2020/08/01/xandy-novaski-entrevista-o-capitao-portella/ […]

  • … [Trackback]

    […] Read More here to that Topic: revistadovilla.com.br/2020/08/01/xandy-novaski-entrevista-o-capitao-portella/ […]

  • … [Trackback]

    […] Information to that Topic: revistadovilla.com.br/2020/08/01/xandy-novaski-entrevista-o-capitao-portella/ […]

  • Great weblog here! Additionally your web site loads up very fast!
    What host are you the use of? Can I am getting your associate hyperlink in your host?

    I desire my site loaded up as fast as yours lol

Deixe um comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado.