Frederico Maroja e a crônica 'Oliveira, o pivete “Twist” '

Cinelândia. J. Conde reprodução da Internet

   O Rio de Janeiro tinha um menino, aspirante a engraxate, cujo nome era um sobrenome, apenas: Oliveira. O seu apelido na rua era “Twist”, por causa de um refrigerante que gostava muito. Ele vivia junto com outras tantas crianças em situação de abandono, muitos com pés livres em brasa, nas pedras portuguesas encardidas do Centro do Rio. Alguns estavam ali porque não tinham pais, e, outros estavam justamente porque tinham.

   Além de se alimentar bem todos os dias, o sonho de Twist era aprender a ler. Quando sua mãe lhe deu a luz, ficou escuro, ela morreu quando ele nasceu. O garoto convivia com alguns contrastes, mas não tinha passado vivido, apenas estava ali.

   Depois de andar na Lavradio, e, perto dos Arcos da Lapa, repousava à noite em diagonal, em um pedaço de papelão, na base do monumento erigido em homenagem a Marechal Floriano Peixoto na Cinelândia. Contra ele tinha o povo, atrás dele tinha a justiça e os livros, e, ao seu lado, apenas a arte.

  Durante o dia ele andava pelo largo da Carioca, vendendo chicletes e se distraindo com atenção, ouvia e escutava, a banca de jornal tocava vários estilos musicais, MPB, Rock Internacional, tinham também as flautas indígenas do outro lado da calçada, tocadas por músicos peruanos, mais à frente todos os sons existentes até a Alfândega, e, muito, muito barulho de coisas, de gente, cantando de tudo e para todos.

   O relógio do Largo da Carioca só funcionava em ano de eleição, sempre estava escangalhado, faltava dar corda pra acordar. A sensação era de que o tempo parava mesmo, e, principalmente para Twist, que se distraía com tudo aquilo todos os dias. Ficava encantado com as barracas de livros, perto da Av. Chile, mas, sem chance, porque um menino de rua iria querer ler? “Moleque, fala sério, caí fora!!!”

   Eram muitos programas no Centro do Rio, inclusive os anunciados nos “orelhões” (ainda existentes) e os softwares “piratas” vendidos por ambulantes, de tudo um pouco, e, um pouco de tudo, tamanha biodiversidade. Em frente ao metrô da Carioca, havia música, pinturas, paçoca, pipoca, biscoito, bugigangas, tudo que você pode ou não precisar.

   Mais distante, entre prédios,  eram servidos: arroz, feijão, molho à campanha, galeto e outros pratos variados, e, também haviam alertas: “Guri, fica de olho, vai que a Candelária vem até aqui!”.

   Os amigos de Twist cometiam pequenos furtos por ali, tinham até canivetes, todos eles eram conhecidos como pivetes. Próximo a São José, durante a semana, todo final da tarde era sempre uma correria danada, uns pinotes para arrancar os cordões das senhoras e pegar os celulares de alguns distraídos no ponto.

   Certo dia, os pivetes elaboraram um plano mais audacioso, se dirigiram à Menezes Cortes, bem perto do Fórum Central de Justiça. Eles buscaram atenção de um senhor dizendo que o Twist era manco, que precisava de ajuda. E funcionou. Quando abriu a carteira pra dar o dinheiro, deram um bote certeiro e levaram toda grana.

   Cada um fugiu para um canto, pela Assembleia, Primeiro de Março etc. O Twist foi deixado pra trás.

   A vítima era um magistrado respeitável e muitos que passavam o reconheceram e indagaram: “Então, os pivetes conseguiram persuadir um juiz?”.

   O menino estava atônito, sem reação, diante dos olhos de quem já haviam condenado, e nem adiantaria dizer nada.

   O magistrado disse a todos que tudo não passava de um mal entendido e que estava tudo bem, que ele tem o hábito de andar pelo Centro do Rio para fazer pequenas doações aos mais necessitados, que na verdade era doação e não um delito. Gastou o seu vocabulário rebuscado para explicar que juridicamente não houve delito algum.

   A defesa prévia não funcionou e muitas pessoas queriam que o garoto sofresse uma punição exemplar para inibir futuras práticas delituosas dos moleques. Até porque, ali os furtos eram incomuns. O julgamento tinha que prosseguir.

Relógio do Largo da Carioca. Wikipédia

   Algumas pessoas sabiam que Twist era apenas um menino que vendia chiclete, mas preferiram se omitir, ficaram em silêncio aguardando o julgamento. Ele não tinha testemunha a seu favor. 

   Então, começou aglomerar gente para assistir ao julgamento do menino. Três mulheres se aproximaram para analisar o garoto, e iniciaram com a denúncia: “Seu olhar é de pivete!”; “Não deveria ter nascido, mas sim abortado!”, a outra: “Você é um abandonado!”, e a última complementou: “seu lugar não é aqui, meu bichano vale mais que você.” 

   Outras pessoas deram continuidade à instrução, e começaram a questionar sobre a utilidade da vida do Twist. “Esse pivete vai crescer pra quê?”; “Será um delinquente e terei que arcar com a mordomia dele na prisão?”; “Ele vai procriar e pedir bolsa-família?”, “Será um drogado ou traficante?”, “Vai sofrer e cometer crimes?” “Ele vai nos matar!!!”… 

   Daquela parte da cidade não tinha vista para o Cristo Redentor e assim, muitos acreditavam que não poderiam ser vistos também. O garoto não era merecedor de benção alguma. Por perto, Tiradentes escutava toda uma conspiração contra apenas um menino… 

    Os bares lotaram, abriram-se sede e apetite geral, os comerciantes comemoravam muito. Todos acompanhavam pelo desfecho, como final da novela das nove. Haviam até apostas… 

   Pela ordem, o magistrado pediu para fazer a defesa, mas ninguém o deixava falar. Foi quando ele reparou que a fome pelo justiçamento demandaria o sangue do garoto. 

   Por sorte a polícia chegou na hora, e buscou controlar a ira dos que se julgavam bons. Assim, o juiz aproveitou a distração deles, pegou o menino pelo braço e correu sem chão em direção ao fórum. 

   O juiz foi até o estacionamento do tribunal, pegou seu carro e fugiu levando o garoto para a sua residência. Exaustos chegaram em casa e dormiram. 

   No dia seguinte, antes mesmo do “bom dia”, o menino agradeceu ao senhor por ter sido salvo, ambos nem sabiam o nome um do outro, foi quando o juiz se apresentou: como José Oliveira e o menino como Oliveira. 

   Ambos riram da coincidência e passaram a conversar sobre a vida. Oliveira indagou ao juiz se tinha apenas um sobrenome, que sempre escutou dizer que gente importante tem uma coleção de nomes e sobrenomes. O magistrado esclareceu que mais importante que isso é ter virtudes. Maria, esposa de José, ficou maravilhada com o menino, lembrava o único filho falecido. 

   José reparou que o garoto havia deixado de ser manco. Mas havia um esclarecimento para tal milagre, o menino confessou que dizia ser manco para convencer aos outros que não poderia correr, e assim ao invés de ser convocado para cometer delitos, poderia vender chiclete. 

   Um dia se tornou uma semana, depois um mês, dois meses, por aí foi. E tudo foi muito agradável, a convivência foi sendo desenvolvida naturalmente e uma nova família foi se formando. 

   O menino acabou sendo adotado por José e Maria, e recebeu o nome de Augusto, em homenagem ao filho falecido do casal. 

   O garoto se divertia, vivia como uma criança feliz. Mas o juiz José ficou muito doente, foi diagnosticado com uma doença rara, e que sua única esperança viria de doador compatível de medula óssea. 

   Quando a esperança chegou quase ao fim, para surpresa de todos Augusto era compatível. O médico curioso e observador, além de amigo de José, sugeriu que o parentesco entre o garoto e ele. Fizeram então o exame de DNA e descobriram que na verdade eram parentes. 

   A busca silenciosa de José havia chegado ao fim, porque na verdade, o juiz andava pelo Centro do Rio na esperança de encontrar seu neto perdido. A família da mãe falecida havia vendido o menino e a única informação tinha é que ele poderia ser qualquer criança de rua do Centro do Rio. 

   A felicidade foi tanta que José se recuperou logo e retornou ao lar e para o seu amado ofício no tribunal. Eles foram salvos… 

   Ao longo do tempo, o seu José reapresentou o Centro do Rio ao menino, ele conheceu restaurantes, museus, centros culturais, bibliotecas, Teatro Municipal etc. O José ensinou os significados dos símbolos, dos monumentos e das praças, bem como a história/cultura carioca. 

   O Augusto Oliveira, o ex-pivete “Twist”, realizou seu grande sonho, matriculado numa escola aprendeu a ler, e gostou muito da estória de um tal Oliver Twist. 

   E essa estória continua na imaginação de cada um… 

   Às vezes, mais importante que o final feliz é a possibilidade de reescrever a própria história. 

   Dedicado às crianças e aos professores do nosso Rio de Janeiro. 

Theatro Municipal do Rio de Janeiro
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