Douglas Delmar entrevista o escritor e arquiteto português Luís Corredoura

LUÍS CORREDOURA - Crédito Arquivo Pessoal

LUÍS CORREDOURA é nascido na vila de Perô Pinheiro, concelho de Cintra e vive atualmente em Mafra. Autor de quatro obras publicadas, também é licenciado em Arquitetura e Mestre em Recuperação do Patrimônio Arquitetônico e Paisagístico. Além dos projetos arquitetônicos e literários, é tradutor de obras para português e produz crônicas sobre a atualidade. Confira um pouco mais sobre sua trajetória profissional e de amplas capacidades.

1) Como despertou o seu interesse pela escrita?

Praticamente desde muito novo que sempre tive/senti urgência em expressar aquilo que vejo e penso através da escrita e, quando o tempo me dava mais tempo, do desenho. Em termos concretos, escrevo desde os meus quatro/cinco anos, tendo começado a fazê-lo de um modo mais intenso, como se de uma necessidade fisiológica se tratasse – como comer e respirar – , desde os meus doze/treze anos.

 2) Você escreveu as obras: “Nome de Código Portograal”, “Lusitano Fado”, “O Senado – história de uma conspiração” e “A Recriação do Mundo”. Como surgiu a ideia para seus livros e sobre o que eles falam? Onde podemos encontrá-los para venda?

Os meus livros, no geral, são distopias, realidades alternativas baseadas em factos verídicos. “O Nome de Código Portograal” teve como fundamento uma hipotética participação de Portugal na II Guerra Mundial tendo em conta a intenção alemã de conquistar Gibraltar e, concomitantemente, Portugal para fechar o Mar Mediterrâneo aos navios britânicos que tinham o seu principal porto na ilha de Malta. Era a chamada Directiva nº18, a qual daria azo à Operação Félix. Além disso, há que ter em conta que determinados grupos nazis eram completamente obcecados por relíquias judaico-cristãs, como, p.ex., a Arca da Aliança e o Santo Graal. Ora, neste meu livro eu junto isso tudo, pois há quem diga que o verdadeiro Graal está em Portugal graças à presença dos Cavaleiros Templários, os seus guardiões…

Apresentando três personagens principais – um português criado por um grande latifundiário, um inglês da alta aristocracia que se deixa seduzir pelos ideais de Marx e um austríaco que acaba por ver na ascensão do nazismo a única forma de poder conquistar a sua amada -, a aventura começa com um segredo escondido dentro de um dossier encontrado pelo cônsul português em Atenas, exilado em Malta durante a Primavera de 1942. Perseguido pelos nazis, o diplomata faz chegar esta informação a Salazar. No entanto, os dados sobre o duvidoso passado de Hitler transformam qualquer portador dessa informação num alvo a abater.

Movido pela conquista africana e pela urgência de recuperar esses documentos, o líder nazi decide então conquistar a pequena ilha do Mediterrâneo. Simultaneamente, decorre uma busca pelo Graal, levada a cabo por certas facções nacionais-socialistas ligadas ao ocultismo que acreditavam que esse suposto tesouro estaria em Portugal, aí deixado pelos Templários, conforme já referido. Tudo isso conduz à destruição do estado português e à fuga de Salazar para os Açores.

A guerra total chega ao extremo ocidental da Europa e o que então ocorria em grande escala no sul da Polónia – campos de concentração e extermínio – não deixa de suceder também em solo lusitano…

 “Lusitano Fado” também tem como fundamento factos verdadeiros, situações pouco abordadas da História dos últimos cinquenta anos e que poucas pessoas conhecem. O enredo tem como personagens principais um professor desiludido com a vida e um velho misterioso que o primeiro conhece numa taberna de duvidosa índole na zona de Alcântara, em Lisboa. Alguns dos episódios menos explorados da História recente do país, assim como aquelas que serão as forças ocultas que o governam, são o mote para uma trama na qual são desvendadas algumas das misérias e grandezas do povo português, nomeadamente das últimas cinco décadas.

 “O Senado – história de uma conspiração” é o relato das peripécias vividas por um jornalista depois de abordado por uma misteriosa mulher. Após algumas hesitações, a enigmática ex-secretária de uma das mais poderosas fundações do país faz várias revelações que poderão pôr em causa o sistema político de Portugal e, até, da Europa. Volvidos alguns episódios, a ambígua personagem acabará por se mostrar decidida em denunciar o que, para si, tem sido desde o dia 25 de Abril de 1974 um “assalto” à soberania do país sem que ninguém ouse denunciar esse golpe. Pelo meio, Mossad, CIA, KGB e vários outros serviços secretos, assim como situações envolvendo o assassinato do papa João Paulo I, são também abordados.

 “A Recriação do Mundo” é mais uma reinvenção da História tendo como base factos verídicos, a corrida atómica empreendida por nazis e Aliados ocidentais. Tudo começa em Fevereiro de 1943. No Palácio dos Desportos de Berlim, perante uma plateia de fanáticos, Goebbels, ministro da Propaganda, faz um inflamado discurso, deixando no ar uma mensagem subliminar: os alemães, apesar de terem acabado de sofrer a sua maior derrota, irão em breve possuir uma arma que lhes permitirá vencer a guerra.

José Bensaúde, português, um génio da matemática e física, mas também um idealista de Esquerda, será determinante para que a Alemanha se adiante na prova. Capturado em França e levado para um campo de concentração, aí fica até alguém dar conta que pode ser útil aos intentos do III Reich, exactamente quando a resistência começa a ganhar corpo e força e a operação Valquíria tem início.

Conseguirá Claus von Stauffenberg matar o Führer enquanto este tenta a todo o custo ter uma bomba atómica? Lograrão os norte-americanos, com a ajuda de Enrico Fermi e Albert Einstein, antecipar-se aos nazis e ser os primeiros a recriar o momento zero do mundo numa gigantesca e inédita explosão nos confins do Novo México? E o que fará Estaline quando descobre que Moscovo e Londres poderão ser os alvos da arma-maravilha de Hitler? Estas são apenas algumas das questões cujas respostas constam neste meu delírio literário.

 Quanto aos locais onde os meus livros se encontram para venda… Os ditos “manuscritos” podem ser adquiridos em Portugal em qualquer livraria digna desse nome. Além disso, podem também ser comprados nas lojas on-line da Amazon, da FNAC, da Wook, da Bertrand, etc.

 

LUÍS CORREDOURA - Crédito Arquivo Pessoal

3) Cada escritor tem seu modo de escrever. Como é o seu processo criativo?

Tento escrever de uma forma quase diária. No entanto, devido a compromissos profissionais – para todos os efeitos, sou arquitecto de profissão -, quase sempre só consigo escrever de um modo contínuo durante algumas horas após mais um dia trabalho, isto é, à noite. Não é fácil, garanto, mas devido ao que já referi como sendo algo semelhante a uma necessidade fisiológica, procuro dar a devida resposta sem que ocorram protelamentos.

 4) Como o público reagiu ao seu trabalho? E como você reage a elogios e críticas?

Julgo que o público, no geral, aceitou bem os meus escritos. Apesar de não ser nenhuma vedeta, como aquelas que diariamente aparecem nos ecrãs televisivos ou nas capas dos jornais, quiçá por jamais ter tido ligações a esses meios, nem nunca ter recorrido a padrinhos para me prepararem o caminho, tenho logrado impor-me num meio sempre instável, onde o que hoje é tido como insuperável, amanhã é visto como medíocre e descartável.

Quanto às críticas, as ditas são sempre bem-vindas, desde que devidamente fundamentadas e independentemente de serem boas ou más.

 5) Você é formado em Arquitetura e Mestre em Recuperação do Patrimônio Arquitetônico e Paisagístico. Conte-nos, o que te inspirou a seguir nessa área e quais projetos desenvolve?

Antes sequer de pensar em ser escritor – o que até hoje não me considero -, quis ser arquitecto, um verdadeiro maçon, na genuína acepção do termo. E porquê? Quiçá por quando ainda muito novo ter tido um verdadeiro fascínio por tudo quanto era ferramenta ou equipamento utilizado para trabalhar pedra e/ou madeira, visto ter nascido e sido criado naquele que ainda hoje é um dos principais centros de transformação de rochas ornamentais de Portugal, a vila de Pêro Pinheiro, sita entre Sintra e Mafra, dois locais classificados como Património da Humanidade pela UNESCO e cujos principais edifícios têm pedra extraída das entranhas da minha terra natal, uma rocha com características únicas e que só existe nessa região de Portugal, a qual chegou a ser utilizada como lastro dos navios nos séculos XVI e XVII e que, aquando da chegada dessas naves ao Brasil, era aproveitada para a feitura daqueles que hoje são considerados como alguns dos mais emblemáticos e belos edifícios existentes em terras de Vera Cruz. Basta referir, por exemplo, as principais igrejas de Salvador da Bahia…

Mas voltando às minhas (in)aptidões… Por volta dos meus cinco/seis anos decidi então ser arquitecto… mas só depois de já possuir em cada dedo das mãos uma marcante cicatriz fruto de um inadvertido uso de um martelo, serrote, grosa, serrote, escopro, ponteiro, etc.

Em relação aos projectos que presentemente desenvolvo, a maioria está relacionada com novas construções – moradias unifamiliares e edifícios de habitação multifamiliares – e pequenas intervenções de cariz urbanístico – os designados loteamentos -. Pelo meio, faço ocasionalmente alguns trabalhos no âmbito da reabilitação/recuperação de edifícios antigos, construções em avançado estado de degradação e quase sempre devolutas sitas em centros históricos.

 6) Além de romancista, você também é poeta. O que te inspira a criar seus versos? Já pensou em lançar um livro de poemas?

Se não me considero um escritor, tão-pouco me tenho como um poeta. Sou um mero aprendiz de fazedor daquilo que designo como “exercícios matemáticos“, simples “contas de merceeiro” a que amiúde recorro para manter a mente activa nessa área, a feitura e reunião de palavras, quando o tempo para escrever extensas “memórias descritivas” – vulgo romances – se revela escasso.

Quanto a lançar um livro com esses meus “exercícios“… Pois, isso dava um verdadeiro romance. Não obstante Portugal ser considerado por todos um país de poetas – basta lembrar a palavra saudade, única em todo o mundo, singular no nosso idioma, somente inteligível pelos que sabem falar português, como os próprios portugueses, os brasileiros, os angolanos, os moçambicanos, etc. -, desde sempre tratou muito mal os seus vates, nomeadamente aqueles que nunca estiveram ligados ao designado establishment, como, p.ex., um Fernando Pessoa ou um Antero de Quental, os quais somente depois de mortos foram reconhecidos como dois dos maiores poetas de sempre da língua de Camões.

Enfim, vamos ver o que o tempo nos/me reserva relativamente à publicação do que vou rascunhando para manter a mente activa.

Capas O Nome de Código Portograal e Lusitano Fado - Crédito Arquivo Pessoal

7) Muitas pessoas ainda leem pouco atualmente. Como você acha que podemos incentivar a leitura?

O advento das redes sociais, assim como de muitas outras coisas associadas às designadas novas tecnologias, tem desviado as novas gerações do gozo proporcionado pela leitura de clássicos, assim como de autores contemporâneos.

Pela minha experiência, vejo que cada vez mais é difícil alguém conseguir impor-se através daquilo que escreve num mundo cada vez mais assoberbado de distracções e de outras formas capazes de cativar mais facilmente a atenção das pessoas.

No entanto, creio que tudo depende de cada um de nós, do meio onde vivemos, da nossa educação, da nossa curiosidade e daqueles que vivem à nossa volta. Nesse aspecto, posso afirmar que me considero um privilegiado, pois sempre tive livros para ler, sendo o hábito da leitura no meu seio familiar uma constante desde que me lembro de existir.

 8) Portugal é um berço de grandes escritores e poetas. Há algum autor português que você admire?

Epá, isso é uma pergunta cuja resposta não é fácil. Admiro bastantes escritores de língua portuguesa, quer sejam nascidos em Portugal, quer sejam nascidos em países onde o português é a língua oficial.

Mas se me focar somente em autores lusitanos, não posso deixar de referir relativamente a romancistas um Eça de Queiroz, um Fernando Campos, um Joel Neto ou um João Pinto Coelho – estes dois últimos são autores contemporâneos -. Quanto à poesia, bom, isso então ainda é mais difícil. Inevitavelmente, tenho de mencionar Camões, assim como Bocage, Quental, Florbela Espanca e, claro, Pessoa… Em suma, a selecção é/será sempre assaz difícil.

 9) Estes tempos de pandemia afetaram seu processo de criação? Como você acha que estará a humanidade após o Covid-19?

Tal como sucede com a esmagadora maioria da humanidade, a minha vida foi deveras afectada com esta história – ainda por contar devidamente, diga-se em jeito de provocação – da pandemia provocado pela COVID-19. A minha rotina e os meus horários viram-se alterados, assim como a minha própria vivência e o modus operandi da criação, quer em termos profissionais enquanto arquitecto, quer em termos mais, digamos, deleitantes, enquanto aprendiz de escritor.

Sinceramente, não sei como é que a humanidade vai estar quando toda esta poeira assentar. Temo que nada fique retido na memória das pessoas nestes dias de rápido consumo e de instantânea, mas fugaz, notoriedade. No fundo, é devido a essa constante obnubilação da História, a esse olvido do que sucedeu, que a própria História tende a repetir-se ciclicamente. Não é por mero acaso que exactamente cem anos depois da última grande pandemia a humanidade volta a sofrer de um mal que pode revelar-se catastrófico… porque todos nós, no geral, esquecemos ou ignorámos por completo essa mesma História. E um século nessa bitola de Cronos é um mero instante.

 10) Tem planos de escrever um novo romance?

Não confirmo, nem desminto!…

… mas falando um pouco mais seriamente, planos tenho sempre. Apenas necessito de tempo. E sse mesmo tempo que não me dá tempo para ter mais tempo.

 11) Como é a sensação de ver suas obras imortalizadas no papel? Qual a sua mensagem aos autores que sonham em publicar um livro?

A sensação de ver consubstanciado em papel e na montra de uma livraria aquilo que idealizámos durante tanto tempo é/será sempre, para mim, estranha, agradavelmente bizarra, pois nunca foi fácil, no meu caso, publicar um livro.

No entanto, como porfio, como sou abnegado – termo simpático para designar alguém que, em bom português, é visto como um “chato do caraças” -, jamais desisto.

Só para que as pessoas tenham uma ideia desta minha insistência… Eu andei literalmente durante doze anos a bater à porta das mais diversas editoras para que estas, pelo menos, dessem uma vista de olhos àquilo que acabou por ser o meu primeiro romance editado. Doze anos!… Mas nunca desisti, pois o meu principal objectivo consistia em conseguir uma crítica, uma avaliação àquilo que tinha feito…

E quando menos esperava, quando tudo parecia indicar que jamais lograria obter um mero dichote acerca do que escrevia depois de tanta recusa ou falta de resposta, eis que quatro editoras me contactam, pois pretendiam publicar os meus manuscritos… Enfim, o povo é que tem razão, visto “nunca haver fome que não dê em fartura”…

 

Capas - O Senado – história de uma conspiração e A Recriação do Mundo - Crédito Arquivo Pessoal
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