Xandy Novaski entrevista o poeta Douglas Delmar

DOUGLAS DELMAR - Crédito Arquivo Pessoal

O gaúcho DOUGLAS DELMAR conhece bem a carpintaria da escrita criativa poética. Seja rimada ou em versos brancos, sua obra inclusive já ultrapassou as fronteiras, sendo lida num importante meio de comunicação cultural em Lisboa, Portugal. E por falar em terras lusitanas, o Colunista na Revista do Villa divulga artistas portugueses em seus artigos e entrevistas. Conheça um pouco mais do jovem rapaz que já participou de antologias, inclusive de contos, e prepara seu primeiro romance!

1)   Quando é que a poesia passou a fazer parte da sua trajetória de vida?  

Quando eu era criança ganhei vários livros de uma tia que é professora e me estimulou à leitura. Dentre esses livros, muitos continham obras de poetas consagrados como Mário Quintana, José Paulo Paes, Henriqueta Lisboa, Vinicius de Moraes, Clarice Lispector, entre outros. Então aprendi a admirar essa arte poética. No entanto, comecei a rabiscar meus primeiros versos já adulto. Foi uma forma de expressar meus sentimentos, emoções e paixões em forma de letras. Foi uma maneira de dar voz ao coração.

 2)      A poesia tem a força de nos provocar sentimentos. Vou além: a palavra é assim, capaz das mais diversas reações. Em suas frases, ou versos, algum comportamento por parte do leitor foi contrário ao que você propunha?

 Cada poeta tem sua visão da vida e do mundo e, muitos leitores podem não concordar com tal ponto de vista. Lembro que uma vez escrevi um poema romântico e uma leitora comentou discordando da minha ideia. Para ela, o amor era algo que não existia nos dias de hoje. Claro que não penso assim, mas cada pessoa tem seu modo de sentir a vida.

 3)      Suas poesias passeiam pelas rimas encadeadas e versos brancos, aqueles soltos, que não rimam. O que define a estrutura que você escolherá na hora de escrever? 

 Confesso que tenho uma preferência por sonetos, pois sou grande admirador de Florbela Espanca e ela me inspira. Gosto quando as palavras rimam de forma harmônica. Cada poeta tem seu modo de criar as linhas, alguns gostam de rimar e outros preferem frases soltas. Então, o que define a estrutura do poema é o gosto pessoal de quem o escreve.

 4) Fernando Pessoa tinha diversos heterônimos, que são nomes inventados pelo autor no intuito de assinar obras com estilos literários diversificados. Isso é muito comum nos dias de hoje. Você também trabalha com heterônimos? Como vesti-los na hora de escrever essas poesias distintas? 

 Sim. Muitos poetas gostam de fantasiar e se imaginar vivendo como se fosse outra pessoa, praticamente outra consciência.  Meus heterônimos são personagens que criei. Cada um tem sua forma de viver, de escrever, de amar e se expressar. Tenho meu heterônimo chamado Cedric Constance, nele gosto de escrever versos de romantismo e também de crítica social. Alguns poemas são de linguagem simples, enquanto outros contêm um linguajar rebuscado. Defino-o como um rapaz que se deixa levar pelas sensações intensas da vida, porém, é um tanto melancólico. Outro heterônimo que dei vida é feminino e se intitula Maria Cruz. Através dela, escrevo sob a perspectiva de uma mulher para tecer sonetos ultrarromânticos e góticos. É a típica moça romântica, sonhadora e também sofredora. Esses heterônimos são como várias almas existindo e se manifestando dentro de um só corpo. É uma coisa incrível e fantástica. Fernando Pessoa é um dos maiores exemplos de como podemos nos expressar através de outros olhares. O próprio escritor Nelson Rodrigues já assinou obras com heterônimos femininos.

DOUGLAS DELMAR - EXPOSIÇÃO DE FERNANDO PESSOA EM PORTO ALEGRE - Crédito Arquivo Pessoal

 5)  Algum fã já mostrou algum interesse por um de seus heterônimos que vão além da poesia?

 Sim, confesso que até passei por uma situação engraçada. Meu heterônimo da Maria Cruz, por exemplo, já recebeu uma proposta de casamento de um senhor. Algumas pessoas não sabem separar a poesia do poeta. Muitos acabam se sentindo tão cativados pelo personagem, que acabam pensando ser aquilo tudo real. Confundem realidade com fantasia.

 6)  Suas poesias são tão intensas que atravessaram o oceano, sendo lidas em rádios portuguesas. Como foi sua reação, já que nem esperava por isso?

 Confesso que para mim foi uma grande surpresa. Me senti lisonjeado ao ver e ouvir meus versos ganhando espaço do outro lado do oceano. Fiquei muito agradecido ao senhor Manuel Jorge que recitou dois poemas meus em sua rádio MANELOSTAR, em Lisboa.

 7)      Você também já participou de antologias, ou seja, há poesias e contos seus em livros. Quais são eles e o que o instigou a compartilhá-las nesses projetos?

 Bom, eu sempre quis ver minhas letras impressas em papel. Todo poeta sonha em ver suas obras sendo levadas mundo afora. Participei da antologia literária Cartas Poéticas, juntamente com outros poetas do Brasil e de Portugal. Sou muito grato ao poeta Xavier de Barros que me concedeu espaço nessa antologia. Também já participei de uma antologia de contos LGBTs, organizada pelo escritor e psicólogo Fabrício Viana.

 8) Na sua Coluna semanal, na Revista do Villa, você nos apresenta escritores e cantores portugueses. De onde vem essa paixão pelas terras lusitanas? 

Com certeza, da poesia. De tanto ler escritores lusitanos, me encantei pela cultura de Portugal. Essa paixão ganhou mais força quando assisti as minisséries Equador e Perdidamente Florbela e também quando conheci o fado. Seduzi-me pela melodia e a voz de Amália Rodrigues, Lucília do Carmo, Fernanda Maria, entre outras.  

9)  O que você tem a dizer aos jovens escritores e poetas que não encontram espaço para expor suas obras e muitas vezes acabam desistindo?

Eu diria que não devem desistir. Hoje em dia há editoras independentes onde podem publicar seus livros com um custo acessível. Também há as redes sociais, que são uma ótima forma de divulgar seus escritos e conquistar admiradores. Costumo usá-las para compartilhar minhas poesias.

 10) Fiquei sabendo que você está escrevendo o primeiro romance. Conta pra gente essa novidade!

Sim, é verdade. É um projeto que já vinha guardando na gaveta há algum tempo. É um romance de época, ambientado em uma cidade fictícia do Rio Grande do Sul no Século XIX, período escravagista. Conta a história de Emanuelle, uma jovem sonhadora e romântica que tem sua personalidade totalmente alterada devido as más circunstâncias que ocorrem em sua vida. No entanto, há outros personagens que complementam a trama e são tão essenciais quanto a protagonista. É uma história que fala sobre paixões proibidas, mistério, vingança, preconceito, morte e a luta pela liberdade de ser e viver. Tudo isso, tendo como pano de fundo a terra gaucha e sua cultura.

ANTOLOGIA LITERÁRIA CARTAS POÉTICAS - Crédito Arquivo Pessoal
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6 Comentários

  • Excelente entrevista! Parabéns Xandy Novaski pelo bate-papo interessante e pelas perguntas afinadas; e ao Douglas por esse poeta tão jovem e criativo. É bonito de ver o empenho, dedicação e talento do jovem em conquistar seu lugar na arte literária contemporânea.

  • Parabéns Xandy! Mais uma super entrevista. Douglas Delmar é uma jovem preciosidade. De talento suntuoso e exuberante inteligência, o Nobre Poeta nos faz mergulhar no pathos romântico, como absoluto senhor das palavras. Parabéns, queridos Douglas Delmar, Cedric Constance, Maria Cruz e Xandy Novaski.

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