Flavio Santos apresenta o Cônsul-Geral Zé Guilherme Vilela

Consulado Geral de Portugal no Rio de Janeiro. Foto página do Facebook do Consulado

Como podemos nos esquecer desse português que era capoeirista, gostava de uma peixada, de vatapá e acarajé, praticava natação e pesca submarina, desfilava na avenida Marquês de Sapucaí na escola onde era diretor-cultural, frequentava o antigo Circo Voador e, apenas por temer se atrasar para o trabalho, lamentava não poder fazer a corrida diária no calçadão da avenida Atlântica? Disse, certa vez: “A vida no Rio é fascinante. Mesmo sem querer, nos envolvemos com os hábitos cariocas”.

 O cônsul-geral de Portugal no Rio de Janeiro, José Guilherme Stichini Vilela, chegou ao Brasil em dezembro de 1987. Estava entre os convidados da comitiva de mais de 140 pessoas da viagem de Mário Soares ao Brasil. Nasceu em Lisboa, em 28 de abril de 1940. Antes de assumir o posto no Rio foi assessor das Relações Internacionais e consultor da Casa Civil, Chefe de Gabinete do ministro dos Negócios Estrangeiros e atuou como diplomata na França, Canadá e Angola.

José Guilherme e Rachel de Queiroz Jornal do Commercio do Rio. 1987

Com a chegada de Zé Guilherme – como era chamado pelos íntimos, afinal, ele era um cariocão, né? – o casarão de número 424 da rua São Clemente, bairro de Botafogo, nunca mais seria o mesmo. O palacete foi a residência do industrial Jorge Street, obra do arquiteto Guilherme de la Rocque Rebelo de Andrade, em estilo barroco português, construído em pedra de Lioz, com pisos e colunas do hall de entrada em mármore de Arrábida. Funcionava como Embaixada de Portugal no Brasil antes da transferência da capital federal para Brasília, 1960. Na verdade, o lindo prédio serviu como embaixada portuguesa até a década de 1970, quando finalmente a chancelaria foi transferida para o Planalto Central.

Os anos 1980, no Brasil considerados “A Década Perdida”, viram a explosão dos índices de inflação e a escalada da violência no Rio de Janeiro. O cônsul preferia falar das coisas boas da cidade e sempre com otimismo. Nunca deixou que isso atrapalhasse sua interação com os brasileiros. Zé Guilherme pensou em transformar a antiga chancelaria em centro cultural permanente para a cultura portuguesa e brasileira. E assim fez. Seu nome frequentava as notinhas dos colunistas sociais e culturais da época.

Sobre a programação cultural do palácio, dizia: “este faz parte do patrimônio da cidade e não tem porque ficar fechada para o público carioca. A série Música no Consulado foi a forma que encontramos, para, de algum modo, contribuir para a vida da comunidade”. Coube ao cravista Marcelo Fagerland abrir a série desse evento organizado pelo cônsul, nos jardins tropicais do palacete. “Um Porto de Honra” foi outro evento organizado, em 1988, entre os escritores da chamada “Távola Redonda” – movimento poético neomodernista, criado em 1950, em Lisboa – e intelectuais brasileiros.

José Guilherme. 1989. Reprodução Internet

Nas lembranças de sua passagem como cônsul do Rio de Janeiro, o diplomata Luís Filipe de Castro Mendes, estão os tempos agitados no Palácio São Clemente. Em depoimento ao CPDOC da Fundação Getúlio Vargas, em outubro de 2010, o historiador Manuel Villaverde Cabral, amigo de infância de Zé Guilherme, lembrava que o cônsul gostava muito do Brasil e das “festas fantásticas” no consulado, como a recepção ao primeiro-ministro português Aníbal Cavaco Silva, em 1988. Ou ainda, no dia 10 de junho, dia de Camões, com uma festa na qual o palácio abriu seus portões para 300 convidados…

Além dos inúmeros compromissos de trabalho, conferências, o cônsul-geral demonstrava, já na década de 1980, o que hoje se convencionou chamar de Responsabilidade Social. As chuvas de verão no Estado do Rio de Janeiro são fortes e quase sempre com consequências trágicas. As de 1988 deixaram vários desabrigados no Estado. Junto à Federação das Associações Portuguesas e outras entidades, foram organizados eventos beneficentes para os desabrigados e o dinheiro arrecadado foi entregue ao governo do Estado do Rio pelo cônsul-geral português, na forma de um cheque simbólico. Tamanho envolvimento com o povo brasileiro e como forma de agradecimento foi concedido ao cônsul o título de cidadão do Estado do Rio de Janeiro em 15 de junho de 1989.

José Guilherme. 1990. Reprodução Internet

Infelizmente, na década de 1990, deixou o Rio para trabalhar em Ancara e, depois, Argel. Tinha planos de fixar residência e envelhecer aqui, não sabemos se realizou o sonho. Esse que foi amigo do agitador cultural Perfeito Fortuna, diretor-cultural da Unidos da Tijuca, amante da música de Chico Buarque, Caetano Veloso e Egberto Gismonti, entusiasta do humor dos textos de Miguel Falabella (Sereias da Zona Sul) faleceu em 30 de março de 2012. Nas palavras do diplomata Francisco Seixas da Costa:

Era um congregador de afetos, generoso sem limites, dedicado aos outros, mesmo a alguns que o não mereceram. Muito culto, com um imenso bom gosto, tinha uma grande abertura ao novo e ao diferente, criando, com naturalidade e sem esforço, novos amigos e conhecidos, quase sempre gente muito diversa e interessante. E, às vezes, não”.

 

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