Flavio Santos e a história da fundação do Real Gabinete Português de Leitura

Salão do Real Gabinte Português de Leitura. Foto de Rogerio Ruschel - editor de In Vino Viajas

O edifício do Real Gabinete Português de Leitura (GPL) é um daqueles lugares que fazem jus ao título do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. É a cereja do bolo dos esforços da colônia portuguesa no Brasil e que foi eleita pela revista Time, em 2014, como uma das bibliotecas mais bonitas do mundo. Mesmo que pareça tentador mergulhar nos detalhes técnicos e artísticos desse magnífico prédio, essas informações já estão disponíveis na internet com todas as minúcias e acompanhadas de registros fotográficos incríveis.

O prédio foi concebido em meio aos preparativos das efemérides pelo tricentenário da morte do poeta Luís Vaz de Camões. Os portugueses e seus descendentes no Brasil se mobilizaram para substituir a biblioteca antiga (já com acervo de 50 mil itens), que funcionava na rua dos Beneditinos, n.12, por uma nova que custaria  Rs600:000$000 – seiscentos contos de réis. Em estilo neomanuelino, a nova biblioteca levou pouco mais de 7 anos para ser finalizada e contou com dois eventos especiais.

Um deles foi a cerimônia de assentamento da pedra fundamental. No dia 30 de junho de 1880, dia da morte de Camões, o Imperador Dom Pedro II chegou às 11 horas ao local, que estava enfeitado com bandeiras, arcos de flores e um grande pavilhão adornado com o verso de Camões: “D’estare s’esclarece o entendimento”. Sua Majestade foi recebida pelo Ministro do Império (o equivalente, a grosso modo, ao Ministério do Interior ou Casa Civil) José Antônio Saraiva e foi executado o Hino Nacional. Estavam os representantes do Club Gymnastico e do Lyceo Litterario Portuguez, do Instituto Histórico e Geográfico (o Visconde do Bom Retiro) a imprensa e grande multidão. O cura da freguesia do Sacramento, cônego Peçanha Baptista, procedeu à bênção do local da futura biblioteca e da pedra fundamental.

 Após os discursos de costume, o presidente do GPL e demais dignitários carregaram a pedra em uma padiola e a depositaram no local escolhido, junto com uma caixa de madeira coberta com folha de zinco. Dentro dessa urna guardaram o auto de assentamento, um punhado de moedas, jornais do dia e um exemplar de Os Lusíadas. Terminada a cerimônia, os dignitários e uma multidão se dirigiram ao edifício da Biblioteca Nacional, onde foi inaugurada a Exposição Camoniana.

Entre o assentamento e a inauguração, ocorreram alguns fatos curiosos.

Para a marcar a ocasião, o GPL mandou cunhar três moedas de ouro. Uma delas presenteadas ao Imperador. Pois bem, a Gazeta de Notícias de novembro de 1882 noticiou que alguém furtou a tal medalha que estava guardada em um dos cômodos do Palácio de São Cristóvão. O ladrão fez leilão da moeda em hasta pública, sendo arrematada por um ourives. O artesão expôs o artigo na vitrine de sua loja, fato que chegou ao conhecimento da diretoria do GPL, que a recomprou. Ninguém deu falta do objeto: os oficiais da Casa Imperial, a polícia, o Imperador…

 Em fevereiro de 1882, aconteceu uma acalorada discussão no Senado Imperial, com direito a piadas nos jornais, sobre a pretensão da direção do GPL em receber isenção de pagamento de impostos de importação do ferro e da pedra de cantaria especial para construção. O senador Silveira Martins, contra a proposição, considerava uma patriotada da direção do GPL. Apesar da celeuma, o Senado aprovou a resolução.

No dia da cerimônia de assentamento da pedra fundamental, dentro do pavilhão de honra, havia um grande painel com a pintura da futura biblioteca. O desenho do projeto foi inspecionado calmamente pelo Imperador, que ficou muito impressionado. Os contemporâneos achavam que o Rio de Janeiro não tinha um edifício de primeira linha como prometia ser a futura biblioteca. O deslumbramento dos contemporâneos foi imortalizado pelas palavras escritas nas folhas do jornal O Paiz:

 “Quem transpunha uma das portas, admiravelmente trabalhadas, que dão ingresso para o salão nobre, ficava agradavelmente impressionado do todo harmonioso que se lhe offerecia à vista,(…)”

Diário Illustrado do R.J. lustração da fachada do G.P. de Leitura. Autoria de Penoso. 1887.

Mesmo em 1887, ano da inauguração, os jornais reclamavam do local escolhido, o “quarteirão infecto da (rua da) Lampadosa”, que seria rebatizada em homenagem a Luís de Camões. Os jornais da época reproduziram o desenho, explicando ao público os pormenores do novo edifício.

Como já sabemos, a força da colônia se fez presente. Foram feitas grandes contribuições em dinheiro. O capitalista português Rodrigo Machado de Carvalho doou 1:000$000 (um conto de réis) para as obras. O Conde de São Salvador de Matosinhos, também português e grande capitalista no Brasil de sua época, contribuiu com boa quantia.

No dia 1.o de julho de 1887 começou o processo de transição para a rua Luiz de Camões, com a paralisação das atividades do velho prédio da rua dos Beneditinos.

Enfim, chegou o dia da inauguração. Quatro dos fundadores do Gabinete Português de leitura estavam presentes.

O pianista e compositor (e professor de Chiquinha Gonzaga) Arthur Napoleão iniciou a regência da orquestra que passou a tocar o Hino Nacional para recepcionar Sua Alteza Imperial, a Princesa Regente Dona Isabel e o conde D’Eu, às 12 horas da tarde do dia 10 de setembro de 1887, seguido da ópera O Guarany, de Carlos Gomes. O Imperador estava em viagem para a Europa, por problemas de saúde. O discurso de inauguração do prédio foi proferido pelo escritor português, comendador Ramalho Ortigão, que repetiu a íntegra do discurso de inauguração da associação em 1837.

Após os discursos, Suas Altezas percorreram as dependências do prédio e se retiraram às duas horas da tarde.

O Jornal A Semana explicou bem o sentimento que ficou por parte dos brasileiros: “Com que moeda poderá o Brasil pagar à colonia portugueza o que os benemeritos directores do Gabinete lhe acabam de dar em arte e em bom gosto?”

Compartilhe nas redes sociais
Publicação Anterior

Veja a superprodução de moda comandada pela dupla Aramis & Freitas

Próxima Publicação

Em retomada gradual, Tap retoma voos para Europa

9 Comentários

  • 👏👏👏👏👏💐💐

  • … [Trackback]

    […] Information to that Topic: revistadovilla.com.br/2020/08/16/flavio-santos-e-a-historia-da-fundacao-do-real-gabinete-portugues-de-leitura/ […]

  • … [Trackback]

    […] Information on that Topic: revistadovilla.com.br/2020/08/16/flavio-santos-e-a-historia-da-fundacao-do-real-gabinete-portugues-de-leitura/ […]

  • … [Trackback]

    […] Find More to that Topic: revistadovilla.com.br/2020/08/16/flavio-santos-e-a-historia-da-fundacao-do-real-gabinete-portugues-de-leitura/ […]

  • … [Trackback]

    […] Read More on that Topic: revistadovilla.com.br/2020/08/16/flavio-santos-e-a-historia-da-fundacao-do-real-gabinete-portugues-de-leitura/ […]

  • … [Trackback]

    […] Read More Info here to that Topic: revistadovilla.com.br/2020/08/16/flavio-santos-e-a-historia-da-fundacao-do-real-gabinete-portugues-de-leitura/ […]

  • … [Trackback]

    […] Here you will find 32446 more Info to that Topic: revistadovilla.com.br/2020/08/16/flavio-santos-e-a-historia-da-fundacao-do-real-gabinete-portugues-de-leitura/ […]

  • … [Trackback]

    […] Read More on that Topic: revistadovilla.com.br/2020/08/16/flavio-santos-e-a-historia-da-fundacao-do-real-gabinete-portugues-de-leitura/ […]

  • … [Trackback]

    […] Read More to that Topic: revistadovilla.com.br/2020/08/16/flavio-santos-e-a-historia-da-fundacao-do-real-gabinete-portugues-de-leitura/ […]

Deixe um comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado.