Xandy Novaski entrevista o coreógrafo e diretor Gustavo Gelmini

GUSTAVO GELMINI - Crédito Daniel Santos

GUSTAVO GELMINI costurou os primeiros ritmos de expressão corporal quando, ainda garoto, unia dois videocassetes numa edição que sugeria seus primeiros encontros com a arte. E foi essa palavra, ‘encontro’, que ele grifou em seu dicionário particular, promovendo diversos embates e enlaces corporais de puro encantamento como coreógrafo e diretor da Cia Gelmini. A companhia, que durante 05 anos foi residente no Centro Coreográfico da cidade do Rio de Janeiro, agora segue com os trabalhos em Paris, no Le Centquatre-Paris e no Centre National de la Danse. 

Conheça um pouco mais das veredas percorridas por Gustavo no comando da Cia Gelmini, e se encante com os diálogos de que a dança é capaz!

1 – Quando que a coreografia passou a fazer parte da sua vida?

Possuo um percurso bem híbrido e autodidata: estudei cinema, teatro do movimento e durante muito tempo fui colaborador de uma companhia de dança contemporânea no Rio de Janeiro. Venho também de uma família de músicos, o que me permitiu sempre ter um olhar apurado de longa data para a relação entre o movimento e a música. Junto a essa bagagem, me interesso muito por filosofia. Trouxe para a dança, através da dramaturgia, provocações de composição de movimento como uma ferramenta de coreografar do ponto de vista de um coreógrafo que não é bailarino, mas um provocador, observador e montador de movimento. Agora, trazendo sua pergunta para um lugar mais íntimo, sou da geração dos anos 80, do surgimento da MTV, onde videoclipes e videodanças eram linguagens que se entrelaçavam de forma muito conceitual e inventiva entre o mercado e as companhias de dança. Lembro, quando muito garoto, reeditava videoclipes que gravava da TV, ligando um videocassete ao outro, como uma ilha de edição amadora, para criar ritmos próprios de expressão. Felizmente, já adulto, e de forma um pouco mais profissional (risos), tive a oportunidade de dirigir muitos videodanças. Logo, a minha relação com a cena, a partir de um olhar mais filosófico, é muito inspirada na montagem dialética de Sergei Eisenstein, criador da montagem no cinema, e o teatro de laboratório de Jerzy Grotowski, tema central da pesquisa que irei desenvolver a partir deste ano no meu mestrado na Paris 8.

ESPAÇO TEMPO MOVIMENTO - Crédito Marina Braga

2 – Você dirige a Cia Gelmini, que tem sua marca na dança. Como se dá a criação de um vocabulário coreógrafo específico?

Gosto de pensar que estou criando um novo tipo de dança, uma dança menos bela, menos pautada no acerto, menos “perfeita”, mas repleta de dizeres para o estômago, não necessariamente para a cabeça. Seria uma dança grunge, talvez? Nesse sentido, o processo criativo se dá de uma maneira muito íntima junto aos bailarinos, a proposta cruza nossas vidas e diz de mim, diz deles e algo nasce desta vontade de dizer. Nesse sentido, creio que o público compreende de uma forma menos diegética (início, meio e fim), menos interpretada ou representada, mas do ponto de vista de uma experiência ou um ritual laico, onde procuro reduzir na cena, o que considero realmente essencial do ponto de vista da criação específica.

3 – A Cia desenvolveu suas pesquisas por 05 anos no Rio de Janeiro. Quando e como aconteceu a residência no Le Centquatre-Paris e no Centre National de la Danse?

Durante cinco anos a companhia foi residente artística no Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro. Todos os cincos espetáculos que realizamos foram ensaiados lá, um privilégio! No Le Centquatre-Paris, desde 2017, quando trouxe ‘Toque’, desenvolvemos uma relação muito boa, é um lugar realmente incrível, um modelo internacional para a arte contemporânea e democratização da cultura. ‘Toque’ falava de colocar a dança urbana (criada na rua) dentro de uma caixa preta e as tensões que surgem a partir do encontro com o outro. Não havia melhor lugar em Paris que o Centquatre para trazer esta temática. Quanto ao Centre National de la Danse, nós iríamos começar a pesquisa de ensaios do novo espetáculo, ‘AntiOpera’, durante os meses de março, abril e maio, que infelizmente foi interrompida com as medidas sanitárias diante da Covid-19. Atualmente estou aguardando os novos passos desse momento que estamos vivendo e que foge totalmente das nossas previsões.

 

TOQUE NO CENTQUATRE - Crédito Rodrigo Bois

4 – O Brasil tem a cultura da admiração pelos espetáculos de dança? Por quê?

Honestamente, muito pouco. Creio que existe um problema grave na formação de público para dança nos teatros que inicia na educação. O governo anterior ao golpe de 2016 estava empenhado em corrigir esse problema, com medidas muito pontuais e democráticas para a cultura e vinha conseguindo bons resultados. Eu acredito que cultura é uma responsabilidade do Estado, que precisa fornecer muitas oportunidades desde a educação nas escolas até a cadeia de produção de espetáculos e suas exibições. Este é um formato que vejo muito aqui em Paris e olhe como a cultura é um patrimônio desta cidade. Mas para isso, é preciso tempo e empenho que não deve ser interrompido por governos que resolvam querer reinventar a roda. A Cultura deve ser vista como um trabalho conectado e continuado com muito diálogo entre nossos profissionais.

LEANDRO VIEIRA EM MATEUS - Crédito Maurício Maia

5 – A Cia Gelmini tem seu elenco fixo, porém, trabalha com artistas convidados. Como é o processo de busca dessas participações até a consolidação do convite?

A companhia não possui um formato tradicional de formação, para além de uma companhia de bailarinos. É uma companhia de artistas, que veem movimento em suas obras e esta é uma energia que sempre traz um frescor criativo para o trabalho. O iluminador José Geraldo Furtado, por exemplo, que é também artista visual, é um verdadeiro parceiro conceitual. Além disso, gosto sempre de criar novas parcerias e quando elas se tornam um casamento (risos), elas naturalmente acabam fazendo parte de um todo. Como ocorreu com Paulo Marques no espetáculo ‘Casa’, um bailarino pesquisador de 55 anos, com uma experiência filosófica também autodidata, bem próxima da minha. Nosso encontro gerou um solo que trata da relação do corpo com habitar-se, o resultado foi muito bem recebido pelo público e pela crítica. Paulo também foi dramaturgista de ‘Mateus’, espetáculo que trata das tensões que giram em torno da espiritualidade, com Leandro Vieira e Fernanda Santana, entre uma dança de base africana e uma dança eurocêntrica, dentro de um contexto brasileiro, habitando nossa casa, que é um encontro destas diferenças.

 

PAULO MARQUES EM CASA - Crédito Maurício Maia

6 – Vocês têm espetáculos premiados, e que seguem na ativa desde 2016, como ‘Casa’, ‘Fauno’, ‘Toque’, dentre outros. Qual é o segredo da vida longa desses trabalhos?

Não tiveram vida longa, infelizmente, ao menos como eu gostaria… É muito difícil no Brasil, especialmente em dança contemporânea, dar vida longa a um espetáculo de dança, mesmo que ‘Espaço Tempo Movimento’, ‘Toque’ e ‘Casa’ tenham sido selecionados no Globo entre os melhores da dança em seus respectivos anos (2016, 2017, 2019) e mesmo que ‘Fauno’ tenha recebido o prêmio de melhor bailarino no Prêmio Cesgranrio de Dança em 2018. Existe uma grande dificuldade de uma rede de exibição, antes ainda contemplada pelo SESC, mas que mesmo assim, nunca foi suficiente para uma vida longa, o que é realmente uma pena. Este é mais um motivo para nos reinventarmos a cada espetáculo e procurar uma rede de exibição internacional mais sustentável, assunto recorrente que tenho com Cacau (Gondomar, produtora da companhia no Brasil).

RENATO CRUZ e CYRIL HERNANDEZ em TOQUE - Crédito Divulgação

7 – A dança tem a capacidade em alcançar qualquer idioma no mundo. É como se moldar numa língua universal. Quando é que o corpo, no seu movimento, consegue dizer mais do que qualquer palavra projetada?

Não romantizo o corpo em grau comparativo diante das outras artes. Para mim qualquer expressão artística tem a força de afetar. Não sei a fórmula e acredito que nunca saberei, apenas sigo fazendo o que acredito como expressão artística e como encontro com o outro, desde os bailarinos, ao cenógrafo, ao iluminador, até o público que senta para assistir o espetáculo. No entanto, acredito que qualquer obra diz mais expressivamente quando ela apresenta mais questões que certezas, quando abre espaço para o público pensar por si. Para mim este é o grande encontro.

8 – Estamos vivendo uma época única com o isolamento social. Como é que vocês estão trabalhando a agenda em tempos de pandemia?

Atualmente aguardo a fronteira abrir para a vinda de Paulo Marques do Brasil, que já está com a passagem comprada desde março para a residência artística no Le Centquatre, que ocorreria em junho, e sigo na pesquisa com dois bailarinos franceses com quem desenvolvi um belo diálogo desde que cheguei a Paris no ano passado. A agenda por aqui está complicada, muitos espaços não podem receber com tanta frequência como poderiam devido às medidas de segurança, e são muitos artistas precisando. Logo, é um momento de muita paciência e compreensão.

MONICA BURITY e THIAGO OLIVEIRA em FAUNO - Crédito Sergi Arbusà

9 – Quais são os próximos passos da Cia Gelmini para o pós-pandemia?

Apesar de não sabermos ainda quando a pandemia vai acabar, estou desenvolvendo a pesquisa do novo espetáculo, ‘AntiOpera’, que iniciei no final de 2019 e que irá tratar da Ira e das relações de deslocamentos internos e externos que fazemos diante dela. Será o primeiro espetáculo com parcerias internacionais desse porte, apesar de sempre ter trabalhado com algum artista estrangeiro nos espetáculos, como a linda parceria com o artista plástico catalão Sergi Arbusà. Mas em ‘AntiOpera’, este diálogo se estende entre artistas da Alemanha, França, Equador e Brasil. Para este espetáculo, visitei as arquiteturas nazistas de Nuremberg, na Alemanha, quis entender através do espaço, através da experiência física, a relação de poder que afetou terrivelmente o século passado em duas grandes guerras e nos influencia até hoje. Enquanto estava por lá, a fronteira com a França fechou e acabei passando o tempo de quarentena na cidade, o que tornou a experiência bem sofrida, para além do que imaginava, mas muito interessante para a pesquisa. Um grande desafio, mas não menos arriscado que um menino ligar dois videocassetes um no outro, sem saber até que ponto poderia incendiar a casa (risos), perigosíssimo!

 

PAULO MARQUES, bailarino - Luz de JOSÉ GERALDO FURTADO - CASA - Crédito Maurício Maia
Compartilhe nas redes sociais
Publicação Anterior

Rede das 12 Aldeias Históricas de Portugal em festa. Confira:

Próxima Publicação

André Conrado e a bela São Salvador da Bahia – Parte 1

12 Comentários

  • … [Trackback]

    […] Here you will find 73221 more Info on that Topic: revistadovilla.com.br/2020/09/10/xandy-novaski-entrevista-o-coreografo-e-diretor-gustavo-gelmini/ […]

  • … [Trackback]

    […] Find More on that Topic: revistadovilla.com.br/2020/09/10/xandy-novaski-entrevista-o-coreografo-e-diretor-gustavo-gelmini/ […]

  • … [Trackback]

    […] Find More here to that Topic: revistadovilla.com.br/2020/09/10/xandy-novaski-entrevista-o-coreografo-e-diretor-gustavo-gelmini/ […]

  • … [Trackback]

    […] Here you can find 28298 additional Info to that Topic: revistadovilla.com.br/2020/09/10/xandy-novaski-entrevista-o-coreografo-e-diretor-gustavo-gelmini/ […]

  • … [Trackback]

    […] Information on that Topic: revistadovilla.com.br/2020/09/10/xandy-novaski-entrevista-o-coreografo-e-diretor-gustavo-gelmini/ […]

  • … [Trackback]

    […] Find More on that Topic: revistadovilla.com.br/2020/09/10/xandy-novaski-entrevista-o-coreografo-e-diretor-gustavo-gelmini/ […]

  • … [Trackback]

    […] Read More here to that Topic: revistadovilla.com.br/2020/09/10/xandy-novaski-entrevista-o-coreografo-e-diretor-gustavo-gelmini/ […]

  • … [Trackback]

    […] Info to that Topic: revistadovilla.com.br/2020/09/10/xandy-novaski-entrevista-o-coreografo-e-diretor-gustavo-gelmini/ […]

  • … [Trackback]

    […] Find More here on that Topic: revistadovilla.com.br/2020/09/10/xandy-novaski-entrevista-o-coreografo-e-diretor-gustavo-gelmini/ […]

  • … [Trackback]

    […] Read More here on that Topic: revistadovilla.com.br/2020/09/10/xandy-novaski-entrevista-o-coreografo-e-diretor-gustavo-gelmini/ […]

Deixe um comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado.