Francis Fachetti entrevista o cantaor e bailaor flamenco Diego Zarcon

Voltando ao universo da arte flamenca, a coluna do Fachetti, vem dar luz e visibilidade necessária, a mais um artista competente, experiente, de voz expressiva, com identidade – o cantaor e bailaor flamenco: Diego Zarcon.

Foto: Letícia Volpi.

Iniciou sua carreira com o ballet clássico em 1992.

Integrou a associação de ballet do RJ, dirigido por Dalal Achcar em 1997.

Fez aulas de flamenco e danças regionais na Escuela de Danza Españhola, com Alberto Turina e Mabel Martín, integrando o Ballet da Casa de Espanha do Rio de Janeiro.

Estudou flamenco com Giselle Ferreira, participando, como bailarino convidado, em festivais renomados, como o Festival do Triângulo Mineiro, recebendo premiação.

Como bailaor, teve experiência com: DOMINGO ORTEGA; IMACULADA ORTEGA; RAFAELA CARRASCO; MANUEL LIÑAN e YARA CASTRO. 

Com o cante: TALEGÓN DE CÓRDOBA; PEDRO OBREGÓN; SAÚL QUIRÓS; DAVID VÁSQUEZ e ENCARNA ANILLO.

Como cantaor, atua dentro e fora Brasil. Participou de espetáculos com artistas internacionais como: POL VAQUERO; NINO DE LOS REYES; DAVID PANIAGUA; DOMINGO ORTEGA; INMACULADA ORTEGA; CARMEN “LA TALEGONA”; PEDRO CORDOBA; ANTONIO CANALES; SANDRA GUERRERO “LA NEGRA”; ALFONSO LOSA; ELI “LA TRUCO”; CRISTINA AGUILERA; GUADALUPE TORRES; JOSÉ SUAREZ “TOROMBO” E CARMEN LEDESMA.

Organizador e diretor artístico da “Juerga”, evento que ocorria no Centro Cultural Carioca no RJ, e que contava com a participação de músicos e bailaores, nacionais e internacionais de 2003 até 2010.

Colaborou em 2012 na trilha sonora do espetáculo “Dzi Croquettes em Bandália” do ator e diretor Ciro Barcellos. E, com os mesmos, participou de uma performance no evento “Rio sem Preconceito” realizado no dia 15 de Maio, no Circo Voador – RJ.

Cantou na abertura do espetáculo “Abolengo” do bailaor flamenco “FARRUQUITO”, no Teatro GuaÍra, em Curitiba – PR, em Abril de 2013.

Produziu em 2012 o espetáculo “Flamenco Sin Fronteras – Noche de Fiesta“, com figuras atuais e importantes do flamenco nacional e internacional, no Casarão Ameno Resedá, no RJ.

Em setembro de 2013 é convidado a participar como cantaor no espetáculo – “ANTONIO” – em Campinas-SP. Espetáculo este, que contou com vários artistas nacionais, e a presença do grande maestro “ANTONIO CANALES”, para quem cantou.

No dia 09/11/2013, teve a honra de cantar em um show de Tablado, realizado no sul do Brasil. Com a presença ilustre do Guitarrista flamenco “PACO DE LUCIA”.

Como bailarino atuou no Teatro Municipal do RJ para a montagem da Ópera Carmen, de Bizet; na concepção do diretor Allex Aguilera, composta por sete récitas. E na ópera, “Dom Quixote”; também no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Durante a Quarentena criou o projeto “Tablao Flamenco Virtual”. Que contou com a participação de artistas nacionais em um trabalho minucioso de sincronização e interação virtual em 3 edições.

Diego Zarcon – Foto: Letícia Volpi.

Entrando na arte flamenca, com a voz de Zarcon:

Fachetti – No começo, como bailaor flamenco, participou de festivais importantes; recebendo premiação. Nos conte desses festivais, e sobre esta premiação.

Diego Zarcon – Eu tive a sorte de conhecer uma artista a quem eu admiro muito, que é a Giselle Ferreira. Minha primeira professora de flamenco. Me ajudou muito, e me impulsionou a me inserir no mundo da arte flamenca.

Em minha primeira experiência em Festival competitivo, participei do XI Festival do Triângulo MG, em Uberlândia em 1998. Foi fascinante poder conhecer tanta gente e ver os trabalhos de tantas companhias de dança.

Recebemos 1° lugar na modalidade dança popular carácter, com coreografia de Giselle Ferreira.

Recebi elogios dos jurados Tindaro Silvano, Patrícia Avellar, Juçara Pinheiro, Steve Harper…foi um divisor de águas para mim.

Com o Ballet da Casa de Espanha, recebemos 1° lugar na categoria profissional no “XI Festival  de danças do Rio de Janeiro – Tápias” em 1998. Com um número especial, baseado na obra clássica “España”, de Chabrier. Este número, fazia um passeio pelas danças regionais espanholas; Asturias, Aragon, Navarra, Cataluña, Galicia; com um delicioso diálogo com o flamenco.

Com o Ballet Rodrigo Garcia conquistamos 1° lugar na categoria profissional, no “VI festival nacional Arte de Dançar em 1999”, com uma coreografia por bulerias, que eu havia montado para o grupo.

Arquivo pessoal.

Fachetti – Como eram essas aulas de flamenco e danças regionais/folclóricas, com Alberto Turina e Mabel Martín, integrando o Ballet da Casa e Espanha? Conte-nos peculiaridades dessa época.

Diego Zarcon – Eu sempre gostei de novos desafios. Fazia Ballet Clássico no mesmo período, na Escola Estadual de Dança Maria Olenewa, e na Dalal Achcar também.

Nunca fui muito disciplinado com o flamenco. Gostava de dançar mais livremente. Porém, não só para o flamenco, mas para qualquer forma de dança, é necessário ter disciplina e técnica. 

Com o Ballet da Casa de Espanha, aprendi lições de comprometimento com a arte. Eu tive aulas com Alberto Turina. Grande maestro. Eu achava este artista fantástico! Grande pesquisador e incansável incentivador de artistas em ascensão.

Com as danças regionais, tive experiência com Mabel Martin e Andrea Bianco. Tive aula com um professor da Galícia, que veio dar uma oficina na época. Era bem acrobático e amplo culturalmente. Haviam diversos estilos de danças folclóricas regionais. Foi uma experiência bem positiva!

Teve um episódio durante uma das apresentações, na sede da Casa de Espanha, em que o figurino se desmontou (como o figurino era uma adaptação do traje tradicional, eram aplicados muitos alfinetes, polainas, para simular uma bota de cano alto). Durante a dança, meu figurino, foi se desfazendo, e o palco estava extremamente escorregadio. Não tinha como parar, sair ou marcar. Pois a dança era muito intensa. Na medida em que, o movimento ficava mais intenso, a polaina ia escorregando para debaixo da bota. Tentei retirá-las diversas vezes com movimentos fortes, chutes, e aproveitando os giros, mas, não funcionou. O público percebeu, e foi um misto de muitas risadas, e incentivo, de que eu conseguisse finalizar sem cair. Ao final, fui ovacionado! Rsrsrs! O público foi generoso, e fez esse momento ser inesquecível.

Fachetti –  Experiências, ainda como bailaor, com épicos nomes citados acima. Qual legado eles os deixou, que interfere hoje, no seu trabalho como cantaor?

Diego Zarcon – Eu fui presenteado com esses encontros maravilhosos. E aprendi muito, e divido com quem reconheço que precisa, e não tem condições, ou para quem me pede informação.

Aprendi a respeitar o tradicional, a estar atento ao novo. E sempre atento, principalmente, ao que o público necessita ver e ouvir. Sou flamenco. Mas, sou popular. Gosto de cantar o flamenco mais tradicional.  Flerto com o popular. Gosto de buscar elementos que construam pontes. Mesmo entre os leigos, que nunca ouviram flamenco. 

Aprendi com eles, que artista se constrói também pelo olhar do público. Do que ele deseja ver. Dentro do possível, sem fugir do que gosto de fazer; me permito desconstruir às vezes.

Existem alguns artistas que não posso deixar de mencionar, que são importantíssimos para mim. A guitarrista de flamenco e violonista Mara Lucia Ribeiro. Os artistas Allan Harbas e Renata Chauviere; “La Tiza”. E a bailaora Yara Castro. Cada um a seu tempo, me ensinaram coisas importantíssimas! Talvez, eu nem cantaria flamenco hoje, se não fosse o incentivo deles.

Foto: Paulo Barros.

Fachetti – Hoje, você atua como um belíssimo cantaor – com voz que converge com os palos/ritmos, expressiva e com identidade. Já cantou dentro e fora do Brasil. O que mexe com você cantando para nossos flamencos aqui, e o que te provoca “concussão”/abalo, um sacode violento, lá fora, para os flamencos de raiz?

Diego Zarcon – Antes de bailar, sempre gostei muito de música. Desde pequeno. Se a música me toca, eu escuto. E o flamenco despertou coisas importantes em mim. Me fez ser uma pessoa mais forte. E me impulsionou a dizer o que eu pensava. Abriu muitas portas para a arte.

Quando canto, tanto para nacionais ou internacionais – o amor depositado é o mesmo. E quando existe interação e sintonia – a entrega é maior!

Eu amo cantar para iniciantes. Pois neles, eu vejo o mesmo olhar de entusiasmo que tive quando eu comecei. Não que agora, eu não o tenha, pelo contrário. O flamenco te permite isso – você buscar no princípio a força que te impulsiona, não somente com o canto tradicional, mas, aquele brilho no olho do início de tudo.

Alguns flamencos internacionais com quem trabalhei aqui no Brasil, juravam que eu era Andaluz…rsrsrs!  Acho que é por causa do “sigmatismo” – colocação da língua entre os dois dentes incisivos frontais. Dá um charme maior ao espanhol falado e cantado, eu acho… rsrsrsrs. Os espanhóis andaluzes falam assim. Dei sorte!

Fachetti –  “FARRUQUITO”, é um dos insignes do flamenco mundial. Em 2013, você subiu ao palco para cantar em seu espetáculo “Abolengo”. Como foi esse feito de grande poderio?

Diego Zarcon – Cantei na abertura de seu espetáculo para Miriam Galeano. Acompanhado de Jony Gonçalves e Pedro Fernandez, no Teatro Guaíra. Eu estava bem nervoso! Mais nervoso pela imponência do Teatro Guaíra, do que pelo “Farruquito”.

Estar ao lado de pessoas que eu admirava demais na época, me trouxe conforto.

Quando me dei conta que estava cantando, e o grupo de artistas principais do espetáculo do “Farruquito”, estavam na coxia incentivando, palmeando, e cantando em coro junto comigo. Foi emocionante!

Foto: Arquivo pessoal.

Fachetti – Convidado para cantar também em 2013, com a presença do Maestro prodigioso e categórico, do baile flamenco – ANTONIO CANALES. Relate esse acontecimento, suas sensações/sentimentos, cantando para ele.

Diego Zarcon – Precisei até beber uma água agora… pois até hoje, este momento me traz a sensação de que eu estava em um sonho.
Antonio Canales é meu ídolo. O flamenco dele mais rebelde, e com sutis traços do contemporâneo, era o flamenco que me representava.
Assistia em vídeos e chorava. Sua expressividade, seu flamenco meio anárquico… me tocava muito!

Em 2013 fui convidado por Mariana Abreu, do Estúdio Soniquete de Arte Flamenca, para participar do espetáculo “Antonio” – em homenagem ao Canales. Foi um marco para mim!
Cantei por Alegrias (Palo flamenco), para ele nesse dia. O Eugenio, o outro cantaor convidado, cantou por Soleá. Não consegui conter minha emoção, mesmo no palco. Chorei muito. Ao sentir seus passos ao entrar no palco, passou um filme na minha cabeça, e eu não podia acreditar, que estava vivenciando aquilo. Foi mágico!

Diego Zarcon e ANTONIO CANALES - Foto: Arquivo pessoal

Fachetti – Teve a presença, em um tablado que você cantou, do maior guitarrista flamenco, que a mídia e o seu trabalho consagrou – PACO DE LUCIA. O que o cantaor Diego Zarcon sentiu, pensou, tremeu?… O que seu coração, seu corpo e sua voz… reagiram como?

Diego Zarcon – Aaaaaaaaai… outro episódio bem louco!

Paco de Lucia veio para a América do Sul e Mercosul, para fazer uma série de shows com seu grupo.

Veio para o RJ também, mas, preferi assisti-lo em porto Alegre. Pois haveriam 2 shows, aonde eu poderia assisti-lo no Teatro, e eu ainda poderia atuar em um show de tablado para ganhar um dinheirinho, e cobrir as despesas da viagem.

Uma amiga que trabalha com produção, me havia dito que haveria uma pequena possibilidade de um jantar especial onde alguns integrantes do grupo estariam presentes.

Eu estava me preparando para o show, quando de repente vejo Miriam, que iria bailar esta noite, assustada e pálida. Perguntei o que está havendo!

E ela dizia com a voz tremendo… o Paco está aí!

E eu respondi… Aaaaaaaah, por favor…”fala sério”.

E ela insistiu dizendo…”não… sério Diego, ele está ali… de laranja…”rsrsrsrsrsrs!!!

Meus companheiros artistas estavam muito nervosos! Afinal, era nada mais, nada menos –  Paco de Lucia!!!

E achei que tinha conseguido encarar tudo de boa. Quando vi algumas fotos, percebi que o foco dos meus olhos estavam o tempo todo atentos a ele. Que estava em uma mesa com a família, à esquerda. Os músicos dele também. Tive a oportunidade de trocar meia dúzia de palavras com ele. E tirei minha foto antológica!

A vida é muito generosa comigo! E continua sendo! Atualmente, as coisas simples me tocam mais a alma. Até porque, às emoções mais fortes que vivi com o flamenco foram descritas nestas linhas acima! Sou grato a vida e a arte por promover tantos encontros lindos!

Diego Zarcon e PACO DE LUCIA - Foto: Arquivo pessoal.

Fachetti – Durante a quarentena, estamos surtando e nos reinventando, ou os dois ao mesmo tempo. Como foi a experiência de criar o projeto “Tablao flamenco Virtual”?

Diego Zarcon – Eu estou tendo uma lição importante durante esta pandemia. Meu trabalho era totalmente presencial, e meu foco de trabalho se concentrava fora do RJ. Trabalho geralmente viajando, dividindo palco com diversos grupos diferentes.

Quando começou a pandemia, com a quarentena, tive que ser rápido. Eu já pensava em fazer algo interativo virtualmente – como aulas programadas. Mas, não sabia nem por onde começar!

Precisava trabalhar para viver, e pagar contas. Vivo para a arte e vivo da arte!

Para matar a ansiedade que me cercava e o medo, comecei, à princípio com os encontros artísticos virtuais. Os artistas flamencos me enviam bases de acompanhamento musical, e eu cantava, ou ao vivo, ou sincronizando meu vídeo com o deles.

As aulas on-line não estavam rendendo. Pelo contrário. A energia depositada era muito maior. Existia também o estado de humor de todos que variava muito. Às vezes os alunos queriam… outras vezes não queriam. Fui me sentindo cada vez mais frustrado!

Coloquei então em prática, inspirado nos encontros virtuais, os tablados flamencos virtuais.

Era um trabalho minucioso. Difícil! Com tudo para dar errado! Se tratava de 3 momentos em um só espetáculo. Onde o público migrava de perfil em perfil, do facebook, assistindo cada momento. O espetáculo consistia em vídeos, com base melódica para eu cantar ao vivo, ou sincronizados com a guitarra flamenca, canto e percussão. O primeiro era só de cante flamenco. O segundo só de guitarra flamenca e o último, o baile flamenco. Foram 3 edições maravilhosas, mas, bem trabalhosas. É bem estranho e desconfortável você começar um espetáculo onde só tem você, e uma parede como companhia. Imaginar um público a minha frente, e dialogar, como se tivesse feito isso minha vida toda.

Logo, me veio a ideia também, de criar um material que era destinado a umas aulas programadas, um material didático flamenco, destinado para professores, alunos e amantes do flamenco. Já estou na segunda edição.

Também produzo de vez em quando alguns shows on-line – onde canto com a colaboração de alguns artistas músicos em playback.

Estranhamente, é o período que mais tenho trabalhado e produzido! Acho que a ansiedade me fez estar atento a tudo, e produzir muito mais. Não somente para passar o tempo. Mas, também para viver.

Está sendo divertido. Mas, quero de verdade, é que tudo isso passe logo! Pois sinto muita falta do contato com o público… de viajar… ao mesmo tempo, levarei algumas destas lições como estratégia para trabalhar, quando tudo “voltar ao normal”.

Conseguindo êxito ou não, o importante é estar em movimento. Respeitar também nosso corpo. E o momento que ele responde quando necessita pausar.

Imagina este momento sem a arte? Sem o entretenimento? E imagina, se não existissem essas ferramentas virtuais? Seria realmente o caos!

Pois, sem arte, morremos de realidade!

 Essa foi mais uma inserção na arte flamenca, tão necessária para alma humana. 

Retornaremos, no sábado que vem, ao universo teatral, em sua parte mais visual, e artesanal. 

Nosso encontro aqui, será nada mais, nada menos, com rotundo cenógrafo/arquiteto cênico, que foi meu Mestre em minha pós-graduação em linguagem teatral, com suas cenografias memoráveis, incontáveis e épicas – José Dias.

Aguardo vocês aqui, na coluna do Fachetti. Até lá!

 

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2 Comentários

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