Douglas Delmar entrevista a poeta portuguesa Fortunata Fialho

FORTUNATA FIALHO - Crédito Arquivo Pessoal

FORTUNATA FIALHO é o nome que Maria Fialho adota como artista. Além de mãe, também é professora e escritora. Nascida em Aldeias de Montoito, reside atualmente em Évora. Dona de uma alma sonhadora, Fortunata transparece sua sensibilidade e emoções através da poesia, onde derrama em letras as emoções contidas em seu coração. Conheça mais um pouco da trajetória dessa fascinante e talentosa poeta portuguesa.

 1 – Para ser escritor ou poeta, é preciso que se tenha paixão pelas letras. Conte-nos como o gosto pela escrita surgiu em sua vida?

Antes de mais quero agradecer a oportunidade de divulgação da minha obra. É com muito gosto que respondo às suas questões e espero que as respostas lhe satisfaçam a curiosidade. Numa altura em que a internet era algo em que o comum dos mortais pensava, eram os livros que nos mostravam o mundo e que nos ensinavam a sonhar. 

Nasci numa aldeia, mas tive a sorte de ter pais leitores, o meu pai tinha a quarta classe e a minha mãe tinha frequentado a primeira classe por muito poucos meses, mas mesmo assim lia aquilo que conseguia, literatura de cordel, revistas femininas da época e colecionava os fascículos que faziam parte das mesmas. Mais tarde, já eu era crescida, o meu pai continuou os estudos e a minha mãe fez a quarta classe num programa de alfabetização. Cresci rodeada de todo o tipo de livros e lia tudo aquilo a que podia deitar a mão, fosse literatura de cordel ou os considerados grandes romances. Por vezes até o que não devia. 

Sempre me foram ofertados livros e mais tarde, o dinheiro que me davam servia pra comprar mais alguns. Ainda hoje os livros são os meus companheiros de eleição. Durante a adolescência escrevi diversos textos que nunca foram mostrados a ninguém e assim continuou por muitos anos. Vieram os filhos e o tempo era sempre pouco, trabalhar e criar filhos não é tarefa fácil e não deixa muito tempo livre, mas sempre fui escrevendo um pouco. Os filhos cresceram e a escrita tornou-se um passatempo cada vez mais intenso.

2 – Todo poeta necessita de inspiração para tecer seus versos. Diga-nos, de onde vem a sua inspiração para escrever? 

Costumo dizer que escrevo quando estou triste, quando estou alegre, quando me sinto deprimida… escrevo por tudo e por nada.

Por vezes uma palavra ou uma situação despertam o interesse e a escrita acontece, outras serve como um psicólogo que ajuda a superar as vicissitudes do quotidiano. A minha profissão é muito desgastante e estressante e se não fosse a escrita a minha sanidade mental talvez não aguentasse.

Depois de leituras interessantes fica cá dentro uma necessidade de escrever algo que dê continuidade ao prazer que estou sentido e a escrita acontece, outras vezes só quero sonhar acordada, sentir-me imersa em fantasia e ser aquilo que nunca conseguirei ser…   

Diversas vezes escrever é a minha forma de gritar como revolta contra aquilo que me magoa, outras, imortalizar a felicidade que me preenche.

3 – Você tem quatro livros lançados: Momentos, Simplesmente… histórias, Quero Um Poema e Poesia Colorida. Conte-nos como foi escrevê-los. E qual foi sua sensação ao ver suas obras se imortalizando no papel? Onde podemos encontrar seus livros para venda?

Quando escrevo nada me afeta, estou num mundo só meu e o tempo parece voar. 

Ao verem-me escrever a cada tempo vago, os meus colegas e amigos começaram a incentivar-me a publicar. Foi assim que surgiu o meu primeiro livro “Sentidos ao Vento (Momentos)” à venda na Amazon e Bubok, ambas on-line.

O meu segundo livro “Simplesmente… histórias” foi publicado pela Chiado Editora e está à venda em diversos locais, na Wook, na Chiado Editora por encomenda. Este livro é um conjunto de diversos textos, tanto em prosa como em verso que foram tomando corpo ao longo de algum tempo.

Em resposta a um anúncio de “Procuram-se poetas”, da editora Poesia Fã Clube, enviei um original para apreciação e qual foi a minha surpresa quando foi aceito para publicação a custo zero e, foi assim que surgiu “Quero um poema…” da mesma forma publiquei “Poesia Colorida”, ambos à venda online na própria editora.

Como me senti ao ter conseguido publicar? Como se um sonho se tivesse tornado realidade e, espero que um dia mais tarde possa fazer parte da biblioteca de algumas pessoas que partilhem o meu gosto pela literatura.

4 – Além de escritora, você também é licenciada em Matemática pela Universidade de Évora. Como faz para administrar estas duas profissões tão diferentes?

Com alguma dificuldade na organização do tempo. Ser professora é muito exigente e preenche a maior parte dos dias, mas em cada tempinho livre lá estou eu a escrever algo. Durante os serões ao mesmo tempo que ouço alguma televisão escrevo, confesso que muitas vezes estou completamente imersa na escrita e à televisão nem a ouço. Trago um caderno comigo, oferecido pelo meu sobrinho para eu escrever os meus livros, em que por vezes também vou registrando o que me ocorre ao longo das pausas diárias ou tempos de espera. Claro que também leio sempre que posso e assim cultivo a mente, a alma e obtenho inspiração.

FORTUNATA FIALHO - Crédito Arquivo Pessoal

5 – A leitura e o estudo são atividades essenciais para desenvolver o lado humano e sensível das pessoas. Sendo você professora, como faz para incentivar em seus alunos o gosto pelo aprendizado?

Como professora de matemática estou um pouco limitada. No entanto o facto de me verem com livros e comentar com eles alguns dos que leio ou escrevo, parece ser um incentivo. Por vezes lemos alguns dos meus textos, ficamos nos intervalos a falar deles e a trocar opiniões sobre o que gostamos de ler e assim constato que existem mais leitores entre eles do que eu pensava. 

Como eu conheço muita literatura adequada ao seu leque etário, posso comentar em particular esses livros com eles, o que também ajuda.

6 – Em relação aos autores de Portugal, há algum escritor ou escritora que você admire?

Tantos. Lembro-me de José Rodrigues dos Santos, Pedro Chagas Freitas, José Saramago, Sophia de Mello Breyner, Luís Vaz de Camões, Gil Vicente, Agustina Bessa Luís… 

Gostava ainda de acrescentar que um dos escritores que muito me marcou era brasileiro, José Mauro de Vasconcelos com a obra O Meu Pé de Laranja Lima.

7 – Vivemos em uma época onde a mulher vem conquistando seu espaço e se destacando. Como você vê a relevância feminina no meio literário?

Para ser honesta não pensei muito nisso, as mulheres têm conseguido afirmar-se nos mais diversos meios e não tardará muito até que consigam afirmar-se em todas as áreas profissionais. Na literatura, longe vai o tempo em que para publicarem tinham de usar nomes masculinos, agora estão presentes em todo o tipo de literatura. Os homens tiveram que se adaptar a um mundo cada vez mais partilhado com mulheres que não se inibem em se afirmar nos géneros literários que habitualmente eram só seus. 

Eu, por exemplo não tenho preferência pelo sexo dos autores. Se a obra me desperta atenção, basta. Já tenho ficado desiludida com obras de autores muito conhecidos e encantada com alguns que quase ninguém conhece. 

Acredito que ao existirem cada vez mais escritoras a falar de assuntos considerados tabu, mais o sexo feminino se irá consciencializando de que nada lhes deve ser vedado pelo simples facto de serem mulheres.

8 – Você também esteve presente na coletânea “Mulherio das letras Portugal”, que reúne obras literárias de autoria feminina. Como foi fazer parte dessa coletânea?

Gosto de responder a desafios, o que faz com que tenha várias participações em obras coletivas. Quando descobri a existência deste grupo comecei a ler algumas das suas publicações as quais me surpreenderam pela positiva, assim quando apareceu a oportunidade de participar enviei o meu trabalho e foi aceito. Adorei a obra final e foi uma honra fazer parceria com mulheres de ambos os lados do oceano que partilham a mesma língua apesar de entoações tão diferentes. 

9 – A poesia nos leva a lugares inimagináveis e nos desperta sonhos e sensações incríveis. Para o poeta, escrever é uma necessidade vital. Você tem planos de lançar um próximo livro?

Sim, estou a trabalhar para isso, talvez em breve tenham surpresas. Estou sempre a trabalhar em textos novos e é óbvio que gostaria de os dar a conhecer a quem os quiser ler, se for em livro ainda melhor. Só espero que sejam suficientemente bons para despertar a curiosidade dos leitores e os fazer sonhar.

10 – Nestes tempos difíceis que atualmente estamos vivendo, uma boa dose de poesia é bem-vinda. Há muitos autores que desejam publicar livros. Qual sua mensagem aos novos escritores que sonham em compartilhar seus versos com o mundo?

Que nunca desistam dos seus sonhos, que procurem formas de dar a conhecer o seu trabalho para verem as reações dos leitores, que o enviem para diversas editoras e analisem muito bem as propostas. Esforço e perseverança é essencial, nunca desistir de tentar e, mais importante que tudo, nunca desistam de sonhar, lutem pelos seus sonhos. Sonhar é uma das melhores formas de manter a mente saudável. 

Livros de poesia de Fortunata Fialho - Crédito Arquivo Pessoal
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3 Comentários

  • Sinto-me muito honrada pela oportunidade que me foi dada e adorei o resultado final.
    Muito obrigada Douglas Delmar.

  • Wollte Euch einfach mal in diesem Gaestebuch einen Gruss hinterlassen. 🙂

  • Muitos parabens foi com agrado que li esta entrevista dou-lhe os meus parabens e felicidades para continuar a fezer o que gosta e diluciar os leitores com a sua escrita e tenho orgulho de ter uma amiga com essas capacidades um beijinho até sempre

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