Xandy Novaski entrevista o coordenador social Odair Valeta

ODAIR VALETA - Crédito Arquivo Pessoal

ODAIR VALETA faz um belo trabalho no interior de São Paulo. À frente da Casa de Passagem de Atibaia, ele já presenciou muitas histórias de luta, compreensão e acolhimento. E está aqui para nos contar como entrou para o ofício na área social e como é a sua rotina no projeto.

Você trabalha na área social há praticamente 08 anos. O que o levou ao Terceiro Setor?

Em meados de 2012, ao sair da área de logística na qual eu trabalhei por muitos anos, conheci uma pessoa que tinha o desejo de implantar uma creche comunitária em meu bairro. Sendo assim, constituímos uma e juntos fizemos o levantamento territorial e identificamos a real necessidade de uma creche no bairro. A partir dai iniciamos o projeto que atendia uma média de 35 crianças em período integral com fornecimento de refeições, oficinas e aulas de natação. Meu trabalho era na área da coordenação, na qual eu mantinha contato com as famílias. Trabalhei nesse projeto da creche por 02 anos. Ao ser convidado para coordenar a Casa de Passagem me afastei.

Pois bem… Dois anos após esse início marcante, você assume a coordenação da Casa de Passagem de Atibaia, um projeto municipal em parceria com a OSC (Organização da Sociedade Civil) Casa do Caminho que visa o acolhimento de pessoas em situação de rua. O que você viu da realidade que se acentua até hoje na sua vida?

O que me marcou ate hoje foi chegar ao projeto e me deparar com seres humanos completamente invisíveis para a sociedade, e também invisíveis para si mesmos devido a perca de perspectivas de vida, perca de sonhos, pessoas sem nenhum tipo de conhecimento sobre seus direitos e deveres como cidadãos. E hoje o que me marca é ver que essas mesmas pessoas têm as suas vidas modificadas através do serviço da Casa De Passagem, com acesso aos seus direitos, com reintegração familiar e conquista de sua autonomia e autoestima.

A Casa de Passagem, criada em 2009, data essa em que o governo entendeu que seria necessário um trabalho maior para as pessoas em situação de rua, era um projeto federal. Quando que ele se torna municipal e por quê?

Tornou-se municipal no ano de 2010, onde o município de Atibaia – SP identificou uma demanda de pessoas em situação de rua e a partir disso decidiu a implantação do serviço em parcerias com OSC.

Como é feita a abordagem social e quais são os passos a seguir quando uma pessoa resolve ir para a Casa?

O trabalho da Abordagem Social se inicia com mapeamento e conhecimento do território, presença frequente da equipe de abordagem nos locais identificados com objetivo de identificação das pessoas em situação de risco social para um melhor planejamento das estratégias de aproximação. A abordagem com a pessoa em situação de rua é realizada através de um trabalho de aproximação, escuta e construção de vínculo com esse público alvo, diminuindo assim a insegurança e o receio da pessoa em situação de risco quanto aos serviços prestados. É oferecido o serviço de acolhimento e após a aceitação da pessoa em situação de rua, ela trazida para o acolhimento de Casa De Passagem.

PROJETO HORTA SOLIDÁRIA - Crédito Arquivo Pessoal

Dentro da Casa de Passagem você criou o projeto da Horta Solidária. Como ele funciona?

O projeto da Horta Solidária se iniciou em 2018 com o objetivo de proporcionar uma atividade laboral e o fortalecimento psicológico das pessoas com histórico de situação de rua, acolhidas na Casa de Passagem, estimulando assim seu desenvolvimento pessoal e possibilitando uma geração de renda através da economia solidária. A horta solidária contribui na geração de renda para o usuário que será auxiliado no decorrer do acolhimento em como administrar seu dinheiro com intuito de reconstrução de autonomia e processo de reintegração social. Além disso, o projeto contribui para melhorias e sustentabilidade do serviço de Casa de Passagem e também na importância de atuar com sustentabilidade e respeito ambiental, pois não utilizamos agrotóxicos. Com a produção das verduras, uma parte é utilizada no consumo próprio dos usuários acolhidos da Casa de Passagem e a outra parte é oferecida aos munícipes de Atibaia na forma de cesta de verduras. O cadastro dos munícipes interessados na cesta de verduras é feito via whatsapp, com pagamento de valor social que é mensal, que pode ser feito via transferência bancaria para a OSC Casa Do Caminho ou em dinheiro para o entregador. É emitido um recibo, e a entrega para o colaborador é feita semanalmente com variados produtos de hortifrúti. Os usuários participantes possuem uma conta poupança individual, na qual é depositado semanalmente um valor, variando conforme a venda, e a orientação da utilização dessa renda é feita em conjunto com a Equipe Técnica da Casa de Passagem para que o usuário reaprenda a ter sua autonomia e auto sustento.

Além do Projeto Horta Solidária, há outros dois que funcionam a todo vapor. Quais são eles?

O projeto da Marcenaria se iniciou em 2018 através de doações de equipamentos por parceiros da OSC Casa Do Caminho. Nesse projeto o usuário tem o aprendizado de um oficio e a estimulação de sua criatividade através da reforma de móveis advindos de doações e a liberdade da criação de novas peças. Iniciamos em 2019 com o projeto da criação de aves, na qual oferecemos os ovos aos munícipes de Atibaia-SP e com a venda desses ovos há promoção de geração de renda aos usuários acolhidos e também a sustentabilidade do projeto, pois são consumidos. O objetivo desta atividade é proporcionar o bem estar físico, emocional, cognitivo e a interação social entre eles. Todos os projetos executados na Casa De Passagem possuem, como objetivo final, a aprendizagem de um ofício para que, em seu processo de reintegração social, consiga uma geração de renda para sua sustentabilidade. 

Hoje, qual é a média de atendimento na Casa de Passagem de Atibaia e o que é oferecido a essas pessoas em situação de vulnerabilidade social?

Hoje, a média de pessoas atendidas é de 70 pessoas por dia, sendo oferecido: alimentação, kits higiene, roupas, acomodações para repouso. É realizado Atendimento Psicossocial, na qual é feito orientações e encaminhamentos para acesso a documentação pessoal, identificação e aproximação, fortalecimento ou reconstrução de vínculos familiares, referência e contra referência nos órgãos públicos, inserção em Projetos/Programas de capacitação e preparação para o trabalho, encaminhamentos para inserção nos programas de transferência de renda, saúde, educação e demais políticas públicas. Atendemos também pessoas em trânsito ou migrantes de outras cidades, na qual são oferecidas passagens rodoviárias para que possam retornar ao seu território de origem e resgatar vínculos familiares e valores emocionais.

ODAIR VALETA - Crédito Arquivo Pessoal

Para quem deseja ajudar a Casa de Passagem, como proceder?

As pessoas que desejam fazer doações podem trazer diretamente à Casa Do Caminho no endereço Estrada Dos Perines n°230, Bairro Boa Vista Atibaia – SP, ou entrar em contato através do telefone (11) 4411-0222 que nós retiramos a doação. Doações em dinheiro podem ser feitas na conta: Associação Espirita Beneficente E Educacional Casa Do Caminho, CNPJ: 86.790.268/0001-90, para o Banco Itaú, Ag: 0030 – Conta C/C: 44633-0.

Sem apontar um nome, você teria como contar pra gente qual foi a história de vida que mais lhe marcou durante todo esse tempo na área social?

De um senhor de 52 anos que, após uma separação familiar por conta do uso abusivo de álcool, foi para as ruas onde permaneceu por 02 anos antes de vir para a Casa De Passagem. Esse senhor foi abordado por diversas vezes pela Abordagem Social, mas sempre manteve um comportamento arredio e de negativa ao serviço. Entretanto, em umas das abordagens, mostrou-se mais solícito e aceitou o acolhimento. Durante sua estadia foi feito o acompanhamento psicossocial onde foi identificado que sua maior dificuldade era relacionada à sua saúde física. Foi iniciado o tratamento para enfisema pulmonar e por causa disso foi iniciado seu processo do Beneficio Assistencial  – BPC ( Beneficio de Prestação Continuada), no valor de um salario mínimo. Com sua saúde estabilizada, e uso de álcool estagnado e com uma renda fixa se iniciou o processo de reintegração social, onde a Equipe o acompanhou para a locação de casa, compra de móveis, e manteve acompanhamento pós-acolhimento. Esse senhor se encontra até o dia de hoje morando nessa residência, sem fazer uso do álcool e desenvolveu como hobby a pintura de quadros que o possibilita uma socialização positiva com as outras pessoas.

O que fica para o Odair quando alguém consegue se recolocar no mercado de trabalho e vai embora da Casa?

O que me marca é a gratidão que os usuários sentem pelo serviço prestado a eles, e a forma humanizada de como são tratados. O que desperta em mim é a gratidão de ter podido ajudar a restabelecer seus sonhos e a vontade de viver e prosperar.

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Um comentário

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