Douglas Delmar entrevista a poeta portuguesa Sandra Ramos

Sandra Ramos - Crédito Arquivo Pessoal

SANDRA RAMOS nasceu em Alcochete, vila portuguesa do distrito de Setúbal. Amante da leitura, logo partiu para a escrita e participou de várias antologias poéticas. Recentemente lançou seu primeiro livro em meio à pandemia. Conheça um pouco da trajetória literária da poeta lusitana! 

1) Em que momento a poesia passou a fazer parte da sua vida?

Desde pequena, que o fascínio pela leitura e pela escrita me assoberba de sobremaneira. Recordo-me desde cedo que “bebia” os livros infantojuvenis, deliciava-me com a leitura, a minha companheira dos meus tempos livres. Cedo troquei as bonecas pelos livros. Durante o meu percurso escolar, fui sempre uma aluna exemplar na área das Línguas, no entanto; a lógica, o raciocínio e o “mágico” mundo das ciências exatas pesaram na minha escolha acadêmica. 

Porém, sentia-me incompleta. Fiz o 12º ano e caminhei de mãos dadas com a Engenharia Química (licenciatura). Especializei-me na área da acreditação e certificação de qualidade, uma das minhas grandes paixões. Tornei-me Engenheira, mulher das ciências e mestre em Gestão da Qualidade. Mas e há sempre um MAS, sentia uma necessidade gigante em escrever, em viajar com as palavras e em dizer de MIM. 

Durante a pandemia, escrevi vários textos poéticos desde março até agosto de 2020; como se de um diário se tratasse. O cansaço, a solidão e a agonia de um tempo enfermo vivido, foram a locomotiva para a inspiração e a sofreguidão em “dizer” de mim e do Mundo.

 2) Seus poemas contêm temas românticos e amorosos, carregados de intensidade sentimental. Além do amor, o que mais lhe inspira a escrever?

Aprecio a grandeza da Arte, uma tela, uma música que respira a loucura incandescente da emoção de um ou vários personagens. Fascinam-me de sobremaneira as mensagens assertivas com conteúdo e o deslumbre de imagens carregadas de reptos que me permitem voar livremente.

Vive-se atualmente num mundo atual disfórico e exigente que quase não nos permite parar para refletir. Constata-se a perda galopante de valores e princípios; e muitas das vezes quando me deparo com situações de calamidade, injustiça, deslealdade e pobreza; tenho que “gritar” ao Mundo o que me aflige.  

O que me inspira é a energia resgatada da voz de um Artista, de um(a) amigo(a) e das “oferendas” ofertadas – diariamente – pela Vida. É um esvaziar de sentimentos que tomam forma e vida, deambulando livres de algemas e de censura. 

3) Você lançou o livro Memórias de um Tempo Enfermo e Infinito: Diário Epidêmico, que contém textos escritos na pandemia. O que a inspirou e como foi escrever esta obra em um período tão turbulento? Onde podemos encontrar seu livro para venda?

 A inspiração nasceu com a minha vontade de dizer!…quando o tempo enfermo me apertou, a escrita foi a mola que me levou à paz de espírito com o ganho de armas sustentáveis e alicerces psicológicos.

Confinada em casa com a minha única filha, e longe dos familiares e amigos; fui assoberbada por uma atração divina em “despejar” as indignações, preocupações, a importância da amizade, os episódios de amor e desamor vividos durante esse período conturbado… no fundo, um manjar de sentimentos vividos numa era impetuosa.

O  livro “Memórias de um Tempo Enfermo e Infinito: Diário Epidémico” foi editado em outubro de 2020 e pode ser adquirido nas livrarias do comércio tradicional e – em breve, caso haja interesse na sua encomenda –  nos grandes grupos comerciais (Fnac, Sonae, ECI, Bertrand, Sonae, CTT, Auchan) No caso da não-encomenda, a obra estará sempre disponível em qualquer balcão através de encomenda. Brevemente estará também em destaque nas lojas FNAC.

Atualmente, encontra-se disponível on-line na wook , Fnac , Bertrand e na Chiado.

Sandra Ramos - Crédito Arquivo Pessoal

4) Quando se cria e se lança um livro, é como se uma parte de nós se eternizasse nas páginas. Qual foi a sensação de ver seu livro lançado? E como os leitores reagiram à sua obra? 

Senti-me mãe pela segunda vez, anestesiada por um orgulho colossal na contemplação da união das vogais e consoantes, decifradas em sentimentos íntimos e adornados em mensagens direcionadas ao mundo.

É mais um filho, que olho pela enésima vez, que escolho a indumentária conducente e que deixo que ele parta à imagem do vento mergulhado na palavra – na MINHA!

ORGULHO dos meus leitores…!

MUITA GRATIDÃO…a minha!

 5) A escrita, para muitos, é uma espécie de consolo, refúgio e, também uma necessidade de dar voz aos desígnios da alma e do coração. Partindo disso, para você, qual é a importância de escrever?

A escrita é um RIO que desagua no MAR, é um FILHO que se estende – sem pejo – no colo da sua PROGENITORA.

Quem escreve, fá-lo por gosto no mergulho na palavra e doando-lhe um contexto apropriado. A ESCRITA é o portal de entrada para o saber do próprio desenvolvimento da inteligência humana.

Como diz Eça de Queiroz : “Só um livro é capaz de fazer a eternidade de um povo.” 

 6) Além de escritora, você também é formada em Engenharia Química e mestre em Gestão da Qualidade. Como faz para administrar estas duas atividades tão distintas? 

Para tudo é preciso disciplina e eu aprendi a calendarizar atividades desde cedo. Depressa e bem, não há quem; portanto, depois de um dia de entrega ao trabalho, de uma caminhada, do jantar com a família, nasce a vontade gigante em dizer o que vi, ouvi e/ou senti; sobretudo na envolvência da noite. Digo devagar através da linha curta (do verso) e sinto que é essa a informação que todos os dias me acompanha. 

Ganhei este lema: querer é poder! São das experiências e do que assoberba a minha alma que nasce esta atração, é um querer mais forte de mostrar ao “Mundo” os sentimentos que coabitam comigo.

Direi que não é impossível conciliar o trabalho e a escrita; uma vez que reservo na chegada da noite a inspiração carregada de malas e bagagens na partilha com os que “bebem” do meu “dizer” todos os dias: os meus leitores.

Livro de Sandra Ramos  - Arquivo Pessoal

7) O hábito da leitura também ajuda a moldar o escritor. Nesse sentido, conte-nos quais autores portugueses você mais gosta de ler. Teve influência de algum deles?

 Um dos meus escritores preferidos é indubitavelmente Sophia de Mello Breyner Andresen. Tudo nela é mar, praia, magia e encanto. 

Segue-se Eugénio de Andrade, o Homem da Palavra, o que faz apelos incessantes ao leitor para que este considere e reconsidere antes de atuar. 

Fernando Pessoa, o Mestre conhecido internacionalmente, desde a sua Autobiografia até aos seus heterónimos. O que mais me encanta, pela formação e pela maneira como se expressa; é Álvaro de Campos que tudo fez para mudar o Mundo. A Ode Triunfal é um deleite. Antero de Quental, o homem do sonho, o Palácio da Aventura onde ninguém chega. Todos querem chegar lá, bater na porta da felicidade, mas por muito que se trabalhe; existe sempre uma pedra no caminho.

Miguel Torga, o que ama a sua Terra e as suas raízes assim como eu amo tanto o Mar e o Sol. 

Cesário Verde, o que deambula pela cidade de Lisboa em tempos de pandemia como agora, sem pejo, vergonha, receio. Um autêntico repórter fotográfico que pinta com palavras a Lisboa do final do século XIX, que descreve as Sete Colinas como ninguém. 

São estes autores que me deram esta vela (imaginação), que tento guardar dentro de mim sempre. 

8) Quais são suas outras paixões além da poesia? E tem planos para um próximo livro?

Além da poesia, devoro os conteúdos académicos da minha área. Aprecio de sobremaneira as películas cinematográficas e a leitura de romances. Ouço muita música que me oferta a sensação de bem-estar, o prazer e motivação.

Amo o MAR e a praia que são indubitavelmente o meu sustento, dos quais recolho a energia motora, nutrientes indispensáveis para o meu equilíbrio.

Tal como já referi, diariamente no colo da noite; escrevo poesia e textos poéticos que pretendo publicá-los – entre outros – numa nova obra.

 9) Nestes tempos atuais, é necessário manter a esperança de dias melhores e, a poesia pode ser considerada uma ótima forma de colorir nossa realidade. O poeta também é, de certo modo, um sonhador. Qual sua mensagem aos novos poetas e escritores que sonham em compartilhar seus pensamentos com o mundo?

Se lhe dá prazer escrever, fá-lo. Se não vender fica como espólio de família, porque a escrita é ARTE e só a consome quem gosta. Se a sociedade hoje vive entretida com as redes sociais e se não lê o artista da palavra não pode fazer nada, logo urge que se escreva, mais que não seja para gosto próprio e para equilíbrio emocional – dever cumprido (sensação).

A escrita é dizer o que nos vai na alma, o oxigénio e a seiva de nutrientes que nos alimenta, que deve ser respeitada por todos os que nela vêem uma mensagem a reter para construir ou para modificar.

Objetivo da escrita: pintar o mundo com letras, dizendo o que nos aflige, o que nos conserta e o que nos faz FELIZ. 

Livro Memórias de um Tempo Enfermo e Infinito Diário Epidêmico - Arquivo Pessoal
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