Xandy Novaski entrevista o artista plástico, cantor e músico Josué Valentim

JOSUÉ VALENTIM - Crédito Arquivo Pessoal

JOSUÉ VALENTIM, além dos dons artísticos natos, como as artes plásticas e a música, tem uma vocação em ajudar as pessoas carentes, algo singular em sua trajetória de vida. Hoje vivendo em Paris, antes de sua ida para a Europa ele percorreu o Brasil ofertando cursos gratuitos de pintura em comunidades e até nas ruas. Conheça os passos dados pelo artista, sua chegada e êxito no velho continente, e se encante!

1 – Desde cedo você teve gosto pela arte. A sua rotina dentro de casa (sua família sempre lidou com a música) interferiu nessa escolha?

Desde a tenra idade, isso no Morro do Borel, na Tijuca, onde nasci e fui criado, eu comecei a ter gosto pela pintura. Gostava muito de ler também e descobri livros que contavam a história de grandes artistas como Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Monet, Picasso, então pensei em fazer pinturas como essas pessoas. Eu tinha também uma família criada na música. Nós nos envolvemos com as canções na mudança pra Nova Iguaçu. Minha mãe cantava num coral de igreja, meus irmãos participavam de uma banda de música e eu comecei a estudar também, mas sempre quedado pra pintura. De todo o pessoal da minha família, eu era o único que tinha esse dom. Nunca fui pra escola de pintura. Comprava livros nas bancas de jornal pra aprimorar técnicas, e isso eu fazia com o dinheiro que ganhava das vendas de picolés. 

2 – Apesar dos seus familiares estarem mergulhados no canto, você, que também tocava clarinete e flauta, tempos depois optou pela pintura. Em que momento houve essa mudança de rumo?

Eu não passei por uma mudança, mesclava tudo, fazia tudo ao mesmo tempo. Participava de canto de coral, aprendi clarineta, flauta, cantava, pintava… Na escola mesmo, a diretora e professores me chamavam pra fazer painéis. Eu era muito envolvido com a arte. O pessoal até falava: “Cara, você é um artista completo!”.

3 – Lá no início de tudo, seu trabalho com a pintura passava pela releitura de grandes mestres como Van Gogh, Monet. Como se deu essa junção de várias técnicas num só artista?

A junção de vários artistas vinha porque eu gostava de fazer essa releitura dos traços. Inclusive tinha um amigo em Ipanema brincava comigo assim: “O homem que copiava”, fazendo menção a um filme brasileiro. Essa releitura de vários artistas eu conseguia tudo ao mesmo tempo, entendia os traços de cada um. Mas também comecei, nessa época, a fazer pinturas de favelas, ou seja, crianças jogando bola, soltando pipas, mulheres com lata d’água na cabeça, e passei também a pintar as africanas.

JOSUÉ VALENTIM - Crédito Arquivo Pessoal

4 – Em determinado momento houve esse insight e um estilo próprio brotou de suas mãos. Ou seja, a partir de então passou a pintar a comunidade, as mulheres africanas. Como aconteceu esse belíssimo encontro do talento com a vocação?

Isso aconteceu porque as pessoas já estavam enjoadas e diziam que eu não tinha um estilo próprio. Foi quando eu comecei a pintar as favelas, as africanas. O dia a dia da comunidade, as pesquisas que eu fazia sobre a África, tudo isso serviu como base. Foi assim que aconteceu e passei a ser notado com esse meu estilo.

5 – Quando você se mudou para Nova Iguaçu, outro insight se fez presente. A criançada da região passou a aprender a pintura contigo. As oficinas inclusive aconteciam na rua, ao ar livre, ou seja, virou uma mania boa. Houve a ajuda de terceiros para a evolução dessas aulas?

Já em Nova Iguaçu, quando eu já pintava e participava de eventos, um dia fui participar de um no centro comunitário Auler Ferreira, perto do Jardim Paulina. Ali conheci o Auler. Eu fazia minhas pinturas dentro de uma sala lá dentro. O que aconteceu? Certa vez eu estava produzindo minhas obras e as crianças que faziam teatro vieram e pediram pra pintar também. Então, tive a ideia de fazer um trabalho com elas. Naquele dia mesmo peguei um pouco de tinta e passei a ensiná-las. O Auler me propôs aulas contínuas, inclusive disse que compraria o material didático. Então aconteceu a oficina aos sábados. Passei a fazer isso também na rua, pois entendi que teria bastante resultado, até mais do que dentro do espaço cultural. Isso porque muitas crianças nem conseguiam chegar ao centro comunitário devido às chuvas e etc. A ideia virou uma mania e a gratificação vinha do sorriso, da alegria. Hoje, muitas dessas crianças são casadas e lembram: “Olha, você foi meu professor de pintura!”.

6 – Sua ação fez tanto sucesso que outros lugares passaram a aderir seu projeto. Quais são essas regiões e como isso foi acontecendo?

A TV Brasil me procurou, fez uma reportagem sobre meu trabalho na comunidade do Jardim Paulina e outras regiões como Paracambi, onde inclusive o jornal da localidade me concebeu um prêmio como melhor projeto artístico cultural de auto-iniciativa na cidade, através de votação popular, e então passei a ir pra outros lugares, como nas invasões em prédios na Rua Venezuela (antigo prédio do INSS), no morro do Boréu… Daí, pensei: “Vou pra uma região bem carente do Brasil.” Me mudei pra Manaus, e de lá fui pra Roraima, onde fiz oficinas até com o pessoal da tribo Yanomami. Tempos depois embarquei pra Cidade Ocidental em Goiás onde permaneci por quase quatro anos fazendo um trabalho nas comunidades e no Caps. 

 7 – Que diferença foi sentida na rotina dessas crianças e o que se perpetuou?

O impacto positivo era nato. Muitas delas disseram que seriam artistas, iriam pintar. Inclusive, quando eu vendia minhas pinturas, era carimbado na obra que parte da arrecadação iria para o sustento dos projetos que eu fazia nas comunidades e nas ruas. As pessoas, ao invés de levarem uma, levavam duas, três obras. Algumas doavam pincéis, tintas, telas. Comecei a ter uma ajuda desses clientes. Cheguei até ir a algumas Secretarias de Cultura, mas a burocracia era tanta que optei por continuar com meu trabalho de formiguinha. Hoje, muitas dessas crianças são pais e mães de família. O fato de eu ter feito aquelas oficinas deu uma diferença impactante na vida delas, lhes mostrando outra direção.

JOSUÉ VALENTIM - OBRA - Crédito Arquivo Pessoal

8 – Você prefere a tinta acrílica na realização dos seus trabalhos. Qual é o diferencial que ela lhe traz que a tinta a óleo não complementa?

Eu prefiro a tinta acrílica porque ela é atóxica. Diferente da tinta a óleo que tem um cheiro forte, e ainda temos que usar o óleo de linhaça que é mais forte ainda. Com o tempo, essa tinta pode causar efeitos na saúde que não são positivos. Já a acrílica, não. Contudo, ela tem uma secagem muito rápida e isso pode dificultar quem não define rapidamente seus traços. Mas eu não tenho problema com isso. E pra dar aula pra criança, a tinta acrílica não causa problemas. Podemos realizar pinturas em papel ou em tela. E ela tem o mesmo resultado da tinta a óleo.

9 – A Europa passou a conhecer seu trabalho e se encantou com esse talento que vem do seu âmago, de um cara pronto para ajudar as pessoas. Hoje você mora em Paris. Como é viver numa região em que a arte é exaltada, diferentemente do Brasil?

Quando eu fazia minhas exposições de rua na feira Hippie de Ipanema, no Rio de Janeiro, e também em Santa Tereza, acabei conhecendo pessoas de vários lugares do mundo. Sendo assim, passei a receber convites pra vir pra Europa. Aceitei, então, ir pra Polônia. Essa pessoa que abriu esse caminho acabou virando minha namorada e estamos juntos até hoje. Como na Polônia o trabalho é um pouco difícil, mirei em Portugal, mas acabei por ficar na França, até porque tenho conhecidos aqui. Quando cheguei fui pra Montmartre, onde ficam os artistas, fiz amizades com alguns e perguntei: “Como faço pra expor os meus trabalhos aqui?” Eles se encantaram com o que viram. Consegui um espaço e passei a expor. Como vivemos agora o tempo do confinamento, estamos seguindo as regras. Recebi convite pra expor em outros locais de Paris, e com divulgação, então, estou esperando tudo isso passar pra seguir adiante. Além disso tem a música, pois como também canto, faço apresentações na cidade.

10 – Qual é o resumo que faz da sua trajetória? 

Não foi tão fácil. Tive várias dificuldades, mas não deixei que isso me abatesse. Sempre procurei alternativas e pensando de forma positiva. Tudo que eu fiz até hoje, e quis fazer em relação à arte, digo que gostei do resultado. Sou primeiro tenor, também curto alegrar as pessoas com a minha voz. Opera, Bossa Nova, MPB, Jazz. Esse é o resumo, o de uma vida com dificuldades, mas repleta de conquistas também.

JOSUÉ VALENTIM - MATERIAL DE TRABALHO - Crédito Arquivo Pessoal
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8 Comentários

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