Joacles Costa Entrevista o Escritor Capixaba: Paulo Roberto Sodré

Sodré | “Sem dúvida a arte tem essa chance de dar visibilidade e veicular o que ou quem o senso comum não tem condições.”

 

O escritor Paulo Roberto Sodré é Professor da UFES – Universidade Federal do Espírito Santo. Nascido em Vitória, capital capixaba. Sodré é Professor Associado de Literatura Portuguesa na Universidade, onde ingressou por concurso público de provas e títulos em 1989. Realizou o Mestrado (1997) e o Doutorado em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo, com estágio sanduíche na Universidade de Lisboa (2003) e desenvolveu o estágio de pós-doutorado na Universidade Estadual de Campinas (2008). Atua na área de Letras, com ênfase na Literatura Portuguesa e no humor literário em língua portuguesa.

 Acompanhe abaixo a entrevista com escritor Paulo Roberto Sodré:

 Joacles Costa: Quais são as suas obras publicadas?

Paulo Sodré:  Como autor de ficção, comecei com Interiores, poemas (1984), depois vieram Ominho, poema em prosa para crianças (1986); Lhecídio: gravuras de sherazade na penúltima noite, poema romanceado ou romance-poema (prêmio Ufes, 1989); Dos olhos, das mãos, dos dentes, poemas (prêmio Departamento Estadual de Cultura, 1992); De Ulisses a Telêmacos e outras epístolas, poemas (1998); Senhor Branco ou o indesejado das gentes, poemas (prêmio Secult, 2006); Poemas de pó, poalha e poeira (prêmio Secult, 2009); Guido, a folha e o capim, narrativa para crianças (prêmio Secult, 2010); Poemas desconcertantes seguidos de Senhor Branco ou o indesejado das gentes (2012); Poemas desconcertantes (e-book, 2017) e Uma leitura na chuva (prêmio Secult, 2019). Além de ficção, publiquei artigos e capítulos de livros sobre literatura medieval peninsular, literatura brasileira, em especial a produzida no Espírito Santo, e, sobretudo, ensaios críticos sobre literatura galego-portuguesa: Um trovador na berlinda: as cantigas de amigo de Nuno Fernandes Torneol (1998); Cantigas de madre galego-portuguesas: estudo de xéneros das cantigas líricas (tradução galega, 2008) e O riso no jogo e o jogo no riso na sátira galego-portuguesa (2010).

Joacles Costa: Quais caminhos (estéticos, etc.) estima interessantes para a literatura, na sua comunicação com a sociedade nos dias de hoje?

Paulo Sodré: Desde as primeiras publicações, particularmente a partir da edição de Dos olhos, das mãos, dos dentes, de 1992, dois nortes vêm me guiando na produção de textos literários: a preocupação com a linguagem, sem a qual não se faz literatura, e com o tema da homoafetividade, alvo constante de polêmicas e violência moral e/ou física. Nesse sentido, tenho procurado conciliar o investimento nos recursos poéticos (imagens, metáforas, assonâncias, estrofação diversificada etc.) com a sensibilização do(a)s leitore(a)s quanto à importância de se respeitar o direito de cada um(a) de seguir sua vida com autonomia e responsabilidade.

Joacles Costa: Qual sua perspectiva sobre o estado da cultura e literatura portuguesa, em geral? Quais são suas experiências, neste sentido?

Paulo Sodré:  Contornarei a amplitude da pergunta, expondo brevemente meu percurso pelos estudos portugueses. Uma vez que atuo como docente e pesquisador da Ufes desde 1987, voltado para os estudos portugueses, optei por me dedicar, de 1992 a 2019, ao estudo da literatura portuguesa produzida nos séculos XIII e XIV. Desenvolvi o Mestrado (uma abordagem crítico-literária das cantigas de Nuno Fernandes Torneol, trovador do século XIII), o Doutorado (uma abordagem histórico-social da mulher nas cantigas femininas peninsulares) e o estágio de pós-doutorado (uma abordagem da produção satírica e sua relação com a jurisprudência da época) em universidades paulistas (USP e Unicamp), onde me dediquei ao estudo das cantigas trovadorescas, num momento quando havia ainda poucos estudiosos brasileiros investigando o tema. Embora eu tenha publicado estudos sobre outros momentos da produção literária de Portugal, como Luís de Camões, do século XVI, Bocage, do século XVIII, ou Almeida Faria e Nuno Júdice, do século XX, e ainda que eu tenha pesquisado sobre Gil Vicente e António Ferreira, Violante do Céu e Francisco Manuel de Melo, Correia Garção e a Marquesa de Alorna, Almeida Garrett e António Nobre, Florbela Espanca e Fernando Pessoa, Miguel Torga e Jorge de Sena, José Gomes Ferreira e Lídia Jorge, José Saramago e Maria Teresa Horta, Lobo Antunes e Sophia de Mello Andresen, Luís Miguel Nava e João Miguel Henriques, entre outro(a)s, minha atenção como pesquisador acabou por se voltar intensamente para os cantares dos trovadores.

Joacles Costa: Um escritor – um poeta, um artista – é sempre um exilado interno?

Paulo Sodré: O que eu percebo, especialmente no(a)s poetas, músico(a)s e pintore(a)s, com quem me parece se evidencia mais essa impressão de exílio interno provisório, é que o degredo ocorre justamente porque ele(a)s vivenciam (experimentam pelo pensamento, pelo sentimento e pelo movimento) excessivamente o mundo. Assim, esse tumulto de sensações e reflexões só pode ser traduzido esteticamente quando ess(a) e artista se afasta, recolhe-se, ilha-se para acalmar as impressões, organizar o pensamento e produzir sua linguagem. Não se trata, portanto, de um(a) “exilado(a) interno(a)”, mas de cidadã(o) que, diante do redemoinho da vida, precisa de um canto para perceber melhor o que se passa consigo e com o mundo que observa e tenta absorver artisticamente.

Joacles Costa: A poesia deve amplificar vozes que por séculos foram forçadas a se calar?

Paulo Sodré:  Sem dúvida a arte tem essa chance de dar visibilidade e veicular o que ou quem o senso comum não tem condições, devido à acomodação do pensamento e da sensibilidade, de discernir e respeitar. A história e a historiografia demonstram, com seus inúmeros exemplos antigos e atuais de ignorância, intolerância, ganância e obtusidade, como a arte (e as ciências), em suas diversas expressões, pode desconcertar e deslocar o ponto de vista assentado e ensejar a possibilidade de reflexão e de mudança das pessoas e das comunidades em vários níveis de discernimento.

Joacles Costa:  Em 2008, na Feira do livro de Frankfurt, os editores tiveram uma visão catastrofista, afirmando que em 10 anos não haveria livros em papel; o que não sucedeu. Qual é a sua relação com o digital, é possível essa convivência com o livro tradicional?

Paulo Sodré:  Aos 58 anos de idade, e convivendo com uma pluralidade imensa de pessoas e sensibilidades na Ufes, que me desafiam constantemente a pensar e repensar minhas escolhas, posso afirmar que convivo bem com o livro e com o e-book.   São insubstituíveis a textura do papel pólen, o cheiro da tinta no impresso, o ruído do virar a página e deparar outros parágrafos e estrofes (algumas plataformas digitais, como a Issuu, reproduzem esse pequeno prazer sonoro), o ritual de retirar o volume, recolocá-lo na estante e reconhecer depois sua lombada etc. Do mesmo modo, não posso subestimar a praticidade de ter em um aparelho leve e cômodo centenas de livros que posso levar para qualquer lugar, sem sobrecarregar músculos e malas. Creio que cada suporte corresponde bem à expectativa de um certo contexto e de um modo de vida distintos, alternativos e alternantes. Gosto da ideia de tocar, pegar e folhear um livro na estante, quando estou em casa, na livraria ou na biblioteca, do mesmo modo que me apraz ativar um aparelho e acessar nele um e-book quando estou fora daqueles espaços ou em trânsito. Complementam-se e agradam-me esses diferentes livros.

Joacles Costa: Para você, a escrita é aquilo que ajuda a fazer um grande autor ou é aquilo que acompanha o nascimento desse profissional?

Paulo Sodré: Não me parecem excludentes essas afirmações: em que pese o fato de o marketing conseguir projetar celebridades literárias sem uma escrita artística consistente, a escrita é uma habilidade que se cultiva, aprimora-se e apruma-se ao longo da produção de alguém, tornando-o(a) um(a) artista. Essa escrita transpirada (muito mais que inspirada) alça o(a) produtor(a) de texto a escritor(a), acompanhando e propiciando o “nascimento” profissional desse sujeito. Em algumas pessoas a disposição para a escritura acontece bem cedo, levando-as a se dedicarem de imediato a esse desejo; outras a percebem aos poucos, admitindo-a posteriormente, às vezes na maturidade. Seja como for, a escrita literária fundamenta um e outro processo: o de transformar alguém num(a) grande autor(a) e o de acompanhar esse(a) autor(a) desde sua decisão de investir na escrita criativa.

Joacles Costa: O principal papel de um escritor é estar somente ligado à publicação de livros?

Paulo Sodré: O termo “publicação”, na verdade, implica um conjunto de ações que vão desde a produção de um manuscrito do(a) escritor(a) e sua vontade de divulgá-lo para um público por meio de uma edição até o lançamento do livro, entrevistas e palestras sobre essa produção. Isso envolve uma sociabilidade que retira do(a) escritor(a) a ideia de que basta apenas colocar seu trabalho à disposição das pessoas. É necessário, se ele(a) pretende um alcance razoável de leitore(a)s, ir muito além da edição. Dependendo, claro, de sua posição política (no sentido de relação consciente com/entre cidadãos e cidadãs), o tornar seu livro “público” adquire dimensões ainda maiores, e mais fecundas, junto a sua comunidade de leitores.

Joacles Costa: Quais os projetos você tem para desenvolver?

Paulo Sodré: Estou em um momento de transição profissional, uma vez que minha aposentadoria como docente poderá ocorrer em poucos anos. Se tudo se desenvolver bem, os projetos incluem narrativas e desenhos para crianças. Algumas minutas de textos estão me aguardando para finalização, assim como as ilustrações. Mas, por ora, o projeto imediato é viver bem cada dia e adaptar-me ao ensino remoto temporário emergencial na Ufes… O triste período Covid-19 tem nos alertado para a presunção de planos a longo prazo.

Título: Uma leitura na chuva

Autor: Paulo Sodré

Narrado em terceira pessoa, o romance Uma abelha na chuva é estruturado em mise en abyme, isto é, narrativa dentro de narrativa, uma vez que “Hipomênia e os cães” (alusivo a A demanda do santo graal, novela anônima do século XIII, e ao romance contemporâneo Corações migrantes, de Maryse Condé), “A pedra de Carlos” (alusivo ao Madame Bovary, de Gustave Flaubert, e ao “Singularidades de uma rapariga loura”, de Eça de Queirós) e “Um chorinho em sol menor” (alusivo ao Tenda dos milagres, de Jorge Amado, e às Cartas portuguesas, de Gabriel-Joseph de Lavergne, visconde de Guilleragues) são os pequenos romances que o protagonista Eduardo ensaia e hesita em escrever, enquanto se debate, ainda, entre o amor por dois homens, Maurício e Alessandro. O livro procura ainda esboçar duas discussões antigas e sempre renovadas: por um lado, o dilema do escritor Eduardo diante da (in)utilidade de seu trabalho artístico com as palavras e a representação do mundo ao seu redor. Por outro, o embaraço de Alessandro, personagem-leitor diante das representações ficcionais, sobretudo quando ele serve de referência a essas representações.

Ano: 2018

Assunto: A tensão do escritor diante da produção de um romance e a reação de um leitor diante de uma obra que o toma como personagem.

Páginas: 139

Preço: 20,00 (na loja virtual da Editora Cândida)

Editora: Cândida 

Onde comprar:  Clique no link https://loja.editoracandida.com.br/buscar?q=Uma+leitura+na+chuva  ou no contato: (27) 99629-3583

Leitura Em Dia: O que está lendo no momento? 

Aviso aos navegantes, de Salsa Brezinski, e Lágrima fora do lugar, de Suely Bispo. E uma instigante narrativa inédita de Adrianna Menegueli, com lançamento para breve em Vitória.

 

Compartilhe nas redes sociais
Publicação Anterior

Royal Palm Plaza lança espaços de brinquedos em parceria com Estrela

Próxima Publicação

André Conrado apresenta São Paulo – A Grande Metrópole

2 Comentários

  • Paulo Sodré é simplesmente fantástico!
    Excelente entrevista. Parabéns!

  • Paulo Sodré é simplesmente fantástico!
    Excelente entrevista. Parabéns!

    Tereza Rosa

Deixe uma resposta para Anônimo Cancel reply

O seu endereço de e-mail não será publicado.