Xandy Novaski entrevista o cantor Ernani

Crédito Diego Villas Boas

ERNANI cresceu no meio musical. E não hesitou ao decidir que tais acordes fariam parte de sua trajetória pelo resto de sua vida. Prestes a lançar seu novo videoclipe “Aquarela dos Sonhos”, o cantor nos concedeu uma entrevista descontraída onde aponta algumas curiosidades sobre a sua carreira, além dos maiores aprendizados herdados da música.

1 – Você foi criado pelo seu avô, o Maestro Ernandes Santana. Podemos afirmar que sua vocação musical vem dessa convivência?

Xandy, eu não tenho dúvidas disso. Toda minha infância foi cercada por orquestras, corais, sempre regidos por ele. Inclusive hoje existe na cidade de Cachoeiras de Macacu, região serrana do Rio de Janeiro, uma orquestra com o nome em homenagem ao meu avô, Orquestra Maestro Ernandes Santana. Ele influenciou muitas gerações de músicos nessa cidade, com seu coração generoso formava orquestras nos mais remotos cantos do município, locais esses na maioria das vezes sem energia elétrica, ou qualquer tipo de luxo, mas lá estava ele, sempre levando sua música, e trazendo um pouco dessa riqueza para pessoas tão humildes, riqueza essa que é a da alma, coisa que somente a música é capaz de fazer. As mesmas partituras de Beethoven, Bach e Tchaikovski que eram tocadas para a alta classe carioca, também eram executadas e apreciadas no interior do interior, onde as ruas não têm nome, barro batido e poeira, lá estávamos eu e meu avô. A música tem esse poder, igualar classes, sem distinção, sem rótulos e preconceitos. Quando se percebe que essa é a essência da música, as notas, harmonias e compassos ficam simplificados, por mais complexos que possam parecer. Hoje canto e levo minha arte onde me chamarem, da mais casa suntuosa, ao boteco do João. Você pode me achar em qualquer um desses ambientes, representando a arte e os ensinamentos do Maestro Santana.

2 – Nascido no interior do Rio, com 12 anos você foi morar na capital. Foi nessa época que iniciou os estudos na área musical, terminando esse ciclo na universidade. Quais foram as portas que a escola lhe abriu?

Acredito que quem ama a arte sempre vai querer aprender mais, se aprimorar mais. Quem trabalha com literatura vai querer ler mais, quem trabalha com interpretação vai ter enormes galerias de filmes, pilhas e pilhas de ingressos de grandes espetáculos. No mundo da música, para se ter sucesso, você não pode agir diferente disso. O aprimoramento constante é a fórmula para o sucesso, e claro, muita, mais muita sorte. No fundo, o que te faz abrir portas é uma somatória de várias coisas, ficando difícil dizer exatamente qual dessas foi a responsável por um sucesso, ou uma porta que se abre. Mas, com toda certeza, o estudo é a base para se conquistar qualquer coisa nesse mundo, principalmente em uma área tão competitiva como a da música.

ERNANI - Crédito Jéssica M. G. Rodrigues

3 – Em 2005 você foi finalista no Programa Raul Gil, um projeto musical de imensa projeção nacional e que alavancou a carreira de muitos cantores. Na sua trajetória, existe o antes e o depois do Programa?

Olha Xandy, se eu falar que não mudou minha trajetória musical eu estarei mentindo. Nos cinco primeiros anos pós Programa Raul Gil, viajei o país cantando, dando workshops, entrevistas, participando de grandes eventos. Porém, depois desse tempo as coisas foram se acomodando, e fui cavando meus espaços, a ponto de que hoje, 15 anos depois, eu consegui não ser mais visto como um calouro (não que isso seja um demérito, muito pelo contrário), mais sim como um músico com um trabalho sólido e amadurecido. E acho que, no fundo, é isso que se espera de um artista.  Quero voltar ao programa Raul Gil, mas dessa vez lançando uma de minhas músicas. 

4 – É verdade que você ia pra beira da rodovia em São João de Meriti no intuito de pegar carona e não faltar às gravações, e isso até virou notícia no próprio Programa Raul Gil?

Sim verdade (risos). Loucura né? Vida de artista no Brasil não é fácil, ainda mais naquela época com 21 anos. Larguei emprego, larguei tudo para viver esse sonho. Fui despejado de três casas. As senhorias me viam cantando na TV e achavam que eu estava rico (risos). Mal sabiam que eu ia de carona de caminhão, e que não recebia cachê pela participação. Ficava na beira da Via Dutra próximo a um posto de abastecimento de caminhões em São João de Meriti, e ia de caminhão em caminhão pedir carona. Até comida pagavam pra mim na estrada. Porém, com uma condição: o carona não podia dormir (risos). A ideia de quem dá carona é ter alguém pra conversar e eu sempre me preocupava em poder retribuir com uma boa conversa e, claro, de olhos abertos. Era a madrugada toda conversando e sem dormir, e no dia seguinte tinha que estar cantando plenamente no palco. Quem está em casa muita das vezes não sabe o quanto nos doamos para mostrar nossa arte.

5 – Certa vez, numa dessas caronas, o motorista que lhe ajudou se deparou com uma surpresa ao chegar à empresa e o vir na TV, e tendo vários fãs que eram companheiros dele no departamento. O que isso mudou na sua e na vida desse motorista?

Sim, esse caso foi muito engraçado. Lembro-me do nome dele até hoje (Claudio). Depois de pegar carona com ele em três momentos, passamos a ficar amigos, e como ele tinha um filho da minha idade, ele se preocupava em me deixar na beira da pista, próximo à rodoviária do Tietê, pois sabia que às 03 da manhã não tinha condução para Barra Funda. Então, nessa última vez ele me pediu um contato telefônico, pois queria saber se cheguei bem. Lamentou também o fato de não poder me levar até o destino final, pois se o patrão soubesse da carona e visse a mudança da rota ele seria demitido. No sábado, lá estava eu assistindo ao programa (era gravado), então meu telefone toca: Uma mulher aos gritos “É ele, meu Deus, é ele”! (risos). Confesso que fiquei bem assustado. “É ele quem? O que eu fiz?” (risos). Ela passou para o esposo que logo se identificou. Eles eram os donos da frota de caminhão. Resumo: o Claudio entrou no escritório para pegar uma nota fiscal para saída do caminhão e, quando foi se dirigir aos patrões, eles logo pediram que ele esperasse, pois iria cantar o candidato favorito deles. E para a surpresa do Claudio, quem era esse candidato? Ele não perdeu a oportunidade, e desde então a frota de caminhões ficou à minha disposição, me buscando e me deixando no destino final. Nunca mais dormi no banco da rodoviária do Tietê (risos).

6 – “Todo artista tem que ir onde o povo está”. Este é um legado do Milton Nascimento que você segue à risca. Ou seja, se apresenta em grandes casas, mas também está nos bares, clubes, restaurantes. O quão isso te engrandeceu como artista e pessoa?

Na verdade continua a engrandecer, pois é algo que, mesmo depois de tantos anos de carreira, eu sigo fazendo. Eu gosto de cantar, gosto de gente, de público. O dinheiro tem sua importância (precisamos pagar as contas), mas confesso que, para o verdadeiro artista, ele é algo secundário, é algo que vem depois. Já saí de apresentações que me deram um êxtase tão grande, que fui embora pra casa e me esqueci de receber o cachê.  O palco, o microfone, a plateia, seja ela onde for, faz parte do espetáculo. O prêmio é viver aquele momento único, onde pessoas se deslocam, seja do Leblon, seja de São João de Meriti, seja da Ilha do Governador e vão ao encontro da sua arte. Esse é o legado de grandes artistas como Milton, como Oswaldo Montenegro, Caetano e por aí vai. Em tempo: “Até a estrada de terra na boleia de caminhão!”

ERNANI - Crédito Jéssica M. G. Rodrigues

7 – Tive a oportunidade de conhecer seu trabalho, e percebo as nuances de repertório, tanto na canção “Amanhã”, como em “Se eu tivesse asas” e “Aquarela dos Sonhos”. Como se dá esse passeio pelos ritmos?

Quero fazer um trabalho que tenha a cara do Brasil. Sempre pertenci e fui muito bem quisto em muitas tribos, do gospel ao samba, do rock a bossa, do forró ao jazz. O músico tem dessas coisas, geralmente são pessoas que transitam muito bem em todo canto. E como fui criado e forjado musicalmente em meio a essa diversidade, da orquestra fui direto ao samba e ao funk da baixada, sempre flertando com a MPB, o Forró, o Rock, como não amar essa riqueza? Como escolher apenas uma? Ia doer demais, então decidi deixar o meu público escolher. Esse ano, em meio à pandemia, eu estou lançando quatro singles: “Se Eu Tivesse Asas” (que é um forró), “Amanhã” (Rock), “Aquarela de Sonhos” (MPB Clássica), e “Outra Vez Nós Dois” (Balada Romântica). Tenho praticamente um repertório (Pré-Produzido) para cada estilo. O seguimento que tiver um maior engajamento do público será o caminho para o meu próximo EP. 

8 – Por falar em ritmo, notei que a percussão, o teclado da sanfona e o dedilhar do violão também formam essa diversidade nas trilhas interpretadas por você. A escola o ajudou nessa facilidade em cantar tendo como pano de fundo esses acordes tão ricos?

Eu gosto de compor já pensando no arranjo e nas harmonias. Depois vou distribuindo aos músicos mais que competentes, que dão todo suporte para o meu trabalho. São eles: Wescley Rodrigues, Robinho Barreto e Deny Alves (essa trinca é fera demais). São os caras que pegam minhas loucuras rítmicas, harmônicas, cheias de variações, e colocam debaixo do dedo. Confesso que sou chato demais nas minhas produções, muito detalhista, me envolvo em tudo, desde as escolhas iniciais dos timbres, mixagem, masterização, a capa dos trabalhos, em tudo estou junto e criando, mas eles são incansáveis e pacientes (para trabalhar comigo tem que ser), (risos).

9 – Quando você olha pra trás e a memória emotiva explode em imagens como as caronas à beira da Dutra, e essa agulha da vida vem costurando de forma harmoniosa até o videoclipe de “Aquarela dos Sonhos” (que sai agora em dezembro e é presente da equipe que trabalha com o maravilhoso Oswaldo Montenegro), o que permanece como aprendizado?

O maior aprendizado que tive até aqui, é que você tem que ser o seu maior investidor, você não pode desistir daquilo que acredita em nenhum momento. Ao longo da vida, muitas pessoas vão passar pela sua caminhada, vão lhe ajudar, lhe estender a mão. Seja sempre grato! Porém, entenda que se o resultado não sair dentro de um tempo razoável, essas pessoas seguirão, passarão por você, por mais generosas que sejam, elas também possuem suas ocupações e seus próprios sonhos para batalhar. Então, se tem alguém que nunca pode desistir ou desanimar, esse alguém é você. Se você que idealiza, que sonha, não for o principal investidor desse sonho, como convencer as pessoas de que elas podem te ajudar nessa caminhada? Então, com esse pensamento que começou aprendendo com meu avô, passei pelo Raul Gil, por muitos palcos nos mais diversos estados do país, e agora por último minha história chega até o Diretor Diego Villas Boas (que desenvolve um trabalho maravilhoso com o cantor Oswaldo Montenegro). Ele, então, resolveu me presentear com a superprodução desse clipe belíssimo que será lançado na primeira semana de Janeiro. Esse clipe conta a história de um menino que sonhava em ser músico, e de uma menina que tinha o sonho de se tornar bailarina, e no desenrolar da vida, vão superando os obstáculos. Tem a participação do ator Global Miguel Barberan, da Iasmin de Almeida, Davi, Márgara e Elilson Galeno. E finalizando esse processo em que “acreditar em você faz com que as portas se abram”, eu estou aqui dando essa entrevista a convite do meu amigo Luís Villarino que, ouvindo minha história, resolveu publicar em sua revista. Quem sabe algum cineasta lê e vira filme (risos). O céu é o limite para quem acredita. Obrigado Xandy pela entrevista, e muito obrigado a você leitor da Revista do Villa que dedicou seu tempo para conhecer um pouco de minha história. Saudações musicais a todos!

Crédito Site do Programa Raul Gil www.raulgil.com.br
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