Xandy Novaski entrevista o escritor e jornalista político Helder Caldeira

Helder Caldeira - Crédito Divulgação

HELDER CALDEIRA nem bem lançou seu novo romance “(QUASE) BORBOLETA” e o livro já é um dos mais comentados nas redes sociais. Escritor e Jornalista Político, ele ainda encontra tempo e inspiração para estudar Direito, Investigação Forense e Perícia Criminal.

Conheça um pouco mais da sua trajetória no mundo literário e saiba como foi o processo de ambientação não só do novo livro, mas também de outro romance instigante e muito aclamado do autor: “ÁGUAS TURVAS”, uma obra que assinala seu talento e vocação para a escrita criativa e ecoa com maestria na internet e nas melhores prateleiras!

1) Inicio a nossa entrevista apontando seu novo livro “(Quase) Borboleta”. Assim como em “Águas Turvas” (seu primeiro romance), você nos presenteia com a representatividade homoafetiva. Contudo, as costuras da trama vão além do preconceito e dogmas religiosos, ou seja, o romance também tem como pano de fundo as Fake News, a perseguição da imprensa e o poder do Estado. O que te inspirou a inserir assuntos da política pública batendo de frente com o amor?

Eu acredito que estamos vivendo o pior cenário da explosão horizontal da informação que a internet vem promovendo desde o final dos anos 1990. Nessas duas décadas houve, sobretudo, uma inflexão no que seja o Jornalismo profissional, que vem perdendo paulatinamente o papel de detentor da notícia. Tenho convicção de que vários fatores influenciaram nesse esfarelamento, digamos assim, mas o mais emblemático é a perda da credibilidade. Os grandes veículos, que deveriam exercer o papel de fonte para checagem, perderam essa função quando escolheram manter seus princípios editoriais conduzidos por ideologias, mas fingindo isenção. Não vejo problema em um veículo de comunicação ter uma preferência ou tendência ideológica. O problema — grave! — é mentir que suas páginas e câmeras são isentas. As redes sociais apenas potencializaram a exposição dessa mentira e, ato contínuo, criaram novos caminhos para comunicar a notícia. Fake news sempre existiram! O drama deste nosso tempo é justamente como esses novos meios de comunicação tratam a informação e onde é possível checá-la com segurança. Acabamos embarcando numa jornada mais brutal do que arena de vale-tudo. Porque até no vale-tudo há regras e há uma ética. E foi exatamente essa ausência de regras, de ética e de escrúpulos que me inspirou na construção do tema no romance: o impacto perverso que esses novos caminhos da notícia podem causar no cotidiano de toda e qualquer pessoa. Basta que você se torne o alvo.

Helder Caldeira - Crédito Divulgação

2) Aliás, por falar nos temas acima que resultam em tamanha exclusão, há pouco vimos na TV (Big Brother Brasil) a palavra em negrito transbordar como sentimento principal em alguns participantes. Tal cancelamento, ou seja, esse espelho do que vimos lá e também vemos nas ruas é reflexo da política exclusiva que deseja o protagonismo ou já é parte da cultura da nossa sociedade como um todo?

Como te disse na resposta anterior, não se trata de um conceito com ideologia única, estacionado em um polo sociopolítico. Tornou-se um “jeito de ser” espraiado por toda sociedade. Um caminho errático que está criando profundas raízes culturais. Basta observar o que está acontecendo nesta 21ª edição do Big Brother Brasil. Veja, são duas décadas de experiência na condução desse jogo de convivência e acredito que a produção do programa escolheu, propositalmente, perfis muito específicos que são capazes de desmontar, no pior sentido, discursos que vinham se consolidando na sociedade. Assim como derreteu a máscara de isenção dos grandes veículos de comunicação, agora estamos trilhando o caminho da desconstrução do sentimento, um tanto quanto onírico, de que não existem pessoas de caráter questionável e má índole entre os notáveis dos movimentos sociais. Sim, há pessoas que são oportunistas e canalhas em todo lugar! Há gente mau-caráter que faz uso de pautas relevantíssimas apenas para saciar uma sede egoísta, sua vaidade desmesurada. O impacto desse reconhecimento exposto por um reality show tem o mesmo potencial das fake news, pois tem o condão de provocar a equivocada generalização de comportamentos, maculando lutas sociais importantes exatamente quando estas se tornaram alvo preferencial de um governo racista, misógino, homofóbico e supremacista. Com sinceridade, acho que essa edição do programa da Rede Globo tornou-se um imenso desserviço. Cruel e, sobretudo, perverso.

3) A representatividade Trans vem ganhando espaço no cinema e na televisão. Contudo, ainda é tímida nos livros. Em “(Quase) Borboleta” há uma mulher transgênero que se torna decisiva nos rumos da trama. Quem é a CheTilly no livro e o que sua força acarretaria na nossa sociedade caso ultrapassasse a fronteira da ficção?

CheTilly não é a “(quase) borboleta”. Ela é a borboleta inteira! É o elemento de beleza que dá liga ao conjunto de histórias que integram o livro. E veja: ela não traz consigo uma bandeira ideológica ou veste-se de heroína. É exatamente a profundidade de ser humano da CheTilly que transcende a qualquer estereótipo. Personagens estereotipados sempre me incomodaram, seja na Literatura, na TV, no Teatro ou no Cinema. Eu compreendo o significado das grandes alegorias como instrumento de transmissão e consolidação de ideias. Mas, sempre achei que elas desumanizam as personagens. Como escritor, gosto exatamente de as humanizar. Note bem, CheTilly, quando quer — e só quando ela quer! —, veste suas grandes alegorias e interpreta personagens. Mas, seu verdadeiro elã está na “vida real”, digamos assim. São exatamente as dores e os prazeres da “vida real” da CheTilly que fazem dela uma grande protagonista.

Capa do livro “(Quase) Borboleta” - Crédito Editora Quatro Cantos

4) Você é jornalista político e é referência no que se refere às veredas governamentais brasileiras. Entretanto, seu novo romance é ambientado em Vancouver, onde a administração pública tende a fugir muito do que vivemos por aqui. Como foi essa construção de narrativa de uma rotina política tão distante da nossa? Em “Águas Turvas” a ambientação do romance se deu numa localidade da qual você só conheceu pessoalmente depois do livro pronto e fazendo sucesso. Contudo, cada canto citado na obra é tão perfeito que nos dá a nítida impressão de que você transitava há anos por cada cantinho da cidade. Como alcançar tamanha precisão nessa carpintaria? 

Quando eu era criança e me perguntavam o que eu gostaria de ser quando crescesse, minha resposta sempre estava na ponta da língua: diplomata. Naquela época, eu acreditava que ser diplomata significava ter um vasto conhecimento do mundo. Era o que eu desejava. Ainda existe em mim esse desejo pueril. Ocorre que, como escritor, ao contar uma história, tenho essa possibilidade e é uma jornada vital e maravilhosamente irremediável. Antes de escrever, faço um estudo profundo do cenário. No caso de “(Quase) Borboleta”, essa “locação” é Vancouver, no Canadá. Fui estudar como era a administração da cidade e da Colúmbia Britânica, como é seu sistema jurídico e as leis de regência, como funciona sua infraestrutura de saúde, educação e lazer, dentre outras coisas. Mergulho na História da cidade. A partir daí, uso a tecnologia de realidade virtual para reconhecer esse cenário, andar por suas ruas, observar a arquitetura, o perfil dos bairros, entre outros detalhes. Quando vou escrever, de fato, já estou ambientado ao cenário e isso é fundamental para o meu estilo de Literatura. É o meu método. Em “Águas Turvas”, o cenário foi Holden, em Massachusetts (EUA), e usei os mesmos expedientes. Você não imagina o quão grato eu sou à tecnologia. Ela colocou o mundo dentro de óculos!

5) Além do Direito, você estuda Investigação Forense e Perícia Criminal. Em que momento a carreira na área criminal e o escritor se fundem?

Como disse anteriormente, o conhecimento mais profundo é vital para minha inspiração. Não digo no sentido de inspiração apenas para escrever. Para tudo na minha vida. O Direito é um amor de juventude que só agora consegui realizar. Já a área de Investigação e Perícia, com foco no comportamento, no profiling criminal, para além de complementar os estudos jurídicos, enriquece e transforma meu olhar. Não por acaso, o próximo romance está sedimentado nessa plataforma criminal, um lugar da Literatura que sempre me fascinou. Em “(Quase) Borboleta” há um spin-off desse próximo livro.

Helder Caldeira - Crédito Tiago Silva  

6) Quando pensamos em Brasil e criminalidade, logo entra a impunidade como personagem protagonista dessa trama. Conforme dados do Conselho Nacional de Justiça, apenas entre 5% e 8% dos crimes em nosso país têm um final regado a soluções. Por que um número tão baixo?

A taxa vexatória brasileira na solução de crimes é resultado direto e inescapável da impunidade como pilar da nossa engenharia social. Ao longo dos séculos, as classes dominantes no Brasil investiram maciçamente nos modelos que impedem uma legítima punição. Para os velhos coronéis — tão vivos até hoje! —, lei é aquilo que os beneficia e punibilidade é chicote no lombo daqueles que os contrariam. É assim até hoje! Não evoluímos. Veja o exemplo da Operação Lava-Jato. Durante cinco anos, sua força-tarefa expôs ao mundo as vísceras putrefatas da política brasileira. Havia uma estratégia traçada entre o então juiz Sérgio Moro e os promotores do Ministério Público? Com certeza! Uma operação de tamanha envergadura e que atacou o ponto nevrálgico da corrupção jamais existiria sem uma estratégia muito bem planejada e executada. A grande questão é que parte expressiva da população brasileira gosta de ter políticos de estimação. Ontem foi o Lula, hoje é o Bolsonaro, siameses de nossa pior e mais dramática realidade. Para tentar extinguir a possibilidade de punição contra Lula, hoje as instituições estão destruindo toda a Operação Lava-Jato. É impressionante, porque durante a vigência da operação, não vi inocentes sendo presos. É inacreditável! E veja: Bolsonaro e sua chaga narcísica são o fio condutor da volta ao poder das figuras mais escatológicas da política brasileira, num “grande acordo nacional” — “com Supremo, como tudo!”, como disse um ex-senador amedrontado pela Lava-Jato —, que agora tenta deslegitimar a maior jornada anticorrupção de nossa História. Quando ouço ministros do STF, alimentados com arroz de pato regado a vinhos premiados envelhecidos em barris de carvalho francês, criticarem ferozmente as conversas entre um juiz e partes processuais, fico imaginando quantos advogados, no mundo, frequentam gabinetes de Suprema Corte trajando bermudas floridas de praia. Ou seja, em resumo, o que se faz hoje nada mais é do que velhos coronéis retomando seus chicotes e o poder de dizer o que é certo e o que é errado, sendo certo que eles precisam continuar impunes. É o retrato de um Brasil que não consegue evoluir e continua atolado na lama.

7) Você e seu marido Tiago amam pets. Tanto que são parte da família duas gatas (Sorte e Maracutaia) e um cão (Google). Quais foram os motivos para nomes tão peculiares e únicos?

Sendo muito sincero, não há um motivo específico. Quando a Sorte surgiu em nossas vidas — e não sabemos de onde ela veio, simplesmente apareceu, aquela bolinha de pelos embaixo da nossa janela —, olhei para ela e perguntei ao Tiago: “Ela vai se chamar Sorte ou Fortuna?” Ele prontamente respondeu: “Sorte!” E assim foi. Já o Google foi um presente de Natal do Tiago. Com absoluta certeza, o melhor presente que já ganhei na vida. Google é parte da minha existência e é um amor incondicional de ambas as partes. Foi como a Sorte: olhei para aquele filhote lindo e disse: “Ele tem cara de Google!” Ficou! Já a Maracutaia tem uma história mais dramática. Ela já era adulta quando apareceu no portão da nossa casa, em Cuiabá. Muito machucada, com um olho perfurado, dentes quebrados e com muita fome. Foi imediatamente acolhida e hoje é uma princesa linda e autoritária (risos). Manda em todos aqui! Nós a adotamos exatamente no dia do impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Escapou de ser “Dilma” porque nossa vizinha tem o mesmo nome e ficaria muito estranho! Daí, durante aquela noite, assistindo aos telejornais, Tiago falou: “Que maracutaia isso aí!” E eu: “Pronto! O nome da gatinha será Maracutaia, símbolo de um tempo!”. Ou seja, só têm gente doida nessa casa!!! 

Para comprar o romance “(Quase) Borboleta”, acesse o site da Editora Quatro Cantos:

https://editoraquatrocantos.lojaintegrada.com.br/quase-borboleta

No site é possível comprar ainda o primeiro livro do autor, “Águas Turvas”.

“(Quase) Borboleta” também está disponível no site da Amazon, além das livrarias e principais lojas de varejo: Magazine Luiza, Americanas, Submarino, Extra, Carrefour, Shoptime, dentre outras.

Helder Caldeira - Crédito Tiago Silva  
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20 Comentários

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