Douglas Delmar entrevista a fadista portuguesa Cassandra Cunha

Cassandra Cunha - Crédito Arquivo Pessoal

Cassandra Miranda P. Cunha é natural de Trás-os-Montes e Alto Douro, e cresceu em Santa Marta de Penaguião. Além de cantar, é formada em Farmácia. Define a si mesma como uma apaixonada pelas artes, e não tardou para que o Fado começasse a fazer parte de sua vida. Confira nessa entrevista um pouco da sua trajetória artística e profissional!

1 – O Fado é um estilo musical muito prestigiado em Portugal e também em outros países. Partindo disso, conte-nos: como surgiu a sua paixão pelo Fado? Teve algum incentivo para começar a cantá-lo? 

Quem é português nasce com o fado intrínseco na sua alma. Já nascemos fado. Na verdade, eu sempre gostei, mas não cantava fado por instinto. Cantava outros estilos musicais que eram no fundo o que ouvia mais no meu dia-a-dia. O incentivo começou um pouco através da minha mãe. Lembro-me de a ouvir cantarolar algumas quadras que eu desconhecia e alguma coisa despertava em mim um interesse de me conectar àqueles versos tão intensos. Quando eu perguntava “de quem é a música, mãe?” ela relembrava a minha avó que adorava cantar fado e pelo que dizem, cantava muitíssimo bem! 

Aí nesse instante eu gostava de pesquisar sobre a música, o compositor e o fadista que a interpretava. Gostava de escrever a letra, sonhava acordada e imaginava-me a cantar com a minha avó. Por instantes sentia-me perto dela, sentia que partilhávamos o mesmo tempo, a mesma dor, o mesmo fado. Passa-se isto com várias músicas…. 

Eu viajo no tempo e no espaço e essa é a magia da música, que nos leva para um momento fora do tempo em que podemos ser e estar onde, quando e como quisermos.

A primeira vez que cantei foi na minha terrinha, em Santa Marta de Penaguião, numa noite organizada por fadistas amadores, no fundo para trazer o fado até à população. Foi nessa noite que criei um grande laço com os músicos com quem tive o gosto de cantar os meus primeiros dois fados. Desde então, mantivemos o contacto e ambos têm me acompanhado neste meu sonho, pois no fundo são as pessoas mais próximas que tenho de mim ligadas ao fado e, estiveram presentes desde o início, que foi há sensivelmente um ano. O pouco que aprendi sobre o fado, tem sido junto deles.

2) Você participa do concurso nacional “EDP Tanto Fado” junto com outras fadistas e atualmente é uma das finalistas. Como foi fazer parte dessa seleção? E qual é a sensação de estar ali no palco, cantando e sendo avaliada? 

Bem, o concurso “EDP Tanto Fado” foi dos primeiros grandes impactos que tive com a música.

Foi tudo muito rápido. Surgiu a oportunidade e teria que enviar alguns vídeos a cantar e eu não tinha nada gravado! 

Então, pedi ajuda a amigos, pedi também à câmara municipal para cedência do auditório e gravei alguns fados.

A gravação dos fados para o concurso, foi das primeiras vezes que cantei ao microfone e que ouvi realmente a gravação da minha voz. Não estava familiarizada com toda a componente técnica e não iriamos ter oportunidade de voltar a gravar. Então, confesso que na altura senti-me um pouco impotente e insatisfeita com a minha prestação. Sou perfeccionista e mesmo ensaiando, existe, ainda hoje, muito trabalho e descoberta a fazer.

A experiência tem sido uma aventura muito enriquecedora e realmente valeu a pena! 

Já dizia Maria da Fé! Sermos avaliados é sempre um momento de grande responsabilidade e no fundo, ainda estou na descoberta de um mundo em que quero trabalhar e ser melhor todos dias.

3) Você teve que tomar cuidados para não prejudicar a voz? Quais?

Comecei por me inscrever em aulas de canto e descobri as atrocidades ingénuas que fazemos com a nossa voz (risos). 

Devemos manter sempre a nossa garganta hidratada, já era um hábito que eu tinha. Eu adoro conversar e falo muito, contudo o descanso da voz também é algo muito importante que temos que ter em conta. O facto de dar aulas na universidade, associado ao uso da máscara e os ensaios em casa, fazem com que no final do dia me sinta bastante cansada das cordas vocais. Foi algo com que tive que aprender a lidar e a trabalhar. Tenho feito exercícios de compensação para neutralizar os danos. No fundo, o segredo é a hidratação, o descanso e os exercícios de respiração.

Cassandra Cunha em apresentação - Crédito Arquivo Pessoal

4) Além de cantora, você também é licenciada em Farmácia. O que a levou a seguir essa área? E como é dividir seus dias entre a música e a ciência? Pois, são atividades bem distintas. 

Eu sempre gostei de cuidar, de curar e de apoiar as pessoas. Sempre fui muito ligada às plantas, à cosmética natural e desenvolvi um especial gosto em medicinas alternativas. Farmácia era o curso que me permitia ter essa amplitude de conhecimento. 

Eu estive muito indecisa, adorava aprender línguas, adorava estudar português e escrever poesia. Era uma paixão analisar poesia e tentar explicar as coisas. Sempre tive um fascínio por tentar compreender a mente e a emoção do homem, a nossa forma de agir, de pensar e de sentir. Adorava cantar, dançar, fazer teatro e pintar. Não sabia muito bem qual o passo dar porque no fundo não sabia qual era a minha missão no mundo. Acho que todos passamos um pouco por esta fase. 

Eu “tenho em mim todos os sonhos do mundo”, já dizia Fernando Pessoa, e sim, eu tenho em mim muitos sonhos e sempre fui muito sonhadora, talvez um pouco ingénua, ou talvez não, por acreditar que todos eles são possíveis de realizar. 

Quando entrei para a faculdade, parei um bocadinho de evoluir este meu lado criativo, quis concentrar-me num só caminho, para no fundo não me sentir perdida como outrora. 

Tinha que tomar decisões e na altura, pensei que era a mais sensata, então acabei por deixar as aulas de dança e forcei-me a entrar numa realidade mais madura.

Adoro cantar e partilhar emoções, mas também gosto muito do mundo da descoberta da ciência, da partilha de conhecimento. Tive sempre equipes fantásticas e pessoas maravilhosas que estão até hoje nos meus dias e que me inspiram diariamente, tanto num mundo como noutro. 

Em ambos, sinto-me apoiada e amada. Tive a evolução académica como prioridade durante alguns anos, evoluindo a cada dia. Após a conclusão do curso, senti alguma estabilidade nesta área, mas sentia que faltava algo. Resolvi então definir outra prioridade, nunca descorando do curso e do mestrado, que está em desenvolvimento, resolvi focar-me na minha evolução artística e espiritual.

Dividir os meus dias, não é tarefa fácil porque é necessário organizar muito bem o nosso tempo e ambos exigem muita concentração de forma completamente distinta. A criatividade e o relaxamento, o deixar fluir talvez seja o mais importante para conseguir conciliar estes dois mundos. Eu amo cantar e vejo-me a fazer isto para sempre. A ciência dá-me o foco e a recolha que por vezes necessito para fluir e para me organizar. Trabalhar a expansão e a introspeção em cada um dos meus mundos encontrando-me nas coisas que faço. 

Tenho consciência que fazer muitas coisas por vezes priva-nos de mostrar a nossa melhor versão. Contudo, eu sou assim mesmo, sou feliz e estou, como todos nós, na descoberta da vida.

5) Portugal é o berço de grandiosos e grandiosas fadistas, que contribuíram para que o legado musical do Fado perdure até os dias de hoje. Há algum artista que você admire e use como inspiração? 

As minhas maiores inspirações foram aquelas que passaram primeiro pelo meu coração, é como o primeiro amor, nunca se esquece. 

Amália Rodrigues é a minha maior inspiração. Adoro a sua verdade. A transparência com que canta. A emoção que coloca em cada verso. Uma mulher inteligente e corajosa, que adoraria ter conhecido. 

Depois, tenho inúmeros artistas que me inspiram todos os dias. 

Adoro Fernanda Maria e Carlos Ramos. Adoro a voz da Ana Moura e a destreza da Carminho. A Mariza é toda ela tecida de genuinidade. A Sara Correia tem um poder imenso na voz que está a conquistar os meus dias. No fundo, encontro um pouco de mim em cada um deles.

Cassandra Cunha - Crédito Arquivo Pessoal

6) Para muitos, o ato de cantar proporciona uma sensação de liberdade, uma forma de dar voz ao coração. E qual é a importância da música em sua vida? 

A música é o caminho mais direto ao que de melhor existe em mim. Na música tenho conforto, tenho foco, na música eu encontro-me. Eu sinto me livre. Sou eu mesma quando me entrego de corpo e alma a cada palavra, a cada batida, a cada sensação. Tanto a cantar como a dançar. 

Na entrega sensata de ser, é que me encontro. Por um momento sou inteira, sou forte e ao mesmo tempo sou eu, só eu, transparente. Sem armaduras, nem defesas, num mundo paralelo onde tudo é emoção.

7) E quais são seus Fados preferidos? 

Fado Loucura, da Mariza.

Cansaço e Estranha Forma de Vida de Amália Rodrigues.

A Voz, da Carminho, com a letra do incrível Diogo Clemente.

8) Além da música, quais outras áreas da arte você aprecia? 

Dançar, pintar, fotografar e escrever. Gosto de escrever poesia. Relativamente à dança, tenho um gosto especial por tribal fusion e dança contemporânea. Adoro fotografia, principalmente retrato a preto e branco. E pintar, adoro desenhos abstratos e também gosto muito de fazer retrato!

9) Quais são seus sonhos para o futuro? Pretende lançar um álbum de Fados? 

Pretendo lançar um álbum de mim, para o mundo, em que me reconheça a cada verso.

Algo compreensível, genuíno e mágico.

10) Cassandra Cunha, muito obrigado por compartilhar com a Revista do Villa um pouco da sua trajetória artística! Desejamos muito sucesso e realizações em sua caminhada. E para finalizarmos, deixe uma mensagem a todos que estão nos lendo.

Quero agradecer pelo nosso caminho se ter cruzado 🙂
Agradeçam a partilha da vida e as experiências que cheguem até vocês. Tenham bondade, gratidão e benevolência no coração. Lutem por aquilo que querem ser e sigam o caminho que vos traz mais conforto ao coração. Cada um ao seu ritmo, cada qual com a sua magia, a vida é a estrada 🙂 

Em frente!

Abraço. 

Cassandra Cunha, muito obrigado por compartilhar com a Revista do Villa um pouco da sua história de vida! Desejamos muito sucesso e realizações em sua caminhada. 

Cassandra Cunha - Crédito Arquivo Pessoal
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10 Comentários

  • Adorei esta entrevista. É realmente uma menina com um grande talento e muito dedica a tudo que faz.. Beijinhos cassandra. Adoro te…

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  • Parabéns cassandra,
    gostei de te ver, beijinhos de França.

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