Kênia Esteves entrevista Adriana Rocha, a criadora do Selo Orgânico no extremo sul da Bahia

Olá amigos. Ao continuar a navegar pelo universo do lifestyle saudável, que o Extremo Sul da Bahia nos convida a desenvolver em nossas vidas, trouxe  hoje para minha coluna nessa revista que “acontece” na maior parte dos continentes de nosso universo, ADRIANA ROCHA. Vinda do SUL, esta mulher que é pura… ESSÊNCIA, criou em nossas região o SELO ORGÂNICO, que fideliza agricultores e estabelecimentos que trabalham com essa proposta rica em nutrientes e nos traz a cada dia um conceito de bem estar devidamente licenciado e fiscalizado pelos órgãos responsáveis. Que seja bem vinda!

K.E. 1: Adriana, como foi sair do Sul do Brasil; cujo lugar é o oposto do NE em relação a tudo e a todos?

Foi um desafio grande, um recomeço em um local novo, hábitos alimentares diferentes, colegas de trabalho novos, tudo ao mesmo tempo. Senti muito a mudança na alimentação também, pois no Sul alimentos orgânicos tem nas feiras, mercados e lojas de produtos naturais. Aqui não tinha feira orgânica, só tinha alguns legumes orgânicos em um único mercado da cidade, e minha alimentação no Sul era 90% orgânica! Mas as pessoas aqui me encantaram pelo aconchego, a atenção, a disponibilidade em ajudar. Um povo que te recebe de coração aberto.

K.E. 2: Quando foi esse “encanto” pelo Extremo Sul da Bahia? 

Eu já conhecia outras cidades do Nordeste, mas uma amiga que trabalha com turismo sugeriu Porto Seguro em 2014. Eu e meu marido Aristeu a passeio conhecemos Porto Seguro, me apaixonei pela cidade já no segundo dia, pelo clima, pelas pessoas e decretei ao universo na Cidade Histórica que aqui viveria com minha família e onde meus filhos cresceriam. Meu marido no primeiro momento achou estranho, mas no segundo dia concordou com a ideia de vir para cá. Já me sentia nativa, foi amor à primeira vista por Porto Seguro. Então a viagem de férias se transformou na viagem de exploração de nossa futura moradia. Fomos até a Secretaria de Agricultura e perguntei se tinha agricultura orgânica aqui. Me indicaram um agricultor para conversar, este agricultor se chamava Osvaldo Inocêncio dos Santos Filho, tinha interesse em produzir alimentos orgânicos, mas não tinha assistência técnica, nem parcerias. Pensei: “se não tem agricultura Orgânica aqui, então está não hora de começar a ter”!!! 

K.E. 3: Você já trabalhava com orgânicos? 

Sim, eu administrava,  desde 2000, uma cooperativa de produtos orgânicos em Novo Hamburgo no Rio Grande do Sul, Cooperativa Sítio Pé na Terra. Também acompanhava a parte de produção de hortaliças, laticínios, panificação, feiras agroecológicas e a certificação orgânica participativa. Tinha com meu marido uma agroindústria de processamento de alimentos orgânicos, sem glúten e sem lactose que iniciamos em 2013.

K. E. 4: Hoje em dia fala-se muito em produtos orgânicos. Mas vejo que a maioria compra por ser modismo. Portanto explica para nós, o que realmente é um Produto Orgânico.

Um produto orgânico é um alimento livre de aditivos químicos, livre de venenos, um produto saudável, como era na época de nossos avós, um alimento limpo, livre de resíduos químicos.

Na agricultura orgânica não é permitido o uso de substâncias que coloquem em risco a saúde humana e o meio ambiente. Existe o controle na produção e armazenamento dos alimentos até chegar ao nosso prato. Por isto um Selo que identifica e garante que o Produto é orgânico, tem garantia de procedência.

 K.E.5.  Em que consiste o Projeto SELO ORGÂNICO? 

O Projeto Selo Orgânico foi criado na Secretaria de Agricultura de Porto Seguro para incentivar e apoiar as famílias da agricultura familiar a produzirem alimentos saudáveis. E as comunidades indígenas começaram a se interessar e participar também. Ao participar do Projeto o agricultor recebia assistência técnica, cursos, apoio de logística e orientação no preenchimento dos documentos para participar da Rede de Agroecologia Povos da Mata, primeira certificadora participativa orgânica da Bahia. Em 2018 o grupo teve apoio para iniciar as feiras agroecológicas, a primeira foi em Arraial, depois Orla Norte, Praça da Tarifa e Trancoso. 

K.E. 6: A partir de quando e como foi criado?

Em dezembro 2016 tomei a decisão de ligar para o Secretário de Agricultura de Porto Seguro, Aliomar Bittencourt, pessoa que tenho muito carinho, mas agora virou uma estrela que brilha no céu e mora em meu coração. Falei de minha vontade de morar e trabalhar com orgânicos em Porto Seguro e marcamos para conversar em fevereiro. Visitamos assentamentos e associações para ver o interesse dos grupos na agricultura orgânica. Retornei ao Rio Grande do Sul e final de março do mesmo ano, Bittencourt me liga e diz vem!!! Não acreditei, maravilha era o início da mudança para Porto Seguro. No dia 03 de abril de 2017 eu fui contratada para Coordenação e Implantação do Projeto que batizamos com o nome  Projeto Selo Orgânico. Foi um desafio grande, não conhecia a região, os agricultores, mas era um sonho se realizando, tive muito apoio do Secretário Bittencourt e do técnico agrícola Humberto Leão, saíamos pela manhã bem cedinho sem hora para voltar, visitando assentamentos, aldeias indígenas, associações e agricultores. Começamos com 100 famílias, sendo metade agricultores e metade indígenas que aderiram ao Projeto em 2017.

K.E. 7: Conte-nos como está sendo ensinar novas formas de cultivo à população indígena?

É diferente de ensinar, eu diria que é um resgate de cultura,  de como sempre se produziu, livre de insumos químicos. Devido a interferência do turismo, da tecnologia, muito se perdeu. Antes o normal era descascar os alimentos, hoje desembalamos muito e isso interferiu nos costumes de alimentação nas aldeias. Dentro do projeto se descobriu que muitos indígenas não tinham aptidão para agricultura, mas sim para artesanato. É um trabalho de confiança de ambos os lados, respeitando sempre os costumes tradicionais das comunidades indígenas.

K.E.8. E por falar em população indígena, qual a participação da ONG MECENAS da VIDA em seu projeto? 

Nosso Projeto Selo Orgânico cresceu e em 2018 nos tornamos o Núcleo Monte Pascoal  (quarto Núcleo de Certificação Orgânica Participativa da Rede de Agroecologia Povos da Mata) responsável por atender os municípios do Extremo Sul. E quando identificamos a aptidão de muitas comunidades indígenas para o artesanato começamos a buscar parceiros.

A Associação Movimento Mecenas da Vida veio para ajudar no fortalecimento e apoio à agregação de valor no artesanato indígena da Etnia Pataxó e juntamente em  parceria tem como instituição financiadora a Fundação Interamericana. Com este investimento foi possível contratar a designer Gabriela Lisboa. Em dezembro de 2020 foi iniciado o diagnóstico situacional, em fevereiro  deste ano ocorreu uma capacitação de 5 dias para aproveitamento da fibra do tronco da bananeira com 30 indígenas. E com esta parceria do Mecenas da Vida este projeto terá duração de um ano com objetivo de criar coleções com a marca Pataxó.

K.E. 9: Mesmo sem o apoio da atual prefeitura, sei que vocês continuam a desenvolver o Selo Orgânico na região. Quais as localidades  são atendidas pelo Núcleo Monte Pascoal em Porto Seguro?

Aqui em Porto Seguro trabalhamos com agricultores e indígenas de Porto Seguro, Vera Cruz, Trancoso, Arraial, Caraíva, Pé do Monte e Orla Norte.

K.E. 10: É claro que a pergunta final não poderia ser outra. Em que você acredita para obtermos uma mesa mais saudável e acessível a todos? 

Só vamos conseguir tirar o agrotóxico da mesa e da água através da agroecologia.  A produção convencional tem total dependência dos insumos químicos, com a agroecologia o agricultor é incentivado e orientado a produzir seus próprios insumos. Que não prejudicam nem a sua saúde, nem a do nosso planeta e incentiva a produção e comércio local.

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