Douglas Delmar entrevista a poeta portuguesa Conceição Ferreira

Conceição Ferreira com seu livro Sussurros – Arquivo Pessoal 

Nascida em Benguela, na Angola, Conceição Ferreira atualmente vive em Tavira, região algarvia. É licenciada pelo Instituto Técnico Superior em Lisboa e atua como professora de Matemática. Trilhou o caminho da escrita ainda jovem e já tem seu primeiro livro de poesias lançado. 

À noite, quando me deito, 

Encosto os olhos à mente

E cruzo as mãos no peito.

É nesse silêncio dormente

Que abro a minha saudade

E chamo ao tempo presente

O tempo dos livres abraços

O tempo das longas conversas

O tempo dos vastos espaços

O tempo da liberdade…

O tédio das horas do dia

Passou como coisa nenhuma

Saltando as horas, uma a uma,

Para eu, uma a uma, as contar!

Mas por onde ninguém vinha ou ia,

À noite, passam devagar,

Todos aqueles que eu queria.

Conceição Ferreira.

Conceição Ferreira – Arquivo Pessoal

1 – Em que momento a poesia surgiu em sua vida?

A poesia surgiu na minha vida quando era ainda uma jovem adolescente. Foi aí que vi despertar em mim o gosto pela leitura e pela escrita, nomeadamente a poética.

Sempre fui introvertida (ainda hoje sou um pouco) e isso levou-me a transpor para o papel muitos dos meus pensamentos quer sobre o mundo, quer sobre as minhas próprias vivências, emoções e lutas interiores.

2 – A poesia é uma forma de transformar em palavras todas as nuances das emoções humanas. Sendo assim, o que a inspira a escrever? Quais temas gosta de utilizar em seus poemas?

A minha escrita foi atravessando várias fases ao longo do tempo e a minha inspiração acompanhou-a na diversidade.

Para mim a vida é uma viagem pelo mundo e por nós próprios e cumpre-nos saber crescer à luz desses ensinamentos.

Nem tudo é belo, sereno e emocionante no nosso dia a dia, nem tudo é fácil e possível como gostaríamos, mas a atitude é nossa e nossa tem de ser a grandiosa vontade de diluir as sombras e traçar rotas de felicidade interior.

Foi assim que aprendi a louvar a magia da natureza, a vida, o amor, a paz interior, a fé e a esperança. São estes os temas que me inspiram na escrita.

3 – Você nasceu em Benguela, Angola, mas atualmente vive em Portugal. Conte-nos um pouco sobre sua vida em Benguela. E quais as diferenças que você viu entre os dois países?

Nasci no continente africano na cidade de Benguela, Angola, e cheguei a Portugal em 1975.

De África, de Benguela ou de tantas outras localidades angolanas por onde residi, tenho as mais belas lembranças e nutro o maior carinho por esse tempo ímpar da minha vida.

Guardo na memória gratas recordações dos momentos felizes da infância e da adolescência passados na imensidão do meu país natal.

Creio que “há sempre sorrisos depois de lágrimas” e, por isso, nunca me detive nas diferenças que encontrei entre os dois países. Elas foram interiorizadas e geridas como dádivas da vida e o início de um outro caminho para o futuro.

4 – Seu primeiro livro de poesia foi ‘Sussurros”, produzido pela editora In-Finita. Conte-nos como foi seu processo de criação poética. E como você se sentiu ao ver seus versos sendo publicados e apreciados por muitos leitores? 

“Sussurros” foi o meu primeiro livro, publicado em 2019 pela In-Finita.

Está impregnado da minha percepção das coisas e das ideias que me bailam no pensamento e organizado em 5 grandes temas: (In)screver; Percepções; Fascínios; Linhas e Figurações.

Conseguir publicá-lo foi muito gratificante e devo à In-Finita a realização desse sonho.

A escrita sempre me acompanhou e me complementou como pessoa, logo a minha satisfação é imensa quando percebo que há leitores que apreciam essa escrita despretensiosa e se identificam com muito do que escrevo.

5 – Falando nisso, tem planos para um próximo livro?

Tenho, neste momento, planos para editar mais dois livros de poesia que já estão terminados e organizados.

Um deles alia duas das minhas grandes paixões, a escrita e a fotografia, numa conjugação da linguagem poética com o meu olhar e sensibilidade.

A pandemia tem sido um obstáculo à realização deste desejo, mas espero poder vir a concretizá-lo brevemente. 

Capa do Livro Sussurros – Arquivo Pessoal

6 – Todo poeta costuma exercer a prática da leitura antes de começar a rabiscar os próprios versos. Partindo disso, há algum escritor/escritora que você admire ou que a inspire?

Posso dizer que sou uma leitora diária. Leio prosa e poesia desde muito jovem.

Sou admiradora de muitos escritores, mas destaco na poesia portuguesa, Fernando Pessoa, Florbela Espanca e Sofia de Mello Breyner Andresen.

7 – Além de escrever, você também dá aulas de Matemática. O que a levou a escolher essa área tão distinta da Literatura?

Eu sou essencialmente professora de Matemática, pois lecciono esta disciplina há mais de 30 anos.

Porque escolhi Matemática? Porque gosto de Matemática e gosto de a ensinar.

A profissão exigente que abracei retirou-me tempo para me dedicar à escrita como desejaria, mas nunca me distanciou dela.

Digo habitualmente aos meus alunos que podemos gostar de Matemática, Geografia, História, Educação Visual e de todas as restantes áreas do saber, mas que há uma que nos deve sempre merecer especial atenção: a nossa língua materna. É essa língua que nos permite falar e escrever sobre o que vemos, sentimos e pensamos.

8 – Sabemos que a educação é o melhor caminho para a formação do ser humano. Você, sendo professora, como faz para incentivar em seus alunos o gosto pelo aprendizado?

Adoro ser professora e adoro poder contribuir para a aprendizagem e formação dos meus alunos. Eles percebem isso.

Eu dou-me inteiramente a esta profissão e estou sempre disponível para lhes transmitir o meu conhecimento com gosto, dedicação, simplicidade e espírito de ajuda.

O meu trabalho com estes adolescentes visa uma formação que ultrapassa a do mero conhecimento científico pois pretende, em simultâneo, contribuir para a sua formação como seres humanos, transmitindo-lhes carinho, atenção, compreensão e noções de respeito, amizade e partilha.

9 – Além da escrita, quais outras atividades você gosta de praticar?

Nos meus tempos livres sou também fotógrafa da mesma natureza que não me canso de admirar. Adoro dar longas caminhadas pelos campos e pelas praias e viajar.

10 – Conceição Ferreira, a Revista do Villa agradece sua participação e por compartilhar um pouco da sua trajetória artística. Desejamos-lhe todo sucesso e realizações em sua caminhada. Para finalizar, deixe uma mensagem aos nossos leitores!

Na vida há sempre algo a que chamamos de “sonho” e, mesmo que o abandonemos em algum momento, nunca devemos desistir de o concretizar porque é do sonho que nasce toda a nossa obra e a nossa força para prosseguir na jornada.

Muito obrigada a todos os leitores da Revista do Villa que leram esta entrevista e muito obrigada ao Douglas Delmar por me ter endereçado o convite para dar a conhecer um pouco de mim e da minha escrita.

A todos, o meu bem hajam.

 

Conceição Ferreira – Arquivo Pessoal
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