Flavio Santos apresenta um pouco da história de Othon Bezerra de Mello

A Cia Fábrica de Tecidos Bezerra de Mello. 1926. Revista da Cidade.

Os primeiros registros públicos sobre Othon Lynch, nascido em 9 de fevereiro de 1880, foram escritos nos jornais antigos do Recife, estado de Pernambuco. Nas notinhas chamadas gazetilhas, de meados da última década do século XIX, os periódicos costumavam divulgar os resultados dos exames das principais escolas das cidades, acompanhados dos desempenhos – plenamente, simplesmente etc. Em um desses registros, o nome do jovem Othon aparece como Aprovado Plenamente no exame de francês do curso anexo à Faculdade de Direito do Recife, em dezembro de 1894.

A Cia Fábrica de Tecidos de Apipucos. 1926. Revista da Cidade.

Aos 25 anos já era comerciante em Recife, com pequena loja de tecidos na antiga rua da Cadeia Velha, atual rua Marquês de Olinda. Natural da cidade de Limoeiro, viajou para Europa a bordo do paquete Amazon, em abril de 1909, para aprimorar seus estudos de idiomas e de comércio, ano no qual já era reconhecido nos jornais como “conceituado comerciante de nossa praça”.

Na época da presidência do Barão de Casa Forte, 1912, foi diretor da Associação Comercial de Pernambuco.

Durante as duas primeiras décadas do século passado participou ativamente das discussões sobre as modificações nas tarifas e taxações federais sobre os gêneros principais de Pernambuco: o açúcar e o algodão.

D. José Per.a Alves, bispo de Niterói, o industrial Horácio Saldanha, Othon Lynch e a esposa D. M.a Amália. Casamento dos filhos. Jornal A Noite. 1946. Acervo BN.

Era filho de Anna Lynch Bezerra de Mello (de ascendência inglesa) e do comerciante João Clementino (em outras fontes, José Clemente) Bezerra de Mello. Casou-se com dona Maria Amália de Araújo Brito, na segunda semana de junho de 1913, fixando residência no bairro de Boa Vista.

Em 1916 Iniciou uma ligeira carreira de político, se candidatando para o cargo de conselheiro municipal, para o qual obteve 2.226 votos, culminando com a eleição para deputado estadual. Foi nesse mesmo ano que se aventurou em um novo ramo de negócios, a hotelaria, fundando o Recife Hotel.

Aspecto Interno de suíte do Hotel Castro Alves. 1948 Revista da Semana. Acervo BN.

A Companhia Brasileira de Novos Hotéis só foi inaugurada em 1943, com sede na rua da Alfândega, n.o 111-A, 4.o andar. Foi inaugurado o Hotel Castro Alves, na avenida N. Sra de Copacabana, n.552, na praça Serzedelo Correia, em março de 1948, sendo o último empreendimento hoteleiro inaugurado pelo próprio sr. Othon. Em outubro do mesmo foi inaugurado o Hotel Olinda, em Copacabana, na avenida Atlântica, n.o 522, considerado o hotel mais moderno da antiga capital federal. Em 1949 a rede era composta pelo Recife Hotel, em Pernambuco, o Hotel São Paulo, na capital paulista, o Aeroporto Hotel e o Hotel Castro Alves, no Rio de Janeiro.

Voltando à década de 20, aparece como grande acionista de empresas como a Companhia de Fiação e Tecidos de Malha da Várzea, em 1920, Em 1924, depois de uma temporada em Londres, começou sua carreira de industrial, comprando a fábrica de tecidos de Apipucos.

Inauguração da Hotel Castro Alves, em Copacabana. Em destaque, Othon Linch, de terno preto e o padre Olímpio de Mello. Revista da Semana. 1948. Acervo BN.

Em 1928 é diretor da Companhia Fábrica de Tecidos Bezerra de Mello,  esta por sua vez foi incorporada pela Fábrica de Tecidos de Apipucos, passando a se chamar Cotonifício Othon Bezerra de Mello, em fevereiro de 1928. O cotonifício era um complexo de 4 plantas industriais em Apipucos e uma no Recife – conhecidas pelo produto “brim de caroá Othon”. Isso dá início à aquisição e incorporação de diversas fábricas de tecidos em Pernambuco, no Rio de Janeiro, Alagoas e Minas Gerais.

O Cotonifício Othon Lynch Bezerra de Mello. 1940. Revista O Malho. Acervo BN.
Propaganda do Hotel Olinda, em Copacabana - Fachada e quartos. Correio da Manhã. 1949. Acervo BN.

Outros empreendimentos foram incorporados ao conglomerado empresarial, a Companhia Açucareira Santo André do Rio Una, a Companhia Pernambucana de Terrenos, a Companhia de Luz e Força Hulha Branca, em Curvelo, Minas Gerais, e a Companhia Predial Trocadero.

Já reconhecido como um dos grandes industriais do Brasil no final da década de 30, Othon foi convocado para a maioria dos conselhos e fóruns de discussões sobre políticas industriais e econômicas do país.

Propaganda do Cia Bras de Novos Hoteis. Correio da Manhã. 1948.Acervo BN.
Othon Lynch Bezerra de Mello. 1928. Revista O Malho. Acervo BN

Foi membro do Conselho Nacional de Política Industrial e Comercial, na época da ditadura de Getúlio Vargas, e do ministro do Trabalho Marcondes Filho. Dentro da Campanha Nacional de Aviação da década de 40, que tinha como entusiasta o poderoso Assis Chateaubriand, Othon Lynch foi um dos particulares que compraram e ofertaram aviões para os aeroclubes do Brasil.

Sua preocupação social se revelou quando ainda era muito jovem, na comissão de moços das festas de caridade da igreja do Senhor do Bonfim de Olinda, em 1906. Foi irmão da Ordem 3.a de São Francisco do Recife, desde o início da década de 20 e vice-presidente da Cruz Vermelha Pernambucana, em 1927.

Othon Lynch, de óculo e bengala no Yach Club Fluminense. Ao fundo o avião Frei Caneca. Jornal Vida Doméstica. 1942. Acervo BN.

No final da vida, sua obra social compreendia 2.800 casas para seus operários, 8 postos médicos e remédios. Três mil crianças frequentavam as escolas construídas pelo grupo empresarial. Estavam construindo 14 salas de aulas em Maceió e Recife, comportando 1.400 crianças e adultos nos cursos diurnos e noturnos. Em Santo Aleixo, estado do Rio, inauguraram um cinema e um restaurante na Fábrica Esther (Fiação e Tecelagem Bezerra de Mello).

Ainda na área beneficente, em 1945, Othon participou da Comissão Patrocinadora da Ação Social Arquidiocesana do Rio de Janeiro, fundada por Dom Jaime de Barros Câmara, Arcebispo Metropolitano do Rio de Janeiro e presidida por Dona Celina Guinle de Paula Machado. Foi o idealizador da Obra do Berço, instituição de amparo maternal, fornecendo o enxoval, alimentação e medicamentos.

Rua da Cadeia Velha. Recife. circa 1880. Foto de Moritz Lamberg. Acervo IMS.

Era considerado pelos seus contemporâneos como homem de cultura elevada e de sensibilidade. Era articulista e comentarista, escrevendo textos para revistas e jornais. Interessado em sociologia, foi o primeiro grande industrial brasileiro a escrever artigos sobre a necessidade da implementação do salário mínimo. Quando jovem foi 2.o secretário do clube carnavalesco Nove e Meia para o biênio 1919-1920. Instituiu e pagou prêmios literários nas diversas academias de letras do Brasil, foi membro do Instituto Arqueológico de Pernambuco, do Dr. Luiz C. Cardoso Ayres em 1927 e do Instituto Histórico e Geográfico Pernambucano.

Prédio sede da firma Othon Bezerra de Mello & Cia. 1926. Revista da Cidade.

Hoje em dia é lembrado, sobretudo e “apenas”, pela rede de hotéis espalhada pelo mundo e certamente deve ser confundido com algum estrangeiro. Filho legítimo do agreste pernambucano, Othon Lynch Bezerra de Mello morreu em 9 de junho de 1949 deixando um conglomerado de empresas e uma vasta obra social.

Sr. Othon com a filha Amalita, no seu casamento. Junho de 1946. Revista Sombra. Acervo BN.
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