Douglas Delmar entrevista a escritora portuguesa Ana Coelho

Ana Coelho - Arquivo Pessoal

Nascida em Huamba, Angola, Ana Coelho adotou Portugal como sua pátria. Leitora voraz desde a infancia, em 2008 começou a exibir na internet os seus trabalhos literários, recebendo boas críticas do público. Com vários livros lançados, Ana se destaca  não só por sua escrita intensa e magistral, mas também por incentivar e realizar projetos que visam valorizar a literatura e apresentar novos autores ao mundo.

Escrevo porque observo o mundo

Numa inquietude constante e libertadora

Ao encontro de tantos olhares e novos sentires!

1) Olá, Ana Coelho. Seja bem-vinda! Para começar, gostaria que nos contasse como o gosto pela escrita surgiu em sua vida. Teve o incentivo de alguém?

Muito obrigada pela vosso trabalho de divulgação da literatura e de me darem a oportunidade de dar a conhecer o meu trabalho nesta área que tanto gosto.

O gosto pela escrita começa sem que eu tenha dado por isso, no gosto pela leitura. Desde muito cedo, sempre li muito. Na adolescência lia muito e muitas vezes livros que nem seriam para a idade. Mas lia, o que havia por perto. 

Desde sempre escrevia, em papéis soltos, que depois rasgava e deitava fora. 

Há cerca de 12 anos, comecei a ter mais contato com os computadores e a internet, como tal os sites que procurava na internet eram o que tanto gosto…ler! 

Encontrei um site chamado “LusoPoemas” onde me inscrevi e andei cerca de 5 meses por lá, apenas a ler e ver…

O meu marido que é um poeta muito bom, sempre me disse que eu escrevia bem. Bem, não sei se tinha razão ou não, mesmo com todo o trabalho que já tenho. E assim, lá perdi o medo e comecei a publicar no referido site. Para meu espanto, muitos se identificavam com o que escrevia. Comecei um caminho nunca imaginado. Um caminho que tem um bom abrigo em mim. 

2) E o que a inspira a escrever seus versos?

O que escrevo é sempre fruto de uma emoção. Algo que vi, enquanto paisagem, ou alguma partilha de sentimentos em conversas, que muitas vezes parecem supérfluas. Sentir a emoção de outro é muitas vezes um impulso a escrever. Também alguns momentos muito meus que ficam no silêncio e se revelam em poemas, como desabafos.

Ana Coelho com seus livros - Arquivo Pessoal

3) Você tem diversos livros lançados, desde poesia ao romance. Fale-nos um pouco sobre seus trabalhos literários.

O meu primeiro livro nasceu em 2010 em parceria com o meu marido. O mesmo tema escrito no masculino e no feminino: “Nuances de um Silêncio a Dois”. Poemas que atravessam a sociedade, as emoções globais e a intimidade dos seres. 

Em seguida o meu livro a solo, “O Tacto das Palavras”. Poesia de momentos muito intrínsecos. No lançamento deste livro a minha filha publicamente pede-me que escreve outro registro. Aqui começa a fervilhar o desafio de sair da zona de conforto e ir em busca de novos registos. Escrevo não um, mas dois romances que editei em conjunto. Escrever romance é algo infinitamente complexo, com um prazer imenso de viver as personagens, de lhes dar vida. 

E o gosto ficou, depois editei mais dois romances, sem nunca deixar a poesia. No total tenho 8 livros editados, muitos outros guardados no bau dos meus registos. Para além deste trabalho da escrita, este caminho trouxe-me o descobrir e aprender mais, fazer os livros enquanto parte gráfica global. 

4) Sua obra mais recente foi o livro “O Ruído das Sombras”, contendo poemas antigos e, foi editada em 2020, em plena pandemia. Esse período influenciou sua escrita de alguma forma? E onde podemos adquirir o livro?

 Este livro; “ O Ruídos das Sombras” nasceu de uma visita aos meus ficheiros. Poemas que nunca tinha divulgado, por os achar muito intimistas. No entanto, em novembro de 2020, ao reler estes trabalhos, pensei que deviam ser lidos” porque afinal os sentimentos são tão comuns a todos nós”. E como escrevi na nota do livro: “na verdade, enquanto choramos dentro de quatro paredes, noutras quatro paredes outros choram por outros ou pelos mesmos motivos”.

Este tempo de pandemia, de recolhimento, deu-me tempo para observar e criar este trabalho. Uma vez que a agenda de eventos ficou suspensa. Os eventos ficaram suspensos, a vida não, a criação literária também não. Este tempo é um novo tempo, e o tempo jamais será igual ao que era. Há que adaptar tudo a este momento e continuar o caminho, sem parar. 

Este livro é uma edição de autor, cujo lançamento foi em janeiro de 2021, em linha, a primeira vez de um lançamento a distância dos olhares por perto. Toda a obra é feita por mim. A Capa é uma pintura da Pintora Edite Melo. Pode ser adquirido enviando mensagem para mim, ou email para: livro.aberto.rva@hotmail.com. Poderão perguntar porque não foi editado por uma editora? Poderia ter sido e teria quem o editasse, mas seria este um tema para uma grande entrevista. 

Optei por ter eu o trabalho todo, a responsabilidade toda, sem interferências que apenas e só visam o lucro. A arte não tem preço, tem valor por si só! 

5) Você é natural de Huambo, Angola, mas atualmente vive em Alenquer, Portugal. Como era sua vida em Huambo? E quais as diferenças que você viu entre seu país natal e o país lusitano onde escolheu morar?

Eu nasci no Huambo (antiga Nova Lisboa). Vivi muito pouco desta minha vida nesta terra natal, apenas 5 anos. E com 5 anos, no ano de 1975 deu-se o 25 de abril em Portugal, e as colonias portuguesas foram deixadas. Regresso com a minha família ao país de origem deles, e ficamos em Alenquer, a vila presépio de Portugal, terra que sinto como a minha terra natal. 

Aqui cresci, e me formei “gente”. Não tenho recordações de Angola (com muita pena). Muitas vezes me perguntam se gostaria de conhecer a terra onde nasci. Não, já não existe. Aquele local agora é outro! Nada do que me contam existe… ficou a guerra, a fome…

Gostaria de lá ir, mas em missão de voluntariado, de ajuda ao próximo. Quem sabe um dia voltarei com esta vontade na mão. 

Livros de Ana Coelho - Arquivo Pessoal

 Podemos programar os relógios

Mas nunca a vida…

6) Você apresenta um programa próprio na Rádio Voz de Alenquer, chamado “Livro Aberto”, com o intuito de divulgar novos autores. Conte-nos mais sobre esse trabalho.  

O programa semanal Livro Aberto na Rádio Voz de Alenquer começou há quase 6 anos, da vontade da rádio local em dar voz à literatura. Muito insisti que isso acontecesse e não havia quem desse voz a um programa deste. Parecendo contraditório, eu que sou muito tímida e não gosto de falar em publico, nem com microfones, aceitei o desafio de o fazer, desafiando a mim mesma. E se de início o que era pretendido era dar a conhecer a literatura, autores do passado e presente, rapidamente me dei conta que este tipo de programa é mais que isso! A rádio é a companhia da solidão, de muitos invisuais. E esta é a única forma de “abrirem livros”. Um trabalho social que me apraz imenso, que me motiva e que quero continuar a fazer. 

Muitos foram os autores que ao longo de 5 anos passaram pelo estúdio. Com a pandemia, deixei de receber em estúdio autores e o programa seguiu uma linha já existente de desafios de escrita que uniu em muito os autores e leitores. 

Além do programa, nasceram as coletâneas “Livro Aberto”, uma união de autores em prol de uma sociedade mais justa. Sou eu que faço todo o trabalho, desde a receção a paginação, e os lucros revertem para a Natação Adaptada do Alhandra Sporting Club (natação para pessoas com deficiência). Este ano será lançada a 5° coletânea com 133 Autores. 

7) Você tem grande paixão pela escrita e trabalha em prol da literatura, através do Grupo AlenCriativos, do qual é fundadora. Diga-nos, como faz para incentivar a produção literária?

 O AlenCriativos foi um projeto meu que desenvolvi com outra autora alenquerense (Maria Eugênia Pontes). Fizemos 3 concursos literários e muitos eventos em parceria com a Biblioteca Municipal de Alenquer. Agora como os eventos estão em pausa, estamos também em pausa. Com vontade de voltar a reunir poetas/escritores e amantes da escrita. 

O incentivo à produção literária começa com o princípio de que todos temos algo para dar, de que ninguém é melhor que ninguém. E este princípio é vivido pelo Grupo AlenCriativos e dá os seus frutos. Algo que a sociedade precisa urgentemente: largar o ego e abraçar os elos! 

Ana Coelho - Arquivo Pessoal

8) Todo escritor e poeta, antes de imergir na arte da escrita, começa praticando a leitura. Partindo disso, há algum escritor/escritora que você admire ou que a inspire?

Como comecei por dizer no início desta entrevista, sempre fui uma leitora compulsiva. Já li muito e ainda me falta ler muito mais. Leio muitos autores e em temas muito divergentes, até leio temas que não gosto muito, para saber se o que digo não gostar é uma verdade. 

Temos muitas referências enquanto autores, poderia dar alguns exemplos: Fernando Pessoa, pode parecer clichê, mas é o mestre da poesia. Mário Cesariny, Natália Correia… tantos! 

Mas a cada dia, encontro novos autores que me dão tanto à inspiração e vida. Vivemos um tempo de grandes criativos e a nossa Língua Portuguesa é um diamante maravilhoso na arte literária. 

9) Além de escrever, quais outras atividades você gosta de praticar?

 A escrita e o trabalho em prol da cultura literária é voluntariado, entrega e amor pelo que faço. Depois, ou antes, tenho uma profissão que me paga as contas. Trabalho as 40 horas semanais numa grande empresa portuguesa na área administrativa. Adoro a minha família, ao qual tento dar o melhor de mim. Sou filha, mãe, avó e esposa, sempre presente. Ufa, tanta coisa! 

E sobra pouco, mas sobra. Gosto de dançar, de música, teatro e ainda de artesanato, que já fiz muito, agora o tempo não chega para tal, mas é algo que me dá prazer. Criar, sobretudo criar e amar! 

10)  Ana Coelho, a Revista do Villa agradece sua participação e por compartilhar conosco um pouco da sua trajetória artística. Desejamos-lhe todo sucesso e realizações em sua caminhada. Para finalizar, deixe uma mensagem aos nossos leitores!

Agradeço de novo à Revista do Villa pela oportunidade de colaborar com o vosso trabalho e de me dar a conhecer com estas respostas. Muito sucesso para vós. O meu maior sucesso são as emoções, e essas acontecem a cada partilha, em cada momento que vivo! 

Como mensagem aos que nos leem, digo: semeiem felicidade, a vida é uma eterna recolha do que semeamos! 

Alguns irão questionar e dizer: caramba, eu…eu…e…

Lembrem-se, desde a semente da árvore forte e robusta vai muito tempo, muitas tempestades e dias de sol. Nada é instantâneo, mas tudo acontece e nada é por acaso.

Ana Coelho em apresentação na Rádio Voz de Alenquer - Arquivo Pessoal
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