Obra de Murilo Mendes é inspiração para a exposição “Sentado à Beira do Tempo”, no Centro Cultural Correios

MARILOU WINOGRAD

O Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro, abre, na próxima quarta-feira, dia 5 de maio, das 16h às 19h, a exposição “Sentado à Beira do Tempo, a poética de Murilo Mendes”, do Acesso Arte Contemporânea, que está na sua 7a edição, e é formada pelos curadores Marilou Winograd, Gilda Santiago e Aline Toledo.  

Participam da exposição 57 artistas do Rio de Janeiro, de Juiz de Fora, de Belo Horizonte, de Curitiba, de São Paulo, de Porto Alegre e de Lisboa para apresentarem, na mostra, 64 obras bi e tri dimensionais  – entre pinturas, desenhos, gravuras, fotos, colagens, esculturas, objetos, vídeos e performances – que estabelecem um diálogo com a poética de Murilo Mendes (1901 – 1975). 

Petrillo é o artista /curador convidado desta edição para os artistas mineiros. Abaixo, o texto crítico do escritor e ensaísta Silviano Santiago.

GILDA SANTIAGO

 Qual vanguarda hoje?

O filósofo e sinólogo François Julien justifica seu interesse pela questão da alteridade acentuando sua formação híbrida. Afirma: “jovem helenista, na Escola normal superior, comecei a aprender o chinês para ler melhor o grego…”. Lê-se melhor Murilo Mendes se se abandonar passageiramente tanto os prefácios de revistas como os manifestos de vanguarda dos anos 1920, e começar a ler o Novo Testamento ou I fioretti di San Francesco. Desde o poema de abertura de seu quarto e definitivo livro, Tempo e eternidade (1934), Murilo anuncia que seus versos passam a ser escritos por “um novo olhar”. Olhar que vem a ser outro pela presença fulgurante em sua vida do artista plástico Ismael Nery, a quem o livro é dedicado. Uma pequena parcela do mundo, o transitório, é suplementada pela totalidade do mundo, o essencial.

O pintor reformata em imagens o imaginário amoroso do poeta.

Meu novo olhar é o de quem transpõe as musas de passagem

E não se detém mais nas ancas, nas nucas e nas coxas,

Mais se dilata à vista da musa bela e serena.

A que me conduzirá ao amor essencial.

MONICA MANSUR - Paisagens Imaginárias

A relação do espectador e leitor brasileiro ao espaço singular e único da vanguarda histórica — espaço pré-determinado por um movimento externo, de que são exemplos os manifestos do Futurismo italiano, duplicados por um movimento nacional, interno, de que se tornará exemplo o “Manifesto antropófago”, — terá de ser desconstruída pela experiência de outro(s) lugar(es) de criação. Eles brotam e crescem nas fendas férteis do “paideuma vanguardista”, para retomar a expressão dos poetas e artistas concretos nos anos 1950.

Murilo e Ismael convidam o artista brasileiro a frequentar espaços exteriores à certeza vanguardista de nosso Modernismo. Certa Itália intervala a imaginação criadora do artista modernista.

  O leitor dos poemas de Murilo — não importa a época nem o lugar — é convidado a visitar não a Itália futurista de Marinetti, mas a medieval e fraterna de Francisco de Assis. O próprio poeta dirá que a mentalidade moderna, em seus textos, se associa ao catolicismo primitivo. Em livro emprestado a ele por Ismael e corresponsável pela conversão, pode-se ler: “Mas será que durante nossa vida não haverá um espaço livre para a Itália, para essa autêntica, real, simples e profunda Itália que, noutro dia, no mosteiro de Fonte-Colombo, chamei de Itália franciscana!”

Ismael e Murilo ganham inesperada dimensão por terem provido o movimento modernista (vale dizer: nossa atualidade artística) com a experiência da alteridade cultural. Experiência da diferença. Da distância (écart), como quer o filósofo/sinólogo François Julien. Justifica-se ele: “Por que aprender o chinês? Por que a China? Não tinha, na família e por formação, realmente nada a ver com a China. Mas por isso mesmo a escolhi…”.

Walter Goldfarb

Como nunca, cada sensibilidade está hoje estacionada à distância (en écart) de outra sensibilidade, como carros distintos num estacionamento imaginário. Em virtude da pandemia nossa sensibilidade é obrigada a sobreviver no espaço de dentro do carro. Não desça a janela. Achtung! Cada sensibilidade se reduz ao espaço íntimo e exclusivo que é o seu.

Ismael e Murilo convidam à experiência dos espaços exteriores, aqueles que, ao guardar a alteridade como força associativa (ou comunitária), convidam perigosamente à aproximação, à fusão com o outro e diferente, que fora minimizada pela vanguarda histórica e tem sido proibida pelas restrições de ordem sanitária. 

A partir da suplementação da mente moderna pelo catolicismo primitivo, Murilo Mendes oferece – a seus leitores e aos artistas visuais que queiram se hospedar em sua obra poética – a possibilidade de trabalhar a heteropia, para retomar o conceito de Michel Foucault ao teorizar sobre outros espaços. Murilo — o poema de Murilo — provém a teoria de carne. A sensibilidade reclusa chega a uma aproximação en écart de sua própria intimidade, cuja liberdade lhe é tolhida por motivações racionais que escapam à sua compreensão do mundo e da época que lhe tocou viver. 

Mark Engel - FOTO Carambolas, ora bolas #003 - 120x100 2021.
Publicação Anterior

Ovadia Saadia: Os 80 anos de Roberto Carlos, o maior cantor do Brasil. Uma vida em imagens

Próxima Publicação

Turismo de Ponta Grossa se organiza e lança pacote PG Explorer

691 Comentários