Douglas Delmar: David Mourão-Ferreira, o poeta português do amor e do erotismo

David Mourão-Ferreira posando para a capa do disco de Amália Rodrigues - Blogletras

David de Jesus Mourão-Ferreira, nascido em Lisboa no ano de 1927, foi um aclamado poeta, romancista, contista e dramaturgo. Mas também atuou como ensaísta, cronista, tradutor, crítico literário e professor. Nasceu no bairro da Lapa, em Lisboa, onde viveu até os 15 anos. Frequentou o Colégio Moderno e licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1951. Entre 1963 e 1973 trabalhou como secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Autores.

Atuou colaborando em jornais como o Diário Popular e a revista Seara Nova, além de ter sido um dos fundadores da revista literária Távola Redonda. Foi através desta publicação que as poesias de David Mourão-Ferreira começaram a ganhar destaque.

David Mourão-Ferreira - Crédito Escritas.org

Poema E POR VEZES

E por vezes as noites duram meses

E por vezes os meses oceanos

E por vezes os braços que apertamos

nunca mais são os mesmos. E por vezes

 

encontramos de nós em poucos meses

o que a noite nos fez em muitos anos…

E por vezes fingimos que lembramos

E por vezes lembramos que por vezes

 

ao tomarmos o gosto aos oceanos

só o sarro das noites não dos meses

lá no fundo dos copos encontramos…

 

E por vezes sorrimos ou choramos

E por vezes, por vezes ah, por vezes

num segundo se evolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira possuía uma necessidade atroz de escrever, como uma forma de dar sentido à sua existência. Segundo ele, tinha o “ofício de escreviver”. Por isso, seguiu o caminho da literatura e, a contragosto da família, largou o curso de Direito. 

Embora tenha experimentado diversas manifestações artísticas, foi através da poesia que obteve reconhecimento. Explorou desde temas como a obsessão pela morte e a angustia de existir até a temática do amor e da sensualidade, que o destacaram. Sua primeira publicação é o livro “A Secreta Viagem”, que celebra o corpo, o erotismo e o amor. Em 1986, publicou o romance Um Amor Feliz, aumentando o seu número de leitores

David Mourão-Ferreira e seu habitual cachimbo - Crédito Agenda Cultural Lisboa

Poema LIBERTAÇÃO

Fui à praia, e vi nos limos

a nossa vida enredada:

ó meu amor, se fugimos,

ninguém saberá de nada.

 

Na esquina de cada rua,

uma sombra nos espreita,

e nos olhares se insinua,

de repente uma suspeita.

 

Fui ao campo, e vi os ramos

decepados e torcidos:

ó meu amor, se ficamos,

pobres dos nossos sentidos.

 

Hão-de transformar o mar

deste amor numa lagoa:

e de lodo hão-de a cercar,

porque o mundo não perdoa.

 

Em tudo vejo fronteiras,

fronteiras ao nosso amor.

Longe daqui, onde queiras,

a vida será maior.

 

Nem as esperanças do céu

me conseguem demover

Este amor é teu e meu:

só na terra o queremos ter.

Considerado um dos maiores poetas portugueses do Século XX, David Mourão-Ferreira alcançou notoriedade ao ter seus poemas cantados pela fadista Amália Rodrigues, como Sombra, Maria Lisboa e especialmente Barco Negro, entre outros.

Foi diretor do Jornal A Capital e diretor-adjunto do O Dia. Também desempenhou o cargo de Secretário de Estado da Cultura, assinando em 1977 o despacho que criou a Companhia Nacional de Bailado, que se tornou referencia no país em dança clássica.

Foi autor dos programas televisivos Poetas de Hoje e de Sempre e Imagens da Poesia Europeia, transmitido pela RTP. Em 1966, foi premiado pela Sociedade Portuguesa de Autores.

David Mourão-Ferreira morreu em 16 de junho de 1996.  Em 1981, seu nome ocupou a Cadeira número 5 da Academia Brasileira de Letras.

Atualmente, existe uma biblioteca com seu nome em Lisboa, no Parque das nações e uma avenida no Alto do Lumiar.

David Mourão Ferreira com Amália Rodrigues - Crédito Eduardo Tomé - Arquivo DN
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