Flavio Santos apresenta Abraham Jabour: o rei do café

Abrahão Jabour, terno branco, numa feira. Foto de Internet. circa 1970

Aquele libanês que passeava com seu luxuoso Ford Lincoln, “chapa” 2.277, pela avenida Atlântica dos anos trinta, cartão-postal que via surgir os primeiros edifícios de apartamentos, era um homem já realizado. Mas ele não sabia, enquanto admirava o mar de Copacabana e as mansões elegantes da orla, residências em estilo normando, os castelinhos e bungalows, que seria uma das maiores fortunas do Brasil. Mais ainda, que sua firma se tornaria a maior exportadora de café do mundo.

Não se sabe o motivo principal da imigração do Sr. Elias Jabour, pai de Abrahão, para o Brasil. Certamente a longa agonia do Império Otomano (c.1299-1922) na virada do século XIX para o XX foi o fator principal. Perseguições religiosas, distúrbios políticos e a falta de perspectiva econômica do velho império contribuíram para a grande diáspora dos libaneses.

Abrahão Jabour nasceu no Líbano, em 1885 (em outras fontes, 1884), veio para o Brasil aos 10 anos de idade. Seus familiares se fixaram na cidade de Leopoldina, Zona da Mata do estado de Minas Gerais, especificamente no distrito de Providência.

Abrahão Jabour. Acervo de O Globo. 1974.

Já em 1905, abriu uma pequena loja perto da estação ferroviária de São Luís, hoje, Trimonte, município de Além-Paraíba. Uma típica “venda” do interior do Brasil da época, onde o povo comprava de tudo um pouco. Em 1909 começou um novo negócio, uma usina de beneficiamento de arroz. Com os preços e a demanda internacional ajudando, os produtores rurais da Zona da Mata resolveram investir na cultura do arroz. Abrahão comprava desses produtores locais e revendia para firmas exportadoras do Rio de Janeiro, que por sua vez revendiam para os mercados europeus. Em 1915, já acumulando um capital de 60 contos de réis, abriu um negócio atacadista em Providência, se tornando um dos mais prósperos comerciantes locais.

Estendeu seus negócios pelo estado do Espírito Santo, abrindo uma fábrica de beneficiamento de arroz e mandioca no município capixaba de Itapemirim, no início dos anos vinte.

Na década de 1930, resolveu entrar mais diretamente no negócio de café. Primeiro, como “comissário”, depois como exportador. Em fevereiro de 1931, já no Rio de Janeiro, montou uma nova firma, Jabour Exportadora, para comércio de café, algodão e outros gêneros (commodities), estabelecidos à rua da Candelária, n.81, 2.o andar. Tinha filiais nos estados do Espírito Santo e de Minas Gerais – em Providência e São Martinho. Com capital de 500 contos de réis, gerenciava com os irmãos João e Miguel Jabour. Um decreto assinado pelo então “Chefe do Governo Provisório” Getúlio Vargas, em junho de 1932, naturalizou Abrahão e sua esposa Johanna Sara Jabour.

Abrahão Jabour, de pé, no Centro de Comércio do Café do Rio de Janeiro. Foto Correio da Manhã. 1958.

Passa a competir com as grandes firmas exportadoras de café dos anos 30, dentre outras, Monnerat Lutterbach & Co., firma de família fluminense tradicional, Ornstein & Co., E. G. Fontes & Co., Theodor Wille & Co. e a American Coffee Corp. , sempre figurando entre as maiores firmas fretadoras de cargas pelo Lloyd Brasileiro. Era um dos mais atuantes nas reuniões do salão nobre da Associação Nacional dos Exportadores de Café, cuja sede, inicialmente na avenida Teófilo Otoni, se transferiu para a avenida Rio Branco. Discutia-se o preço, os impostos e a qualidade do café brasileiro, que sofria com a competição do produto colombiano, de qualidade superior.

Em 1941 já era a maior firma exportadora de café do Rio de Janeiro e do Brasil. Em julho do mesmo ano, infelizmente, Dona Joana Jabour faleceu. Em 1946 é fundada a Associação Monte Líbano e, como representantes proeminentes da comunidade, ele e seu irmão João fizeram parte da diretoria. Em mais um momento triste, o Sr. Elias faleceu em 1948. No entanto, a Jabour Exportadora começava a viver seu auge. Entre os anos 1949 e 1959 se tornou a maior exportadora (sacas embarcadas) de café do mundo. Foi membro do conselho fiscal do Banco Boavista S/A e presidente do Trapiche (armazéns) Ypiranga.

Tamanha prosperidade não poderia passar sem atrair atenção. A imprensa de esquerda não via a família Jabour com grande entusiasmo. Uma parte, desinformada, acusava a Jabour Exportadora de ser um “truste ianque”. Outros, denunciavam sua ligação com a “bancada do café”, deputados que eram eleitos para lutar pelos interesses do setor, os famosos lobistas. Pior, eram acusados de lucrar com “negociatas”, esquemas de manipulação do câmbio. Basicamente, o crime de receber informações privilegiadas (de cocheira, no jargão jornalístico) de órgãos públicos, como a SUMOC – a Superintendência de Moeda e do Crédito – antiga autoridade monetária que fazia o papel de banco central. Comprava-se café antes do órgão governamental baixar uma instrução decretando nova política cambial, assim, lucrando com a operação.

Abrahão Jabour, terno branco. Foto de Internet. circa 1970.

A Companhia Federal de Fundição colocou à venda uma área de 300 mil metros quadrados no bairro carioca de Senador Camará, no final da década de 1950. Abrahão comprou e construiu casas para a classe média, para pagamentos à prestação e um pequeno adiantamento. Sempre elogiado pelo trato com os funcionários da obra, com o dinheiro das vendas, criou duas escolas, um hospital, centro comercial, uma igreja e um clube. Nascia o Bairro Jabour. Em 1971 cogitou construir uma universidade no local, mas a ideia não prosperou.

Foi o maior patrocinador da construção da obra social da irmã Zoé Jabour, a “Cidade dos Velhinhos”, lar para idosos na estrada de Mapuá, no bairro carioca da Taquara, construída originalmente para 120 idosos. Recebeu o título concedido pelo jornal O Globo de “Carioca Honorário”, em março de 1974.

Morador da Urca, na avenida São Sebastião, segundo maior acionista do Banco do Brasil, depois do controlador, a União, nunca deixou de frequentar o bairro que criou, visitando sempre a feirinha nos finais de semana. A Jabour Exportadora ainda está lá na rua da Candelária. O bairro, infelizmente, se desvalorizou.

Segundo a revista Manchete: “A história dos libaneses no Brasil atinge um de seus pontos mais altos com a figura de Abrahão Jabour”. Morreu aos 96 anos, em 22/2/1980. O jornal O Globo foi o único que deu destaque: “Abrahão Jabour, 96 anos de solidariedade humana.”

Bairro Jabour. Imagem de Internet. c. 1980.

Fontes:

Arquivo Nacional do Rio de Janeiro – SIAM

Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro – Hemeroteca.

Acervo Digital de O Globo.

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