Douglas Delmar entrevista o escritor Júlio Emílio Braz

Júlio Emílio Braz – Divulgação

JÚLIO EMÍLIO BRAZ nasceu em 16 de abril de 1959, em Manhumirim, Minas Gerais e atualmente vive no Rio de Janeiro. Com uma extensa e aclamada carreira literária, começou a escrever ainda na infância, mas só aos 20 anos fez da escrita a sua profissão. Iniciou como roteirista de HQs, com obras publicadas por diversas editoras brasileiras e internacionais, o que lhe rendeu o Prêmio Ângelo Agostini de Melhor Roteirista de Quadrinhos em 1986. 

Depois, trilhou o caminho da literatura infanto-juvenil, publicando em 1988 o seu primeiro do gênero, chamado “Saiguairu”, conquistando assim o Prêmio Jabuti de Autor Revelação. Atualmente, Júlio Emílio Braz possui cerca de 200 obras infanto-juvenis e traduzidas para outras línguas, além de mais de 400 livros de faroeste e outros títulos que variam entre ficção cientifica, suspense, ação e também aborda problemas socias em suas histórias. Na televisão, escreveu roteiros para “Os Trapalhões” da TV Globo e uma telenovela para uma emissora do Paraguai.

Confiram nessa entrevista mais um pouco da carreira desse grande e renomado escritor mineiro!

1 – Como iniciou o seu percurso pela literatura? E o que ela significa para você?

Profissionalmente, como escritor, eu comecei em meados de 1980 (mais exatamente, em outubro daquele ano), quando, desempregado, eu, por intermédio de um amigo de meu irmão, eu fui convencido a procurar o editor Otacílio Barros, que coordenava a área de quadrinhos da Editora Vecchi, para oferecer meus projetos de quadrinhos. Sempre gostei muito de quadrinhos (eu aprendi a ler em casa a partir deles) e havia criado muitos personagens naquela época. Nenhum dos personagens que criei interessaram, pois ele buscava material para as várias revistas de terror que criara. No entanto, um dos personagens o interessou. Chamava-se Pedro Salvaterra e era “um capa & espada” que se passava no Pernambuco do século XVII, durante a invasão holandesa. No caso, ele enfrentava os invasores. 

Ele disse que se conseguíssemos transformá-lo em um personagem que encaixasse na revista Spektro, ele me aceitaria. Rapidamente fizemos um rápido brainstorm: primeiro eu reinventei o personagem, a partir da história original, ou seja, o ex-senhor de engenho que enfrentava os holandeses é traído, preso e enforcado, e por intermédio de um pacto de sua antiga ama de leite com as forças do mal, trocando a vida dela pela dele, retorna como uma espécie de zumbi para continuar sua luta. Depois buscamos um novo nome para ele, mais dentro da proposta das revistas, que eram de terror. Nascia assim Jesuíno (por conta de um lendário cangaceiro, Jesuíno Brilhante) Boamorte (óbvia concessão ao propósito das revistas, que era o terror). 

Depois deste início “quadrinhístico”, eu ainda faria livros de “bang-bang”, um produto de grande apelo popular até meados dos anos 90, e que foi a minha verdadeira escola de escrita criativa, e cheguei a escrever sketches de humor para o programa Os Trapalhões da TV Globo. A literatura propriamente dita e a infanto-juvenil entrou na minha vida por conta de outro feliz acaso: um grande amigo e desenhista, Roberto Kussumoto, habitualmente me levava a editoras paulistanas de quadrinhos quando eu ia a São Paulo. Em certa ocasião, depois de me levar a algumas, ele me levou com ele na Editora FTD onde entregaria algumas ilustrações que ele estava fazendo para a área de infantis e juvenis daquela editora. Conversa vai, conversa vem e fui apresentado ao Lino de Albergaria, que naquela época era o responsável pela área. Ele foi extremamente solícito e em dado momento me perguntou se eu tinha algo escrito na sua área. Eu simplesmente disse que tinha um original (na verdade, eu não tinha nada, mas não queria perder a oportunidade de publicar em outro nicho profissional). Durante a viagem de volta para o Rio (dentro de um ônibus da Cometa, eu desenvolvi a ideia que redundaria no meu primeiro juvenil, Saguairu, a partir de uma matéria que havia lido na revista Domingo, do Jornal do Brasi, que havia lido algum tempo antes e versava sobre animais em extinção brasileiros). Infelizmente quando concluí o livro e mandei para o Lino, descobri que ele não estava mais na FTD e a nova editora que o substituiu não se interessou por Saguairu. Como não tinha outra alternativa, passei a enviá-lo para outros editores. 

Os três primeiros sequer o leram e o quarto, a Editora Record, depois de se interessar, desinteressou-se. Houve ainda um quinto editor cujo nome não lembro mais, antes de Atual Editora se interessar e finalmente o publicar em 1988. No ano seguinte, ele me deu o Prêmio Jabuti de Autor Revelação. Serei bastante óbvio: a literatura no geral e a literatura infanto-juvenil para mim é o meu oxigênio. Ela dividiu minha vida em antes e depois dela. Não ela propriamente dita, mas a sua característica básica de ser o pontapé inicial de qualquer possibilidade de se criar um leitor. Gosto de dizer, obviamente brincando, que somos o porteiro do grande edifício da Literatura, aquele que abre a porta para este universo maravilhoso onde os imaginários se encontram e a humanidade se apresenta em toda a sua fascinante singularidade. 

A palavra nos define e a sua manipulação, nos confere a eternidade e a transcendência entre todos os animais com que partilhamos este planeta. 

Júlio Emílio Braz – Divulgação

2 – Júlio Emílio, você despontou na literatura com o livro SAIGUAIRU com o qual ganhou o Prêmio Jabuti. Conte-nos um pouco sobre essa obra. E o que o levou a enveredar pelo gênero infanto-juvenil? 

Como eu disse na resposta anterior, SAGUAIRU nasceu do feliz acaso de meu amigo Roberto Kussumoto ter me apresentado a Lino de Albergaria e este ter se interessado por mim ao ponto de perguntar se eu tinha alguma coisa para lhe mostrar em termos de literatura infanto-juvenil. Não sei explicar o que deu em mim, mas eu instintivamente disse que sim. Foi apenas na volta para o Rio de janeiro, dentro de um ônibus da Cometa, que eu me dei conta que tinha que mandar um livro para ele e passei a viagem inteira buscando uma história. 

A matéria da revista Domingo, que vinha neste dia encartada ao Jornal do Brasil, me levou a pensar no lobo-guará e mais adiante, em uma caçada onde ele se via perseguido por um velho indígena que curiosamente nunca o pegava. Em certa medida, Teonguera, este indígena, era eu, pois naquela época eu escrevi algo em torno de dez livros de bolso de bang bang e há tempos vinha me sentindo incomodado pela ideia de que sabia mais sobre os indígenas norte-americanos do que sobre minha avó paterna (que era indígena e eu nunca soube de que tribo era ela). 

Teonguera só se sentia novamente indígena quando enveredava pelo pantanal atrás do lobo que o seu inconsciente não permitia matar (pois se o matasse perderia sua derradeira possibilidade de estar na mata e se sentir novamente indígena). Aliás, penso que me interessei pela literatura infanto-juvenil pela possibilidade que ela me dava de ser brasileiro, ou seja, de falar e escrever sobre o Brasil e as coisas do Brasil – sua gente, sua terra e sua história. 

Outra coisa assaz interessante no gênero é que, por conta de sua relação quase umbilical com as escolas, o autor deste gênero tem uma relação igualmente mais próxima com seu leitor, algo que me seduz desde a primeira palestra que fiz para um grupo de crianças do Colégio Alonso, no bairro do Méier. Mesmo em dias tão modernos e tão tecnologicamente avançados, me encanta perceber que os escritores ainda conservam uma certa mítica e aura de encantamento aos olhos de seus leitores e essa convivência é uma fonte inesgotável de interesse mútuo e de investimento seguro no imaginário um do outro. 

3 – Você possui obras que abordam a temática do HIV, como ENQUANTO HOUVER VIDA VIVEREI, UM SONHO DENTRO DE MIM, APRENDENDO A VIVER e PERDIDAMENTE. O que o levou a escrever sobre esse tema tão delicado?

Sou muito interessado em temas ditos polêmicos e na sua abordagem para o público juvenil e mesmo, para o infantil. Sempre acreditei na capacidade de ambos de lidar com a aridez inescapável da existência humana e a seu tempo e a seu modo, compreendê-la. Nunca me ocupei de “proteger” meus leitores do mundo, até por que hoje em dia, isso é impossível, perda de tempo. 

Essas quatro novelas nasceram alguns anos após a AIDS surgir e fazer parte do cotidiano de todas as sociedades humanas no planeta, exercendo força poderosa e no princípio, assustadora, contribuindo para mudanças de hábitos e constituição de novo e enorme preconceito com seu estigma de doença incurável. A ciência começou a encontrar rivais de peso na ignorância nossa de cada dia e em um tipo de religiosidade cada vez mais fundamentalista quando, na minha opinião, deveria ser tratada como o que efetivamente era, um problema de saúde pública. 

Essa tendência nunca mais se reverteu e em certo sentido, tornou-se a amarga rotina que divide nossa sociedade até hoje e nesses dias de pandemias sucessivas. Enveredar pela abordagem deste e de outros tantos temas rotulados de polêmicos se tornou um caminho mais ou menos óbvio para alguém que aprecia o debate, a discussão em termos civilizados e principalmente, a busca interminável do humano pelo conhecimento. 

Quem sabe seja resquício de meus heróis da infância e da adolescência (ainda hoje dentro de mim), paradigmas da racionalidade e do verdadeiro amor pelo conhecimento: o televisivo Sr. Spock, de Jornada Nas Estrelas, e o literário Sherlock Holmes, do genial Arthur Conan Doyle.

Livro Saguairu - Crédito Amazon

4 – Como funciona a sua rotina para escrever? Quais horários prefere?

Sou um homem absolutamente diurno, ou seja, acordo sempre bem cedo, por volta das cinco horas da manhã, e depois do ritual mais ou menos básico de higiene pessoal, a leitura de três ou quatro jornais diários (e impressos) e um farto café da manhã (a principal refeição do dia), começo a escrever por volta das oito e vou até as doze horas, quando paro para almoçar. 

Estando em casa, descanso ou cochilo por quinze minutos, e volto a escrever até algo em torno das 17 horas. Escrevo todos os dias, mesmo no sábado e domingo, quando costumo rascunhar em blocos que carrego para onde vou ou em qualquer papel que tenha ao alcance das mãos (se estou em bares e restaurantes, os guardanapos de papel são meus favoritos, mas já escrevi nas beiradas de jornais e revistas à falta de um de meus blocos). Raramente escrevo à noite.

5 – Muitas pessoas possuem uma imagem romantizada do profissional da escrita. E para você, Júlio Emílio, o que é ser escritor?

Na verdade, considero um profissional ou o melhor dos profissionais, aquele que é apaixonado pelo que faz e que a torna ofício para cada segundo de sua existência. Posso me considerar até um pouco sem graça, pois a exemplo de meu grande ídolo, Sherlock Holmes, pensamos em apenas uma coisa. Ele, em pegar seus criminosos, e eu, em escrever minhas histórias. Não morro por uma boa história, mas certamente vivo para encontrar sempre uma nova, e por conta disso, vejo-me correndo o risco de ser imortal.

6 – Além da inspiração, o que mais é necessário para se tornar um escritor?

Disciplina, persistência e antes de mais nada, a leitura extensiva, intensiva e crítica, pois acredito sinceramente que o melhor professor para qualquer candidato a escritor é um bom livro. Inspiração não aparece, mas é ingrediente básico para que encontremos e criemos boas histórias.

7 – Você escreveu livros como PRETINHA, EU?, GRIOT: HISTÓRIAS QUE OUVIMOS NA ÁFRICA, NA COR DA PELE e FELICIDADE NÃO TEM COR, que abordam a questão do preconceito racial. Como foi escrever sobre esse problema que, infelizmente ainda existe na sociedade? 

Eu divido esse tipo de  abordagem em dois momentos distintos: o momento de descobrir o que eu era, encontráveis em livros como Pretinha, eu?, Na Cor da Pele e Felicidade Não Tem Cor, entre outros, e o momento em que eu me interessei em verdadeiramente conhecer de onde vieram meus ancestrais (ou parte deles, já que sou miscigenado e as raízes de minha árvore são tão profundas quanto espalhadas em todas as direções possíveis, exceto a oriental), longe da simplificação que ainda hoje se refere a África como se fosse monoliticamente um único país e não um continente dividido em 57 países e milhares de povos e línguas e dialetos, e portanto, tão complexo e fascinante quanto os outros continentes e povos. 

Neste caso incluo o primeiro destes livros, Lendas Negras, e outros tantos quanto Lendas da África, Sikulume e Outros Contos Africanos, Cinco Fábulas da África, Griot, e o mais recente deles, Moçambique.  

Tanto um quanto outro momento ainda me mobilizam a escrever outros tantos livros sobre os dois assuntos e agora, sobre uma terceira vertente por essa sede implacável de descobrimento pessoal, representados por livros Uma Pequena Lição de Liberdade, Luis Gama – De Escravo A Libertador, e Um encontro com a Liberdade, onde eu busco o negro que a História do Brasil tão zelosamente escondeu de nós. Negros, a partir de nomes inacreditavelmente fantásticos como Machado de Assis, Lima Barreto, André Rebouças, Paula Brito, Virgínia Bicudo, só para ficarmos em alguns nomes. 

8 – Como você cria seus personagens? Já se inspirou em uma pessoa real?

Três são o norte da criação: o que se vê, o que se ouve e o que se vivencia. Crio ou retiro meus personagens dos muitos que encontro e vejo ou vi ou mesmo verei ao longo de minha existência. Como diziam sobre João do Rio, sou um flaneur e um peripatético por excelência. 

Noutro dia um grupo de crianças com que conversei em uma live me perguntou se eu estava sentindo muito o isolamento social e eu respondi que não, se estivéssemos falando do momento de escrita, pois um escritor vive em isolamento social autoimposto quando está escrevendo. Todavia, minha criação começava bem antes e para ela eu precisava urgentemente do humano que eu adoro encontrar em ônibus, trens, metrô e mesmo nas barcas para Niterói, preferencialmente cheios. Como dizia Marc Bloch, referindo-se ao ofício de historiador (eu sou Licenciado em História), dizendo que o “historiador era como um ogro e precisava de carne humana para existir”, o escritor também. 

É da observação e da memória que nascem nossos personagens e obviamente, nessa observação incluo amigos e parentes. Toda ficção alça voo a partir da realidade, por mais insípida e desenxabida que ela possa ser. 

 

9 – Você possui projetos recentes? Quais? E tem planos para um próximo livro?

Estou escrevendo uma série de histórias intitulada “A Escola do Fim do Mundo” a partir de observações que fiz durante uma visita a uma escola rural há três anos atrás na cidade gaúcha de Guaíba e em seguida realizarei um velho projeto de pelo menos vinte e três anos atrás, uma história de piratas.

Capa do livro Enquanto Houver Vida Viverei - Crédito Amazon

10 – Além do Prêmio Jabuti, você também ganhou os prêmios Blue Cobra, do Instituto Suíço de Livros Infantis e o austríaco de livros para crianças. Conte-nos como foi receber essas premiações.

Na verdade, apenas o prêmio Austrian Children Books Award, na Áustria, eu fui receber pessoalmente e foi uma das experiências mais interessantes de minha vida, não só pelo ineditismo de uma premiação internacional em si, mas pela possibilidade de vivenciar a maneira altamente distinta e de extrema relevância com que certas sociedades tratam a educação e a cultura. 

O prêmio que ganhei na Suíça e que minha tradutora me deu uma tradução nada a ver, Blue Cobra Award (na verdade, em alemão seu nome é Blaue Brillenschlangue, e quem o concedeu foi o Instituto Federal de Cultura da Suíça), ela me representou, pois eu na época, estava realizando uma série de palestras pelo Rio Grande do Sul com o apoio da Editora Moderna, que na época era a que publicava este livro multipremiado, Crianças Na Escuridão (hoje ele está na FTD). Ainda houve um outro prêmio na Alemanha, mas neste quem recebeu o prêmio foi a coleção, sendo meu livro apenas uma das três menções honrosas. Como já disse anteriormente, o que mais chama a atenção nessas premiações é a grande importância que é dada não apenas a figura em si do escritor e do ilustrador, bem como de editores e críticos, pois lá a literatura infanto-juvenil é tão importante ou pelo menos levada a sério que os principais jornais fizeram cobertura e naturalmente, tem colunas pelo menos semanais dedicados a literatura infantil e juvenil. 

Nenhum país que quer ser civilizado e educado ao ponto de assegurar ou pelo menos buscar a igualdade de oportunidades para cada um de seus cidadãos, o faz desprezando a cultura e a educação de cada um de seus cidadãos.

11 – Para ser escritor, é necessário ler muito também. Partindo disso, diga-nos quais são seus escritores preferidos. Algum deles já influenciou na sua escrita?

Meus favoritos foram Orígenes Lessa, Maria José Dupré, Lima Barreto, entre os nacionais. E entre os estrangeiros, Conan Doyle, Robert Louis Stephenson, Richard Wright, Alexandre Dumas, Pai; Edgard Allan Poe, Dostoiévski e Tolstoi. 

Não sei se algum deles influenciou minha escrita, mas sou um devoto de São Lima Barreto, autor que acredito que deveria ser leitura obrigatória para quem gostaria de conhecer o Brasil, mas antes de mais nada, a verdadeira alma do brasileiro.

12 – O que você diria a alguém que sonha em viver da escrita?

Tem certeza de que é isso mesmo que você quer?

13 – Júlio Emílio Braz, em nome da Revista do Villa, agradeço imensamente a sua participação. É uma honra poder conhecer um pouco mais da sua brilhante carreira. Desejamos que continue obtendo sucesso e que muitos mais livros possam ser gerados por sua mente talentosa. 

Para finalizar, deixe uma mensagem aos nossos leitores.

Acreditem: ler é um ato de legítima defesa em uma sociedade injusta.    

Livro Pretinha, eu – Divulgação
Compartilhe nas redes sociais
Publicação Anterior

Costão do Santinho Resort apresenta projeto de turismo de aventura e fomenta retomada do setor

Próxima Publicação

Centro de Convenções Frei Caneca completa 20 anos

153 Comentários

Deixe um comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado.