DOUGLAS DELMAR ENTREVISTA A POETISA LUCIANE GENEZ

Luciane Genez – Acervo Pessoal

Luciane Genez nasceu em Curitiba, onde vive até hoje. Dona de uma escrita intensa, sensual, por vezes crua, mas essencialmente feminina, a paranaense já participou de diversas antologias poéticas. Atualmente, escreve contos em sua coluna no blog Oceano Noturno de Letras (http://oceanonoturnodeletras.blogspot.com/) e compartilha suas poesias no seu perfil do Facebook.

Escrevo um traço

Algo que me tire o engasgo dos dedos

dizer que ainda vivo.

Não sei o quanto o papel mais suporta.

Um poema, uma carta ou a justificativa barata para mais um suicídio ridículo.

Se pelo menos, o céu estivesse azul

Minha casa fosse térrea

Tentaria esconder meu desassossego

Debaixo do tapete da sala.

Trancaria o monstro no armário,

Esconderia o espelho.

É difícil viver o desajuste das horas

A inadequação estendida, entre uma madrugada e outra.

Os corredores daqui, estão nus.

Nenhuma foto, nenhuma ligadura uterina.

A tinta vermelha,

Meu sangue escorrendo, lentamente nessas linhas

São tantas as coisas perdidas.

Não tenho asas, nem uma roupa de herói.

Daqui de cima, a cidade é pequena

O vento, faz dançar os vultos na janela.

Não é do corpo vazio, que me desespero

É o estar cheio de tudo.

O entardecer sufoca os sentidos

Já pressinto a angústia de mais uma noite

Todas as falas da parede com estigmas de adeus.

Talvez, o papel ainda me salve,

Escolha falar de amor, na última linha.

Luciane Genez

1 – Como despertou a sua paixão pela poesia?

Comecei a escrever num dos piores momentos da vida. A escrita surgiu como cura, para manter minha sanidade e existência (sem nenhum exagero). Os primeiros escritos eram só uma tentativa de fala e expurgo, sem conhecimento técnico algum, sem métrica ou preocupações, as que não fossem, estar expiando sentimentos e passando-os ao papel, da forma que vinham. E, me pareceu, a poesia, ser uma forma que me supria, na qual me sentia confortável escrever. Até hoje, não escrevo com obediência à métrica ou às normas, pois penso que se assim o fizesse, não seria meu retrato, não seria eu, nem do meu jeito. Eu não me sentiria livre.

2 – Quais temas te inspiram a escrever? Porque?

Acredito ter três vertentes distintas, e os temas são diversos, só que os textos tendem a se separar entre esses caminhos, que são, o erótico, o ácido (questionador) e sombrio, cuja poesia é mais densa e pesada. O porquê da escolha, posso dizer que eu não os escolhi e, sim, eles a mim. E transitar em universos tão distintos, me dá amplitude para discorrer sobre o que quiser, sem necessariamente catalogar um assunto como A ou B, posso escrever sobre a morte, por exemplo, e tornar o texto sensual, com um tema tão sombrio quanto.

E nessa brincadeira de escrever o que seria óbvio, eu subverto o tema, do mesmo modo que tento fazer com as palavras, ora as colocando numa ordem não “natural”, ora as usando em duplo sentido. Gosto dessa experimentação. Mas, num primeiro momento, tudo é muito intuitivo, depois é que vou moldando as linhas, para o que realmente quero dizer, passar.

3 – Muitos dos seus poemas possuem um teor erótico e sensual. Como você vê o protagonismo feminino na literatura erótica?

Ainda não sei se existe um protagonismo feminino na literatura erótica, apesar de SILVIA DAY estar aí para me contradizer. Não consigo o identificar, mesmo percebendo a cada tempo, um número maior de mulheres se atrevendo ao risco do erótico (eu mesma).

Desde o começo, a decisão de dar minha cara (mostrar meu rosto) e usar do nome, me fez questionar se me cabia essa fala. Temi, sobre as consequências, e combatia em mim, a velha história do “menino pode, menina não”. Esse “pré-conceito”, que de pré não tem nada, pois, sempre foi arraigado na sociedade machista como a nossa. E eu odeio radicalismos e não estou aqui levantando bandeiras. Só falando do meu sentimento, de uma mulher com mais de 50 anos, criada numa família católica e conservadora. Escrever erótico, me era inimaginável.

Como se só coubesse ao homem, este espaço do erotismo. Como se só ele fosse validado ao assunto, para falar e profanar o que bem quisesse fazer.

Recentemente, lendo textos de várias mulheres que contribuíam para o meu antigo site, uma coisa era comum, e me causava incômodo, a percepção de que a grande maioria delas, associava escrever sobre sexo, com o sentimento do amor, como se ao trazer um certo romantismo ao texto ou mesmo o uso da palavra AMOR, fosse um salvo-conduto a ela, como escritora.

Fiquei muito feliz, quando alguém, um dia me disse, que meus textos não eram assim, que falavam de sexo simplesmente, que retratavam desejo, prazer e só.

Mas, de qualquer forma, torço para que SILVIA DAY, MEGAN MAXWELL, ANNA P, escrevam muito e, que eu, com o que faço, continue a conquista do lugar, que é nosso também, sem te que me valer de nada, além da própria escrita em si.

4 – Você costuma disponibilizar seus textos na internet. Já sofreu alguma discriminação por escrever poesias sensuais? Se sim, como reagiu?

Tive pouquíssimos incômodos com ofensas, ou assédios sexuais. Para esses, simplesmente eu bloqueio o “falso amigo”, e não discuto, já que não vale a pena, pois sinto que daria muito importância ao sujeito. No Facebook, teve um episódio de uma pessoa, que ao ler uma poesia minha (nem eram os contos do blog, do qual eu era colunista, que tinham um tom mais pesado), disse-me que eu tinha mente suja, que era uma depravada. Na hora, até redigi uma resposta muito irritada. No final, a única resposta que dei, foi fazendo uma outra poesia. Fora isso, sigo ilesa do outro e, dos seus julgamentos

Já, no blog, os comentários eram moderados, antes da sua publicação, o que evitaria por si só, algo ruim, então, nunca fui ofendida ou coisa que o valha.

Fora da Internet, no entanto, nesse mundo de terra e ossos, literalmente já fui eliminada, por um ou outro homem, que ao saberem que eu escrevia erótico, mudaram radicalmente sua opinião sobre mim. O que só posso lamentar. Para isso, penso… perderam eles, e não eu.

5 – A escrita mudou sua vida de alguma forma? Como?

Sim. Não tem como não mudar. A escrita faz despertar os sentidos, principalmente a visão e a audição. Depois que se começa a escrever, já não se lê a vida como antes. É impossível. Se é tocado, e tudo vira motivo de observação, de ensaio, de possibilidades.

Sem contar ainda, ter trazido algumas pessoas para o meu convívio, que eu jamais teria tido algum contato ou conheceria. Alguns, me ensinam muito e sou admiradora, outros, já os considero amigos.

Infelizmente, como tudo parece trazer a seu reboque, as contrapartidas, também me deparei com um universo de competição, de gente medíocre, de egos inflados, que em nada combinam com a beleza e a natureza da arte.

Fatalmente eu te machucarei, e você a mim

Temos coberto, o corpo inteiro por espinhos de outras vidas

Contigo consigo existir além desse lugar,

Num lento arranhado de carnes.

Nenhum salvo conduto para que o amor

Extrapole o caiado dessas paredes,

Que já velhas, apresentam fissuras as suas lisuras matinais.

Um dia é algo de lembranças.

Nada mais que o soberbo ócio dos amantes que se habitam,

entre lençóis manchados de gozo e esperas vespertinas.

Nos demos as boas bocas.

Sussurros, gemidos e o êxtase febril dos pêlos confinados, nas horas desse acontecimento.

Eu renasço no sagrado de um coito.

Ficamos nus, por uma tarde inteira

Despertando o abobalhado da pele

Com o vento soprado.

Os suores escorrem lentamente, se misturam em gotas despudoradas

Se bebem em lábios urgentes.

Nenhuma janela ou porta aberta para dar vazão aos ares dos olhos

Seguiremos assim, surdos e esquecidos,

que vivemos das partidas.

Nós já amanhecemos há tempos demais, não há sobras de amanhã.

As paredes ventam um novo frio.

Luciane Genez

6 – Na sua opinião, como podemos incentivar o hábito da leitura?

No que nos compete enquanto escritores, é produzir massivamente conteúdo, escrever coisas boas e dignas de serem lidas. Sermos incentivadores e divulgadores de outros escritores. Nos tornarmos incansáveis na produção da arte (em qualidade e quantidade).

Entretanto, por outro lado, muito pouco está nas nossas mãos e não depende do que façamos, pois extrapolam nossa capacidade e possibilidade, haja vista, políticas e diretrizes de educação, o mercado editorial e seus altíssimos custos, (tudo bem que hoje se pode ter acesso a sites que disponibilizam gratuitamente livros em PDF, e nesse caso, você precisaria os meios), sem contar ainda, o modo como a sociedade e família é estabelecida. Eu aprendi a gostar de ler na época da escola (primário), e tive na minha mãe um bom exemplo, ela era uma leitora voraz. Tanto quanto podia, comprava livros e nos incentivava à leitura.

Mas, eu continuarei, até o fim dos meus dias, a falar de livros, a contar a estória deles, a quem estiver por perto.

7 – Quais autores gosta de ler? Algum deles influenciou na sua escrita?

Tem muita gente nessa lista, de haver gostado\gostar de ler. Da adolescência lembro dos livros do Sidney Sheldon, Harold Robbins, Morris West, Stephen King, Agatha Christie, e por aí vai. Sem esquecer de mencionar Clarice Lispector, Mario de Andrade, Drummond e outros grandes.

Recentemente, participei de um grupo de leitura, com abordagem de um pouco da produção brasileira contemporânea, onde conheci uma série de autores sensacionais, com muita coisa boa, a exemplo do Michel Laub, Verônica Stigger, Milton Haltoum, Paulo Scott e segue a lista.

Também nesse mesmo tempo, conheci um pouco da obra da Luci Collin, conterrânea, de quem sou muito fã, e que tem uma escrita na qual me inspiro.

8 – Tem planos de lançar um livro solo?

Sim. Mas é um projeto de médio\longo prazo. Muita coisa ainda para se aprender e ser lapidada. Ainda estou no caminho do amadurecimento.

9 – Luciane Genez, a Revista do Villa agradece sua participação e deseja todo sucesso em sua trajetória literária. Para finalizar, deixe uma mensagem aos nossos leitores.

Primeiro, agradecer aos que estiveram lendo minhas linhas, e também pela oportunidade de poder falar um pouco sobre quem se é, e o que te faz seguir pelo caminho da escrita.

Depois, convidá-los a acompanhar meu trabalho no Facebook (https://www.facebook.com/lucianemariagenezdos.santos), ou ainda, na coluna Êxtase, blog Oceano Noturno de letras (entre marco de 20 à março 21) ou em outros novos lugares em que estarei. Nada ainda em definitivo estabelecido, só projetos de estar mais a vista e acessível.

Dizer ainda, o quanto se é apaixonante ter as linhas a vista dos olhos, quer lendo ou escrevendo, desbravando o mundo, conquistando-o um pouco a cada palavra tida para si mesmo.

Que estamos fazendo parte de um mesmo universo, e, que somos capazes de nos comunicarmos, se assim o quisermos. Precisamos de amor, empatia e livros. As palavras têm o seu poder, e eu acredito na beleza dessa força.

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