DOUGLAS DELMAR ENTREVISTA A POETISA PORTUGUESA GRAÇA CANHÃO

Graça Canhão nasceu em Faro, Portugal. Dona de uma personalidade livre e sonhadora, encontrou na escrita a melhor forma para expressar a realidade que vive e a fantasia que cria. Também é mãe. Possui um filho com necessidades especiais e assim descobriu o real sentido de cuidar e amar. Já possui três livros lançados e participou de diversas antologias poéticas. Atualmente, trabalha como cuidadora, mas sempre que a inspiração lhe visita, se faz poesia. 

“Nada me define, mas tudo me completa”.

Graça Canhão - Acervo Pessoal

1 – Como nasceu o seu interesse pela poesia. Teve o incentivo de alguém?

O meu interesse pela escrita surgiu na adolescência, quando comecei a estudar os autores portugueses propostos na disciplina de português. A poesia, mais concretamente, foi em 2015 e 2016, quando ia publicando no Facebook  e, um dos meus amigos, também autor, Ernesto Gomes, incentivou-me a participar num projecto com um poeta/editor brasileiro: António Ramos da Silva da Obra Prima Editora.

2 – Para criar poesia, é necessário que haja inspiração. Quais sentimentos te inspiram a escrever? Porque?

Sem dúvida. Sem inspiração, somos desertos sedentos de palavras. O amor, a esperança, a verdade, a justiça social, o preconceito e a indiferença, desconstruir ideias pré-concebidas. Porque, entendo que devemos ter um papel activo na construção não só de uma sociedade mais justa, mas também de uma humanidade mais humana, com as mesmas oportunidades para todos, consoante às suas capacidades. O amor, para mim, é o tudo do pouco ou nada que somos. Sem ele ficamos perdidos, sem direção.  

Livro O Verso que a Vida Em Mim Rimou - Acervo Pessoal

3 – Você lançou o livro de poesias O Verso que a Vida Em Mim Rimou. Fale-nos um pouco sobre sua obra. Qual foi a sensação ao ver seus versos estampados pelas páginas?

O Verso que a Vida Em Mim Rimou, de 2018, na realidade foi o terceiro. Anteriormente, em 2016, a Brisa Poética foi o meu primeiro livro. E em 2017, O Meu Sentir Lusitano, todos da Obra Prima Editora, com o editor António Ramos da Silva. A última obra tem uma escrita mais amadurecida. Noto uma evolução na estrutura das palavras e na exposição das emoções. Ver as nossas palavras impressas numa página de um livro já é emocionante. Quando se trata de um livro a solo, é a realização de um sonho que nunca sonhei, porque nunca imaginei semelhante coisa, e sinceramente é verdade, sinto uma eterna gratidão.

4 – Além de escrever, que outras atividades lhe apetecem? E tem projetos para um livro novo?

Gosto imenso de trabalhos artesanais. A arte, na sua diversidade é uma paixão. Um dia gostava de publicar um livro em Portugal, porque os meus três livros foram edições de uma editora brasileira sem representante no meu país. Tenho esse sonho por realizar, quem sabe um dia.

Graça Canhão - Acervo Pessoal

5 – Você desempenha funções de cuidadora informal. Conte-nos um pouco sobre essa atividade.

Sim, desde 2015 que sou cuidadora informal a tempo inteiro do meu filho, um jovem de 26 anos, portador do espectro do autismo, grau severo com déficit cognitivo. O cuidador está a serviço do amor, e por tanto amar, entrega-se sem limites a esta missão que é cuidar, uma função ainda tão desvalorizada no meu país. Somos invisíveis para a sociedade e para as instituições governamentais. No entanto, contribuímos para a riqueza dos cofres do Estado, porque trabalhamos a custo zero, sem horários, 365 dias por ano, 7 dias por semana, 24 horas por dia. É uma atividade muito desgastante, muito incompreendida pelos demais. Só quem cuida sabe o que é cuidar, e tudo gratuitamente, somente por amor.

Rasgo o tempo em palavras

E, pinto os dias com poesia

Numa tela colorida

Com sorrisos e dores

Letras pinceladas de vida,

Faço das horas trampolins

Voo e parto

Nas asas de algum pensamento

Mensageiro deste sentir

Que sonha sem abortar

Com uma nova alva

Onde viver seja felicidade

Numa roda incolor

De dignidade!



6 – A escrita fez alguma diferença em sua vida? Qual?

A escrita tem sido uma verdadeira terapia para mim, provavelmente tem evitado uma depressão. Escrever é o oxigénio da minha alma. Quando estou períodos sem o fazer, parece que asfixio o meu sentir, o meu eu. A palavra é a liberdade e a certeza que existo, que sou.

Livro Brisa Poética - Acervo Pessoal

7 – Quais autores gosta de ler? Algum deles influenciou na sua escrita?

Eu gosto muito de ler, e absorvo muitas temáticas, não apenas a poesia. 

A minha primeira paixão foi o meu querido Eça de Queiroz, precisamente por ser exaustivo nos detalhes. O nosso prémio Nobel, Saramago, é sempre um bálsamo.  Impensável não amar Fernando Pessoa, e a nostalgia da nossa Florbela Espanca. Gosto muito de ler os autores da actualidade, de tudo um pouco. Para mim existe espaço para todos. Adoro Pablo Neruda, Gabriel Garcia Marquez, Cecília Meireles, Carlos Drummond, Mário Quintana, Vinicius de Moraes, e tantos mais igualmente brilhantes e talentosos, porque para mim, nem os autores nem as palavras são demais. Porque todos somos únicos e com diferentes vivencias.

Acredito que tudo nos influencia. O que vivemos e o que lemos, somos um de um todo.

8 – Sua poesia contém uma energia positiva e reconfortante, sempre buscando expressar o melhor lado da vida. Como você se sente ao saber que suas palavras conseguem tocar e emocionar os leitores?

De uma maneira geral tenho uma atitude positiva perante a vida, mesmo que esta, por vezes, nos apresente desafios nem sempre fáceis de superar. Eu considero que viver já é um privilégio. Temos de ser gratos por cada dia que Deus nos concede, então o segredo será mesmo não desistir nem de nós, nem dos outros, acreditar sempre. O meu lema é: um dia de cada vez basta. 

No entanto sinto cada vez mais a responsabilidade da transmissão da mensagem, e as nossas palavras devem ter conteúdo e substância, deixando um rasto positivo, com rumo à verdade e à Luz.

Eu não consigo escrever uma palavra sem sentir. Cada frase, cada poema é um parto desta alma demasiada emocional, mas nem sempre tenho a percepção que toco ou emociono os leitores, a não ser quando eles se manifestam, mas fico estupefata porque não me considero assim. Sou apenas uma pessoa que gosta de palavra

Livro Meu Sentir Lusitano - Acervo Pessoal
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