Rodolfo Abreu apresenta: A mágica da Restauração Artística

O trabalho de restauração artística é fascinante. Quando bem executado, é capaz de trazer vida a obras de arte seculares, devolvendo as cores originais e revelando detalhes antes apagados pelo tempo.

Como é muito complexo, só deve ser realizado por especialistas e envolve muitos fatores até se decidir que técnica e que materias devem ser utilizados. Não é exagero dizer que cada obra de arte terá seu tratamento individualizado, depois de uma analise profunda das condições e das técnicas.

Só para citar um caso emblemático de uma “restauração” desastrosa feita por leigos, lembro da intervenção “bem intencionada” da espanhola octagenária Cecília Giménez. A idosa decidiu repintar a face apagada de Jesus no afresco “ecce homo” da igreja católica de Borjia (próximo a Zaragoza). O trabalho desfigurou o original e acabou virando um “meme” de internet.

As três versões do afresco “ecce homo” de Jesus. A partir da esquerda, a versão original de Elías García Martínez, um pintor do século XIX; uma versão deteriorada do afresco; a versão restaurada por Cecilia Giménez. Crédito: Agence France-Presse - Getty Images

Quando e como se deve fazer restauração de obras de arte?

Com o passar do tempo, a museologia desenvolveu técnicas diversas e protocolos, tanto para conservação preventiva, quanto para restauração. Somente uma equipe qualificada pode decidir se é possível realizar restauração e quais técnicas deverão ser aplicadas.

Ações de conservação são realizadas como rotina para manter o acervo mais original possível e evitar sua deterioração. Basicamente são cuidados que envolvem higienização e proteção de fatores degradantes como excesso de luz, umidade, variações de temperatura e exposição a pragas. Já as ações de restauração somente são realizadas depois de profundo estudo da obra, do tipo de material, pigmentos de tintas, tipos de danos presentes na obra, entre outros fatores.

A hipinotizante remoção de verniz

ma das técnicas mais populares de restauração é a remoção da camada de verniz colocada sobre pinturas a óleo para sua proteção. Com o passar dos anos o verniz escurece, tornando-se uma camada amarelada (muitas vezes amarronzada), mudando completamente as cores e atrapalhando a visualização de detalhes.

Obviamente, não há uma fórmula ou um produto comercial removedor de verniz de pinturas que se aplique a todas as obras. As soluções utilizadas são desenvolvidas pelos técnicos após análise dos quadros e das tintas originais. São de base solvente e dissolvem o verniz amarelado, sem interferir ou corroer as os pigmentos originais.

Os vídeos das restaurações bem feitas são hipinóticos. Impossível não ficar impressionado e sentir satisfação ao assisti-los. Ao aplicar a solução nos quadros e remover a velha camada de verniz, imediatamente se percebe as cores originais que o pintor utilizou na criação da obra. Em muitos casos também é possível observar detalhes antes cobertos por camadas escurecidas, revelando informações e até mesmo as técnicas de pintura utilizadas.

Um dos especialistas nessa técnica, o britânico Philip Mould, documenta seus trabalhos nas redes sociais. Na pintura de 1618, sem título e de autor desconhecido, pouco se sabe sobre a “senhora de vermelho”, a não ser que tinha 36 anos quando foi retratada. A restauração, com a remoção do verniz, revela sua pele alva, seus cílios, assim como os detalhes do vestido, os bordados das mangas e a cor vívida da cortina que serve de pano de fundo…. todas essas informações permitirão aos historiadores investigarem a origem do quadro britânico de mais de quatro séculos.

A pintura inglesa de 1618 antes e depois do processo de restauração por Philip Mould
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