Cláudia Pamplona: A Importância da Segurança Pública e o Mundo dos Negócios – Parte II

Na coluna de hoje, Cláudia Pamplona  traz  a série “A importância da segurança pública e o mundo dos negócios”. O foco agora são importantes discussões e polêmicas sociais, sobre segurança pública,  que afetam sensivelmente os cidadãos,  sociedade em geral e  o seu  desdobramento para a economia, especialmente o setor de turismo.

Mais uma vez respondendo os questionamentos da Revista do Villa o delegado Fernando Veloso é quem responde nossas perguntas e dúvidas mais evidenciadas com relação à segurança pública. O que para nós é uma honra, por ser o delegado  Veloso uma das mais importantes autoridades brasileiras neste assunto. 

É importante perceber como situações comuns ao nosso “dia a dia” podem se tornar acontecimentos indesejados para as nossas vidas. E como, muitas vezes não estamos atentos para estes fatos.

Claudia Pamplona: Com relação à contratação de seguranças particulares, para pessoas físicas, que cuidados devem ser tomados?

Fernando Veloso: Esta questão não passa pela solução da segurança pública. Estamos falando de um grupo  de pessoas que por algum motivo especial necessitam ter mais cuidados e proteção. Pessoas que precisam transportar valores altos ou que estão ameaçadas e vulneráveis por alguma situação específica na qual o Estado  não tem por obrigação direcionar uma segurança especial.

Neste caso, primeiro  é importante entender  qual a demanda destas pessoas. Normalmente, o segmento de segurança privada é formado por escoltas e seguranças particulares, lógico que esta oferta se dá em diversos níveis. É necessário identificar a real necessidade da pessoa. O importante é entender que a contratação de pessoas ou empresas,  para realização deste tipo de serviço  tem que ser feita com critério, constatando-se se  estão devidamente regularizadas para trabalhar. 

A regularização  destas empresas, que compete a Polícia Federal,  implica no cumprimento de muitos pré-requisitos e normas previstas em lei. Este é um serviço que demanda alta qualificação por parte dos seus agentes ou colaboradores que são habilitados e  com alguma periodicidade passam por uma reciclagem (novos treinamentos). Caso contrário, o contratante poderá ficar exposto a diversos tipos de problemas, inclusive a sua segurança pessoal. O desdobramento de uma ação de força por uma pessoa que não está apta para exercer a função pode gerar vítimas, inclusive não diretamente envolvidas na ação. O agente na tentativa de atingir um assaltante, por exemplo, pode acabar ferindo outras pessoas próximas que nada tenham haver com o início do evento. 

Na prática, o que se deve ter como princípio é que  não devemos contratar nenhum tipo de serviço clandestino.

Claudia Pamplona: Considerando o potencial do Turismo no Rio de Janeiro, você acredita que se tivéssemos uma política de segurança mais eficaz, teríamos um estado economicamente melhor?

Fernando Veloso: Sim, sem dúvida nenhuma. Posso usar o exemplo de uma experiência quando assumi a  DEAT-Delegacia Especializada no Atendimento ao Turista, que passou a Delegacia Especializada no Atendimento ao Turismo, em 2008, deixamos de atender somente ao turista e passamos a atender o setor de turismo. Foi uma mudança muito importante porque o Trade turístico estava muito insatisfeito com a polícia, mas conseguimos reverter esta questão. Na época, tínhamos recorrentes assaltos na linha Vermelha e isto aumentava cada vez mais.  Quando os turistas deixavam o aeroporto, as quadrilhas interceptavam os ônibus que os levavam  no trajeto do aeroporto para os hotéis. Em alguns casos os ônibus eram desviados para outros lugares para que a ação dos criminosos pudesse ser facilitada. O objetivo era roubar: euros, dólares, cartões, objetos pessoais de valor entre outros pertences. Alguns turistas retornavam para o aeroporto e cancelavam as reservas e a  programação que iriam fazer no Rio. Isto estava gerando um prejuízo para o setor de turismo e também outras atividades afins, no Rio de Janeiro. Acrescentando ainda a repercussão negativa internacional não só reportada pelas vítimas como também pela imprensa. Ou seja, a imagem da segurança pública  do Estado estava manchada no cenário internacional e  o setor de turismo  bastante insatisfeito com a polícia do Rio de Janeiro.

Como a nova DEAT atuou  nesta questão?

O primeiro passo  que demos foi realizar investigações para desmontar as quadrilhas  e tivemos um excelente resultado. Prendemos muita gente e o negócio dos bandidos  deixou de ser interessante. Acabamos com aquele tipo de ocorrência.

Solucionada esta  questão, partimos para o segundo passo que foi a reconquista do setor de turismo, onde para isso nos aproximamos das instituições que representam o setor, principalmente a ABIH, nesta época presidida por Alfredo Lopes. E partimos para trabalhar em outra questão criminal vinculada ao turismo que eram os golpes com cartões de crédito através de fraudes e estelionatos, alguns tinham o suporte dos próprios colaboradores dos hotéis entre outros de serviços vinculados aos estabelecimentos que atendem o turista.

Na prática destes crimes os golpistas aliciavam colaboradores (funcionários dos hotéis) para que estes dessem trânsito a parte da operação da atividade criminosa. Por exemplo: trocavam as máquinas de cobrança do hotel por máquinas dos criminosos. Neste ato, o colaborador só precisava fingir que não estava vendo a troca das máquinas e, para isso, recebiam na época R$ 1.000,00 aproximadamente, um valor interessante se não fossem pegos em flagrante. Pois sendo, responderiam por associação ao crime, podendo ser apenados em 2 ou 3 anos de detenção.

Com treinamentos promovidos entre as duas instituições: ABIH e Polícia Civil, foi possível transmitir as informações dos riscos que os criminosos estavam levando aos colaboradores. E  alguns já estavam envolvidos nestas práticas criminosas. Ao mesmo tempo, criamos um canal de comunicação entre os colabores e a polícia que passaram a informar para polícia quando este tipo ocorrência iniciava na sua unidade de trabalho. Logo, a polícia tinha tempo para agir. E este era o cerne da questão que antes fazia com os criminosos ficassem  eufóricos com relação ao tipo de crime, tinham tempo pra agir. Foi relevante também para êxito desta estratégia, a integração  da polícia militar através do batalhão de apoio ao turismo que também fizeram parte de todo este processo.

Outro fato muito importante que colaborou para o enfraquecimento destas práticas criminosas, junto aos turistas,  foi buscar a interação  junto ao Ministério Público dando condição da Produção Antecipada da Prova. Isto porque o turista vitimado muitas das vezes não queria se envolver em um processo criminal posto que tinha seu retorno marcado e poucos privilégios se colaborassem com curso de um processo.  Com a impossibilidade de comparecimento da vítima os infratores acabavam não sendo condenados. E isto, era um estímulo para o crime. Foi outro grande passo que demos junto a estas investigações, tornando-as conclusivas.

Mas, a questão é que toda esta integração que se deu na segurança pública, das polícias, MP e representantes do setor não foi institucionalizada e com a mudança dos governos, de 4 em 4 anos subsequentes,  tudo pôde tomar um novo formato e novamente perdemos todo o trabalho que investimos, tempo e estratégia para implantar. Tendo a perder  não só a segurança pública,  como o setor de turismo e consequentemente a economia do estado.

Existe algum período do ano devemos estar mais atentos à ação de criminosos?

O que pode se dizer é que com relação a crimes relacionados ao turismo ocorrem com muita incidência nos período de férias e grandes eventos: Carnaval, Réveillon e Rock in Rio. Nestas ocasiões golpistas do Brasil inteiro se direcionam para o Rio de Janeiro para praticar estes atos, nos quais têm expertise.

Para que se possa entender melhor a diferença de atender ao turista para atender ao setor de turismo. Digo: Um Hotel pode estar sem único turista dentro mas acontece algum crime, este será tratado pela Delegacia de Atendimento ao Turismo.

Porque algumas pessoas se sentem mais seguros que outros em determinados lugares?

Outro fato que é muito importante o cidadão entender é a diferença entre sensação de segurança e segurança. Vou mencionar um episódio para explicar: Fazíamos reuniões com uma determinada comunidade e vínhamos tendo muito resultado com o nosso trabalho naquele lugar. Isto é, estávamos com um bom nível de  controle naquela área , provendo segurança e a comunidade satisfeita e trabalhando. Entretanto, em único dia um turista se expôs no local e foi vitimado. Não necessitando agora de maiores detalhes. Toda aquela segurança que vinha sendo mantida por longa data foi afetada e por um  fato que na realidade aconteceu com fortes indícios que a vítima colaborou com o crime,  a sensação de segurança foi fortemente atingida. E quando fomos fazer a reunião comunitária, fomos tratados com muita  hostilidade, prejudicando a continuidade dos nossos trabalhos. Essa distinção é importante. O cidadão precisa entender mais isto tudo, o que foi abalado naquele lugar não foi a segurança e sim a sensação de segurança.

Claudia Pamplona: Existe algo que te inquiete com relação à política de segurança pública atual?

Fernando Veloso: O que sempre vai me inquietar é o desconhecimento da sociedade de  como realmente acontecem os fatos.  A falta de conhecimento  impede que a sociedade participe da política da segurança  e seja atuante e não manipulada.

O cidadão tem que se inteirar dos seus direitos. A carência crônica de recursos não só humano como material é um fato que a sociedade poderia cobrar.  A constituição de 1988 previa um número de policiais igual a 24.000 homens na polícia para cada estado brasileiro e temos hoje menos que 10.000.  Evidente que isto implica na viabilidade da sua segurança pessoal e seus  negócios. 

Outra discussão importante é qualificar a Guarda Municipal para trabalhar em pequenos crimes, fraudes e furtos, por exemplo. As polícias Civil e Militar estão assoberbadas de casos maiores. Acredito que a Guarda Municipal pode melhorar a sua participação na segurança pública se qualificada pra tal função.

A última coisa que me incomoda muito é as pessoas acharem que os policiais são heróis. O policial não é herói. É importante saber que o policial sofre, morre, tem uma família que pode ficar órfão e até mesmo desassistida em alguns casos. Portanto, a figura do herói  não cabe.

Finalizando esta coluna com informações muito importantes, mas nem tão prazerosas, reforço a fala do Delegado Fernando Veloso que entende que somente a sociedade pode atingir definitivamente e mudar o padrão da segurança pública e ainda tentando ser mais claro o Delegado disse: “Precisamos de trabalhos como este que você está fazendo para que o cidadão, a sociedade,  comece a pensar e entender a sua importância para que possamos avançar nos nossos padrões de segurança. Por isso, que eu invisto o meu tempo e  não deixo de atender os veículos de informação. Não existe outro caminho“.

Na próxima e última coluna o Delegado Fernado Veloso fala um pouco sobre a polêmica das drogas e uso de armas numa visão muito diferente do que normalmente é proposto para a sociedade de uma maneira geral. 

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