Ricardo Schöpke apresenta crítica do filme: “Paraíso” de Sérgio Tréfaut”, exibido no encerramento do IndieLisboa 2021

Cotação * * * * * 

Excelente

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Ótimo               

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Bom

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Regular

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Ruim  

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“Paraíso”, filme do realizador brasileiro, português e francês Sérgio Tréfaut está a fincar os seus pés, definitivamente, na história da cinematografia brasileira, e mundial, ao se apresentar no lotado Grande Auditório do Culturgest no dia 6/9 às 21h:00, no encerramento do IndieLisboa 2021. O filme foi apresentado em caráter hors concours pois Tréfaut é um dos cineastas mais premiados em edições do IndieLisboa; sendo considerado o Melhor Filme Português em 2004 com “Lisboetas”, em 2014 com “Alentejo, Alentejo” e em 2016 com “Treblinka”. Contando com a ilustre presença do Presidente da República de Portugal Marcelo Rebelo de Sousa, e da Ministra da Cultura Graça Fonseca; entre muitos outros nomes importantes da cultura nacional e internacional, Tréfaut estava muito emocionado. Ao fazer um breve discurso, ressaltou com bravura, e elegância, a dificuldade em realizar um filme em plena pandemia, e o momento trágico em que vivemos no Brasil ao mencionar o desgoverno atual, sem precisar citar o nome daquele que é o grande responsável pelo genocídio em nosso país. O mundo inteiro tem ciência do que está a acontecer, e quem é o seu principal responsável. 

Para entendermos a dimensão de tudo o que aconteceu iniciemos pelo conceito de “terra devastada” em que se encontra o Brasil neste momento. Um país destroçado por um corrupto, golpista, apologista da ditadura e da tortura; onde a cultura e a imprensa são perseguidas sistematicamente por uma poderosa máquina de guerra: as fake news no whatsapp e twitter; e os orçamentos, e verbas da cultura, são usurpados dia após dia. Onde as instituições culturais estão aparelhadas por militares, negacionistas, delirantes e incompetentes; e assim a ordem do dia é catapultar projetos ideológicos, e todos os outros – principalmente os antifascistas -, serem banidos ou censurados. Tudo isto dito já seria mais do que suficiente para nos sentirmos muito orgulhosos em vermos no grande ecrã uma obra de cinema que retrata um pedaço de nossa terra, e de nossa gente; quando estamos nós do outro lado do atlântico; porém é mais, muito mais do que isso.

“Paraíso” de Sérgio Tréfaut é a antítese do Brasil de hoje, e podemos defini-lo com a frase: “Esforço-te para te esquecer, e sem querer lembro-me”; onde este paraíso – das expressões das artes, das serestas, das músicas -; se contrapõe ao inferno da vida social e política brasileira. São tantas as camadas que compõem o filme, são tantos os sentimentos e pensamentos que ele suscita em nós. É um filme que fala de gente, do ser humano, do povo. De dores, sofrimentos, desejos, frustrações e realizações; porém de uma maneira muito digna; pois o trágico é o que está ao redor deles e que irá se apresentar como uma pandemia devastadora e um genocídio brasileiro. No momento em que o filme era realizado, se desenhava como um retrato do passado que aponta para um futuro em busca da socialização, de inclusão social e emocional, e a razão do existir através da poderosa música dos maiores cantores e compositores de nosso país. “Todos os dias ao cair da tarde, mulheres e homens quase centenários reúnem-se para cantar antigas canções de amor nos jardins do Palácio do Catete – Rio de Janeiro. São sobreviventes de um Brasil que desaparece. As suas vidas e os seus cantos são subitamente interrompidos pela pandemia de coronavírus. Este filme é uma homenagem à beleza de uma geração dizimada” – assim nos diz a sinopse do filme. É imensamente tocante podermos assistir, acompanhar e nos deleitar com as lentes suaves e discretas de Tréfaut – que retorna ao Brasil depois de 40 anos -, e que entra nos recônditos de cada uma daquelas vidas, as suas histórias – que beiram ao folclore -, e o bom humor do povo brasileiro e carioca, que consegue sorrir das suas próprias cicatrizes. E é justamente a oposição destes dois mundos, o que está no filme, e o que soubemos no futuro, é que o transforma em um dos mais preciosos documentos de nossa história atual. O que já era por demais grandioso, a pandemia o tornou o primeiro filme brasileiro a ser realizado neste período funesto, e exibido em um ecrã em todo o mundo. Em um novo mundo, em um mundo em construção, em um novo normal; onde só podemos entrar em uma sala de cinema (em Portugal) com máscaras, com álcool em gel, com metade da sala ocupada com cadeiras intercaladas e que saíamos fila a fila. E sendo mais doloroso ainda em pensar que aquele país, aquela cidade – ali, retratada no filme -, não conseguiu ainda voltar as salas de cinema, e que muitas daquelas “personagens” que vemos no filme foram desassistidas pelo deficiente acesso à saúde brasileira, onde algumas delas perderam as suas vidas. Suas existências foram ceifadas por um monstro desumano; e que esperamos possam encontrar algo – aos que acreditam -, como a libertação deste sofrimento e o iniciar a uma nova esfera transcendental que possa lhes oferecer algo próximo a um paraíso. 

Por tudo isso, o realizador Sérgio Tréfaut, que já possui uma carreira altamente bem-sucedida, entra definitivamente com “Paraíso”, na galeria de filmes essenciais e que ficarão gravados para sempre na história da cinematografia brasileira e mundial. E que fique bem claro que o filme não está sendo impulsionado apenas por causa dessa trágica época vivida, mas sim, por todas as qualidades que ele possui como realização. Todo o filme apresenta uma qualidade superior, desde a imensa sensibilidade da escolha do argumento e da realização, assim como as qualidades técnicas de montagem de Sérgio Tréfaut, Bianca Oliveira e Mário Espada, o som de João Henrique Costa e a fotografia de Léo Bittencourt, Luis Abramo, Camila Freitas e Carlos Baptista. É um deslumbramento podermos assistir cantores amadores – em sua grandíssima maioria -, interpretarem de maneiras muito peculiares as músicas que escolhem para cantar. E cada uma delas, é também texto, é também dramaturgia que conta um pouco de quem são elas. Ao somarmos todas as músicas, podemos dizer claramente que conseguimos contar quase que oitenta anos da história de nosso país, seus cantores e nossos costumes. Como pode ser visto pela seleção de músicas cantadas no filme: Carinhoso de Pixinguinha e Braguinha, Outra Vez de Isolda Bourdot, Nervos de Aço de Lupicínio Rodrigues, Ouça de Maysa, Não Deixe o Samba Morrer de Aloísio e Edson Conceição, Gotinha de Luz de Gercina Neném, Izaura de Herivelto Martins e Roberto Roberti, Onde Anda Você de Vinicius de Moraes e Hermano Thomas da Silva, Iracema de Adoniran Barbosa, Madalena foi pro Mar de Chico Buarque, Dez Anos de Rafael Hernandez Marin, Fogo e Paixão de Rose Marie, Ciranda da Rosa Vermelha de Alceu Valença, Ronda de Paulo Vanzolini, Mulher de Flávio Cordeiro Candreva, Devolvi de Adelino Moreira, Gosto que me Enrosco de Sinhô, Quantas Milhas de D. Farias, A Flor e o Espinho de Nelson Cavaquinho, Carlos Zéfiro e Guilherme de Britto, SOS Paixão de Charlles Bonfim, Mauricinho e Wlad, Chuvas de Verão de Fernando Lobo, Tu me Acostumbraste de Frank Domingues, Solamente una Vez de Agustín Lara, Feitiço da Vila de Noel Rosa e Vadico, A Volta do Boêmio de Adelino Moreira, A Noite do Meu Bem de Dolores Duran, Vingança de Lupicínio Rodrigues e Camisa Listrada de Assis Valente.

Sim, são estes, os repertórios de suas vidas – que os alimentam, que falam de seus amores, dores, encontros, desencontros, alegrias, comemorações, uniões -; e cada uma daquelas dezenas de pessoas dariam também dezenas de filmes. Todos são muito especiais, pois são únicos. Foi muito gratificante poder conhecer as histórias, músicas e palavras de cada um deles, que vão dos oitenta aos cem anos. Difícil não se emocionar com Cleuza – que vive a sua vida pelas músicas que canta por dentro e por fora -, com a graça de Beth, com o bom humor de Nicola e sua hilária frase: “eu não suporto gente velha”, com a lindeza da centenária Ilka – que cantou em um trio e tocava violão -, com o divertido casal de noivos Marisete e Fernando, das histórias de fantasmas e de vida de Alice, da bonita voz em espanhol de Lavínia, do bandolim do Rubinho do Bandolim, entre muitos outros. 

Gostava de fazer um destaque para lá de especial a Gercina Neném. Ela me arrebatou por completo; desde a sua primeira aparição no filme. Sua força, determinação, pungência, potência vocal e afinação. Ela é uma grande cantora brasileira, que merece ser mais reconhecida, lembrada e reverenciada por todos os brasileiros. Torço para que “Paraíso” tenha uma grande carreira nos cinemas de Portugal, Brasil, França; e em todas as partes do mundo; e que o mesmo possa ser ovacionado de pé, pelos mesmos três minutos; assim como o foi por nós, e pelo Presidente da República de Portugal e pela Ministra da Cultura. 

Ficha Técnica 

Argumento e realização Sérgio Tréfaut 
Som João Henrique Costa
Fotografia Léo Bittencourt, Luís Abramo, Camila Freitas e Carlos Baptista
Produção executiva Veridiana Cardoso  
Montagem Sérgio Tréfaut, Bianca Oliveira e Mário Espada
Mistura de som Bruno Tarrière  
Grading e efeitos Gonçalo Ferreira, Graça Castanheira e Irmã Lúcia
Produtores Sérgio Tréfaut, Serge Lalou e Clarie Dornoy
Produção FAUX (Portugal) Les Films D´ici (França) 
Produtor associado Refinaria Filmes (Brasil)
Crédito das fotos Acervo FAUX

Serviço

IndieLisboa Encerramento

Dia 06/9/21 às 21h:00 no Culturgest- Grande Auditório

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