Ricardo Schöpke entrevista o realizador brasileiro, português e francês Sérgio Tréfaut, que entrou em cartaz no dia 16.9 com “Paraíso”, em todo o circuito de exibição de Portugal. Parte 1.

Encontrei-me com o consagrado realizador Sérgio Tréfaut, em uma tarde absolutamente agradável, no Café da Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, onde ele me concedeu uma entrevista exclusiva. Nela, busco desvendar quem é esse ser humano e artista tão feérico. Difícil não se deixar levar pelo seu ótimo papo e pelo encantamento que produz a sua história de vida, e toda a sua trajetória no universo da arte cinematográfica. Por conta disto, essa pauta será dividida em três partes. 

Entrevista Sérgio Tréfaut

…(   )…Eu nasci no Brasil e deixei o país quando era adolescente. Voltei após mais de 40 anos de ausência. Procurei reencontrar o que ficou de um país que eu guardava na memória. Filmei nos jardins do Palácio do Catete. Pouco antes da pandemia. Sede do governo brasileiro até a construção da nova capital, mais conhecido como local fatídico onde o presidente Getúlio Vargas pôr fim à vida, o Palácio do Catete é hoje Museu de República. Até março de 2020, costumava receber nos seus jardins uma população encantadora de náufragos. Pessoas por quem o tempo não parecia ter passado, verdadeiros sobreviventes de um outro Brasil. As personagens deste filme são simultaneamente anónimas e verdadeiras estrelas. Brilham com uma luz especial, que atravessa gerações. Reuniam-se todos os dias para cantar e partilhar o seu amor pela vida. Tinham entre 80 e 100 anos e cantavam para ser mais felizes. Algumas ainda cantam. Outras foram levadas pela pandemia. Paraíso é o retrato de um país que se apaga…(   )… Sérgio Tréfaut

Ricardo Schöpke: Você nasceu no Brasil, aos 10 anos foi viver com a sua família na França. Filho de alentejano e mãe francesa. Seu pai foi editor no Estado de São Paulo, e por causa de seu irmão ser torturado e quase assassinado; vocês saíram do Brasil. Passou um ano na França e veio para Portugal completar os seus estudos no Liceu Francês. Aos doze anos, três países diferentes, três culturas diferentes; ainda que todas tenham a sua raiz no latim. Quem é Sérgio Tréfaut? Como você se define? 

Sérgio Tréfaut: Eu me defino muito simplesmente como um vira-lata. Um vira-lata. E que tenho consciência que em qualquer destes três países eu sou alguém que não é totalmente verdadeiro. Do ponto de vista emocional eu me sinto muito mais brasileiro, mais é um brasileiro que eu sei que é diferente de muitos outros brasileiros, e dos brasileiros que passaram a vida inteira no Brasil e que tinham um pai e uma mãe brasileiros. Logo aí, é uma coisa diferente, mas como essa criação da identidade é uma coisa muito para além do explicável, em muitas coisas, o lado afetivo musical, dos afetos da infância, foi o que me fez. Cássia Eller fala: “Meu pai é Chico Buarque”. Mas eu não tenho a menor dúvida disso. Que o meu pai é Chico Buarque, que a pessoa mais importante da face da terra, pra mim, é a Maria Bethânia. O meu maior luto, na face da terra, será um dia – ao menos que eu morra antes -, é a Maria Bethânia. Não tenho possibilidade de dizer de outra maneira. Aquilo que faz com que “eu” seja “eu”, é um patrimônio musical brasileiro, de alguma maneira. E esse lado do patrimônio musical pra mim é fundamental, não é só para mim…é aquilo que une as pessoas do norte do país, ao sul do país. O filme começa com “Carinhoso” que é o outro hino do Brasil, e que não tem brasileiro que não saiba cantar “Carinhoso”, de alguma maneira, não é? 

Entrevista Sérgio Tréfaut

Ricardo Schöpke: Um cidadão brasileiro, português ou francês?

Sérgio Tréfaut: Então, tem esse lado. Mas por outro lado eu sei que eu sou um falso brasileiro, eu sei que tendo tido toda uma educação acadêmica secundário e superior francesa…faculdade e Liceu…e tendo lido tudo em francês… Aos onze anos eu não lia francês, falava; e depois foi a língua dos meus estudos, sempre. 

Ricardo Schöpke: Como é ser tão múltiplo? 

Sérgio Tréfaut: O meu pai não era um típico português, mas a minha mãe tinha qualquer coisa de muito francesa em algumas coisas. Na sua absoluta frontalidade, ou seja, nada brasileiro, os brasileiros não têm naturalmente aquela frontalidade. A minha mãe era de uma frontalidade desconcertante, de dizer as coisas mais inesperadas, porque as coisas eram o que eram, e não eram outra coisa. Não é um mais ou menos, e nisso, eu tenho uma cultura francesa, no qual eu cresci também, e depois vivi em Portugal a maior parte da minha vida. Eu sei que no Brasil alguns dos meus amigos acham eventualmente que eu sou português, outros não acham. São umas coisas assim. Mas isso não me importa, se eu nasci português, se eu nasci francês. “Caguei” para isso.  Olha, não tive nunca aqui a necessidade disso. Tenho aqui amigos brasileiros, tenho amigos franceses, mas viver numa comunidade, que chamam de os experts, é uma coisa que eu nunca consegui. Ou seja, nunca me integrei nas comunidades brasileiras de churrasquinho aqui. “O que é que eu estou fazendo aqui, meus Deus do céu”. Na França eu tive um pouquinho nas comunidades latino-americanas quando eu era criança. Cheguei do exílio e eram os brasileiros, os chilenos, os argentinos. Existia esse universo. Eu vivi nesse universo. Quando era na faculdade, já menos. Era uma coisa assim nada, quase. E no Brasil não tem qualquer comunidade portuguesa, nem qualquer comunidade francesa, são meus amigos do Brasil. Tal como aqui. 

Ricardo Schöpke: Essas questões lhe permeiam?

Sérgio Tréfaut: Vivi dois terços, ou três quartos da minha vida em Portugal. Onde eu sempre tive como sentimento interno de que não precisava explicar pra ninguém que eu era português, porque eu era. Nunca precisei, ou seja, nunca me identifiquei com os brasileiros aqui. No sentido de necessidade de integração. Tive um problema, não um problema, tive um conflito imediato com os filhos da mulher do meu pai, que não eram filhos dele. Quando eu tinha nove anos e vim passar as férias aqui, pois morava em Paris e tinha que explicar como dizia “ele” e “ela” (em fonética portuguesa), porque que eu vou dizer “ele” e “ela”, se toda a gente entende se eu digo ele e ela. E nunca na minha cabeça a questão fonética ficou como uma falta de vocabulário que as pessoas não entendam. Também eu não digo água sanitária, eu digo lixívia, se eu for em uma loja, e assim por diante. Essas coisas. Eu não digo um ônibus, eu digo um autocarro, mas as vezes me sai também por um hábito, pois as coisas nasceram assim. Mas foi onde eu vivi três quartos da minha vida e existe uma forma de construção profissional minha que foi feita aqui. Tudo o que eu fiz foram filmes de produção portuguesa, em um universo português, e não é outra coisa. Não é brasileira, não é francesa. Tenho coprodução com a França, tenho coprodução com o Brasil, mas a base é Portugal. E a minha facilidade de integração é aqui. Eu pego um telefone e falo com quem eu precisar, no país. Eu sei que é uma forma de reconhecimento. 

Entrevista Sérgio Tréfaut

Ricardo Schöpke: Na França, Sourbonne, você se formou em filosofia e porque não seguiu na França? 

Sérgio Tréfaut: Aquela necessidade de sair de casa, que você tem 17 anos e quer ser independente, me levou ao lugar onde eu tinha condição de começar a estudar, e eu não sou de famílias que poderiam pagar os estudos e então eu tinha uma bolsa, e eu trabalhava, e a França era onde eu tinha estudado, era onde eu poderia fazer a minha vida em Paris, pronto. Nos primeiros anos de Paris, foi de enorme felicidade. Fiz imenso amigos, que são os meus grandes amigos ainda hoje, brasileiros. Foi aí que eu fiz a minha grande comunidade de amigos brasileiros, em Paris. Olha, eu estava dizendo mentira, na verdade foi em Paris. Em Paris eu fui parar na casa de um grande amigo do meu pai que era o Cláudio Abramo, que você conhece, e depois me apresentou amigos dele que são os Pedrosa, Vera Pedrosa, filha do Mário Pedrosa. E eu sou amicíssimo dos netos e conheci ainda muito bem a Vera, e cheguei a morar lá em casa. Depois outra amiga minha em casa de quem eu morei no Rio de Janeiro, era uma colega de faculdade em filosofia, Cristina Franco Ferraz, que eu conheci lá. Mas não era uma comunidade, conhecia dois ou três brasileiros, não era uma coisa permanente, não era uma estrutura. Aconteceu também que eu conhecia portugueses, a Maria de Medeiros, com quem eu fui para Paris, e outras pessoas com que eu fui para Paris e que são amigos de infância, daquela época. Mas não vivi no meio dos experts brasileiros ou portugueses. Nunca vivi assim. 

Ricardo Schöpke: Por que escolheu Portugal? Ou foi Portugal quem o escolheu?

Sérgio Tréfaut: E por que eu não fiquei na França? Eu não fiquei na França porque a felicidade do primeiro e do segundo ano, da sensação de liberdade, foi pouco a pouco, no início, nos primeiros três anos, mas depois rapidamente se desvanecendo e eu comecei a sentir uma sociedade onde as condições humanas não me interessavam nada, onde a cultura literária e cinematográfica, me interessa, mas as relações humanas não me interessavam nada. Não existe uma relação entre duas pessoas, para mim, quando elas conversam parece que elas falam de um assunto. Existe aqui uma coisa (faz o gesto de dois pontos que se cruzam, em vertical, ao alto), e aqui, essa relação não existe (faz o gesto de uma linha mais direta, em horizontal). Existe a relação com o assunto. Eu depois tenho amigos franceses e pessoas que eu admiro loucamente, mas a cultura francesa não é uma cultura com a qual eu me identifique. Se me oferecessem morar em Paris, nunca iria morar em Paris e quando eu terminei a faculdade me ofereceram de trabalhar, em Paris eu não tinha perspectiva nenhuma de trabalho. Vim ser assistente de direção em Lisboa, em teatro e coisa assim, e eu vim. E sabe aquela coisa que um vai atrás do outro? Em todo esse período, seja em Portugal na adolescência, seja na França numa espécie de primeira juventude, seja em Portugal mais tarde, o meu sonho sempre foi voltar ao Brasil. Sempre, sempre, sempre…eu sonhava com o regresso ao Brasil, que eu não podia, pois não tinha meios e meus amigos iam passar férias no Brasil e eu inventava sempre que eu ia passar férias no Rio, eu não tinha como, não tinha meios. Quando eu estava no quarto ano de faculdade, eu consegui pedir um empréstimo bancário e eu arranjei dinheiro para voltar ao Brasil onze anos depois. 

Fim da Parte 1

Serviço: 

Fotos: Genison Oliveira e Benita Prieto.

O filme estreia em todo o país, em Lisboa, Almada, Cascais, Coimbra e Porto:

– Cinema Ideal

– Cinema Medeia Nimas

– Cinemas UCI El Corte Inglés

– Cinema City Alvalade

– Cinemas NOS Amoreiras

– Cinema da Villa Cascais

– Cinema Trindade

– Cinemas UCI Arrabida

– Cinemas NOS Alameda Shop & Spot 

– NOS Alma Shopping

Speak . Comunicação & Design

Débora Pereira

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