Ricardo Schöpke entrevista o realizador brasileiro, português e francês Sérgio Tréfaut. Parte 2.

Ricardo Schöpke: Como foi o seu primeiro, e breve, contato com o Brasil dez anos após a saída forçada?

Sérgio Tréfaut: Saí com 10 pra 11 e voltei com 21 para 22. Voltei não, fui. Fui passar dois meses. Tive uma relação absolutamente péssima com São Paulo porque eu tinha depois crescido em um universo de cidades. Paris. Lisboa. Cidades com espírito de urbanismo normal e São Paulo me horrorizou. Achei muito inóspito e as relações familiares também não foram fáceis. E por questões familiares, e de amizades, eu fui passar três semanas em casa de uma amiga dos meus pais que morava em Copacabana, e que era uma pessoa maravilhosíssima, que era a Berta Ribeiro, ex-mulher do Darci Ribeiro, que era uma grande antropóloga. E não só era uma pessoa que eu achava maravilhosa, como morar em Copacabana, naquele bairro simultaneamente decadente, a beira-mar, e tudo aquilo; eu me apaixonei pelo Rio de Janeiro e achei: “essa cidade é feita para mim e eu sou feito para essa cidade”. Aquele hedonismo me entrou nos poros, de tal maneira que eu nunca mais achei outra coisa até hoje! Não para ser o único lugar do mundo, mas as dez cidades que eu mais gosto no mundo é Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro… 

Ricardo Schöpke: Assim, nos dias de hoje, onde é que o Sérgio Tréfaut escolheu para viver?

Sérgio Tréfaut: Hoje em dia eu não vivo em Copacabana e nem viveria em Copacabana. Moro em um lugar em que eu gosto muito mais, que não tem carro, que não é barulhento, moro numa zona de Santa Teresa vendo o Pão de Açúcar, vendo a Baía de Guanabara, umas casas antigas, com pé-direito muito alto, e é como se você morasse simultaneamente no Rio de Janeiro, mas é o Rio de Janeiro em que as pessoas que têm meios não precisam viver dentro de redomas. Não é que eu tenha muitos meios, não é isso, mas não é aquela coisa de condomínios, mas é uma coisa simultaneamente, para mim, maravilhosa e integrada na cidade, sem medo de nada. Não tenho qualquer questão de sentir a violência na cidade. Sinto a pobreza na cidade, porque ali, mesmo que eu viva numa casa super agradável eu estou ao lado da Glória, onde você tem uma população de moradores de rua gigante. Que cresceu muito mais, um shopping em chão, então eu não vivo fora da realidade. Vivo muito dentro da realidade. Da realidade carioca. E não sou um santa-teresino naquele sentido: how, how, how, também, não sou hippie…eu gosto daquela casa, eu gosto daquela vista, gosto do silêncio. Para mim é impensável morar na Nossa Senhora de Copacabana, na Barata Ribeiro, na Visconde de Pirajá, são ruas demasiado barulhentas, e coisas assim. Tem muita luz – é muito agradável -, tem florestas, e isso é pra dizer que então a minha relação de vontade de voltar para o Brasil foi sempre assim, depois quando eu comecei a fazer filmes, fui mostrar os filmes no Brasil, pouco a pouco, as vezes ia o filme e não ia eu. Depois comecei a ir e foi uma estratégia. 

Ricardo Schöpke: O cinema surgiu em sua vida apenas em Portugal?

Sérgio Tréfaut: Não, foi até antes, os meus amigos eram pessoas que estavam ligadas ao cinema. Então, eu estava no meu segundo ano de faculdade, e escrevia adaptações do “Banquete” para cinema, inventava isso (risos). Do “Banquete”, do “Fedro” do Platão, e punha toda a gente escrevendo, chateava toda a gente, e eu era amigo de muita gente de cinema. A Teresa foi estudar na Tchecoslováquia, voltou para Paris e ficou na minha casa. Eram os meus amigos de infância, a Maria de Medeiros, enfim. São as pessoas com quem eu cresci e que trabalhavam no cinema. Vasco Pimentel era engenheiro de som. Joaquim Pinto era engenheiro de som. Então, todas essas coisas fizeram com que eu me sentisse dentro do cinema, enquanto estudava filosofia. E comecei a ser assistente de um chinês que morava na mesma residência de estudante do que eu, que também depois virou escritor, então, eu permeava dentro do cinema naquele momento, e quando eu vim morar para Portugal eu já tinha infernizado mil pessoas….escrevendo argumentos….eu era insuportável…ia bater na porta….pedia dinheiro. Pra você ter uma ideia, nessa viagem de 21 anos, que eu fui ao Rio de Janeiro, e que não gostei de São Paulo, e gostei do Rio, eu ia com um argumento que se chamava “Fedro”, que era uma adaptação do “Fedro” do Platão, e tinha 21 anos, e batia à porta do Egberto Gismonti, pra fazer a música do filme. E o Egberto Gismonti me recebeu. Ele achava graça, aquela criança impertinente, delirante (risos)…ah, pode ser desse jeito; me levavam à casa do Reichenbach. Eu era um pentelho, uma coisa assim (risos). 

Ricardo Schöpke: Você começou no cinema como assistente de realização de José Álvaro de Morais, Teresa Villaverde, Rita Azevedo Gomes e António Campos; como foi isso?

Sérgio Tréfaut: Eu estudei filosofia não porque alguma vez eu pensasse em ser um acadêmico, não. Eu sou daquelas pessoas, que não sabem pra que caminho vão…tinha valências múltiplas…tinha 20 sobre 20 em lógica, e toda a minha escolaridade era uma escolaridade assim de altos e baixos. E de repente quando chegou o último ano de liceu, que é quando no ensino francês você tem filosofia, e então você entra com os melhores resultados, e a pessoa tem que fazer faculdade, eu faço isso. E depois já não era a mesma coisa pois na faculdade eu não tinha sempre a melhor de todas as notas. Tinha de ler 20 livros e eu lia 1, tinha e funcionava, e no final terminou muito bem, mas eu sabia que era outra exigência e mesmo naquela ano, naquela época anterior, eu fazia teatro, e sonhava por fazer teatro – “e era um péssimo ator” -, mas eu fazia teatro e essas coisas assim. Desde os 12 e 13 anos eu fazia, e então o cinema também era a ideia de fazer filmes, era uma coisa meio, tem aquela grande oposição dentro da história do cinema, enquanto se define o lado Méliès (George Méliès) e o lado Lumière (irmãos Auguste e Louis). O lado Méliès da fantasia e o lado Lumière que leva ao que viria ser mais tarde a linha documental. Eu era completamente Méliès, eu só escrevia coisas feéricas, que não tinham pés, nem cabeça…adaptação mais tarde da Manon Lescaut em África, coisas muito delirantes, e isso nunca me deu financiamento pra nada. Eu tentava, eu escrevia, chateava…meus primeiros argumentos, quando eu tinha vinte e um anos eram apresentados pelo Paulo Branco, o maior produtor português, e também o maior produtor de França, onde todos também me mandavam passear. Era mais ou menos assim…e depois eu escrevia uma cena triste (risos). E mais tarde eu fui assistente e aprendi na prática. Me puseram, como eu era muito pentelho, muito metido, tinha muita energia e muito boa vontade, e reconheciam que alguma capacidade eu tinha, por exemplo, punham para eu traduzir um argumento e eu traduzia um argumento em francês em dois dias, e assim por diante, e ficava bem traduzido. O diretor da Cinemateca (Portuguesa) ressaltava a minha capacidade, alguma capacidade de raciocínio que eu tenho, então fui sendo assistente e fui assistente pela primeira vez de uma pessoa que trabalha nessa casa: Rita Azevedo Gomes, que era o delírio, fazer um filme impossível com meios nenhum, então aprendi a tentar o impossível no cinema. 

Ricardo Schöpke: A sua formação se deu então toda na prática, não é mesmo? Já que não há registos de sua formação acadêmica em cinema, como isso se procedeu?

Sérgio Tréfaut: Não tive uma escola de fazer cinema, técnica, e essas coisas, nunca foi assim. Foi só uma escola de sonhos, foi mais isso que eu aprendi na prática, depois também tive um período que percebi que aí não ia chegar a lugar nenhum, pois meus sonhos, estes tais sonhos com Méliès…e tive uma fase depressiva, 24 anos, uma coisa assim…e deprimido, então eu achei que ia fazer o serviço militar. Todos os meus amigos: “você tá maluco?”  Não, Legião Estrangeira, uma coisa assim, mas eu me escrevi na Marinha Francesa e todos acharam que eu tinha enlouquecido. Na verdade, eu tinha lido – era mais uma coisa feérica -, eu tinha lido o “The Mint”, que é a matriz do Thomas Edward Laurence, o mesmo do “Sete Pilares da Sabedoria”, e do “Laurence da Arábia”; que teve um período que ele se inscreveu na Royal Air Force (RAF) para aprender a ser um soldado raso. Isso depois teve Coronel, depois teve tudo isso, e eu achei aquilo o máximo, e eu queria…e tive um amigo, que toda a gente dizia que eu tinha enlouquecido, e eu tive um amigo que é o Joaquim Pinto, cineasta, – que naquela época só fazia som -, mas já tinha feito filmes… e me disse: ”não, não vai para o serviço militar, mas antes eu tenho um filme em África, que eu vou diretor de fotografia e você vem como tradutor assistente”. E eu fui como tradutor assistente da fronteira de 89 para 90, dois meses no Benin, Isso foi no Benin, religiões afro-brasileiras, umas mães de santo que eram jogadas de paraquedas no Benin, e me curei da cabeça.  Não queria fazer mais o serviço militar nenhum, já que a minha vida era em Lisboa, eu tinha que perceber como é que eu ganhava a vida. Como eu não ganhava um centavo, e como a minha toda família é jornalista, eu vou tentar ser jornalista, e funcionou. Durante dois anos eu fui jornalista, as coisas deram bons resultados, a coisa funcionava bem. Queriam que eu ficasse naquele jornal, que eu fosse para outro jornal, mas como o tempo me sobrava, e era uma coisa, um semanário, eu fiz uma tese de faculdade e fiz uma primeira curta-metragem. Uma das coisas que eu fiz nesse período foi uma primeira curta-metragem, que era um acerto com Platão, “Alcebíades”. Não entendia nada de cinema, e era uma coisa feérica, não consegui continuar, mas comecei a fazer produção. E aí fiz muita produção, me acostumei a fazer produção, produção de exposições, de grandes exposições, fiz um Drive-Inn em Lisboa, fiz o Mês da Fotografia em Lisboa, que eram 30 exposições gigantes, convencia o Sebastião Salgado a vir à Lisboa, consegui inaugurar o CCB…com 28 anos eu fazia o diabo….(risos)…

Fim da Parte 2

Serviço: 

Fotos: Benita Prieto.

O filme continua em cartaz nos seguintes cinemas, e horários:

Lisboa

Cinema IDEAL

 todos os dias às 17:45

UCI El Corte Inglés

 quinta, sexta, segunda e quarta-feira às 13:15

Cinema Medeia Nimas

 domingo às 13:00

Porto

Cinema Trindade

quinta, segunda e quarta-feira: às 14:20 e às 17:30

sexta-feira às 14:20 e 19:00

sábado e domingo às 14:20

Speak . Comunicação & Design

Débora Pereira

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