André Conrado: Valença/RJ – A princesa da serra – Parte 1

Imagem da Litogravura da Aldeia dos Indios Coroados – Valença – Século XVIII – Arquivo Nacional

Seguindo nossa rica e histórica expedição pelo belo Vale do Café, saímos das terras do Alferes e chegamos na chamada “Princesa da serra”.

Antigo território de índios Coroados, o nome da cidade é uma homenagem ao Vice-Rei de Portugal, Dom Fernando José, descendente dos nobres da cidade de Valença, em Portugal.

Imagem de Rugendas – Início da Catequização dos Indios – Valença – Séc XVIII – Arquivo Nacional


O esgotamento do ouro nas Minas Gerais causou um forte fluxo migratório de mineiros para ocupação das terras virgens existentes no vale do 
rio Paraíba do Sul. Entretanto, as tribos de índios viviam nômades na região geravam insegurança entre os proprietários das sesmarias que eram doadas em suas terras. Os índios Coroados eram especialmente temidos pela ferocidade que exibiam em batalhas entre si e contra os portugueses.

Imagem de Debret (Indios cruzando o Rio Paraiba do Sul) 1835 – Biblioteca Nacional

O vice-rei do Brasil D. Luís de Vasconcelos e Sousa ordenou em 1789 que fosse iniciada a catequese dos índios da região. Em 1800, o vice-rei incumbiu o fazendeiro José Rodrigues da Cruz, proprietário da fazenda Pau Grande, que mostramos na série passada(atualmente no município de Paty do Alferes), de “proceder à civilização” dos índios Coroados. O então capitão de ordenanças Inácio de Sousa Werneck foi incumbido de “domesticar” e “aldear”, isto é, de reunir os índios Coroados nas matas e conduzi-los para as aldeias onde deveriam se fixar. Assim foram liberadas terras que foram divididas em sesmarias e doadas aos primeiros colonizadores da região.

O vice-rei Dom Fernando José de Portugal nomeou em 1803 o padre Manuel Gomes Leal para o cargo de capelão, tendo-lhe o bispo Dom José Joaquim Justiniano conferido a jurisdição necessária para construir e benzer uma capela e cemitério. Uma modesta capela dedicada à Nossa Senhora da Glória foi construída no principal aldeamento de índios Coroados, o qual deu origem à atual cidade de Valença. A aldeia de Valença foi habitada pelos “Puris”; a aldeia de Santo Antônio do Rio Bonito, que originou o atual distrito de Conservatória dos Índios, foi habitada pelos Araris.

Foto da Cidade de Valença – Rj – séc XIX – Arquivo Nacional

A aldeia de índios foi elevada a freguesia de Nossa Senhora da Glória de Valença por Carta Régia de 19 de agosto de 1807. O nome foi dado em homenagem ao vice-rei Dom Fernando José de Portugal . Ele era filho de D. José Miguel João de Portugal e Castro, o 3º Marquês de Valença e 9º Conde de Vimioso; esta família descende do1º Marquês de Valença, Dom Afonso de Portugal, filho primogênito de Dom Afonso, 1º Duque de Bragança.

Imagem do Mapa autógrafo de Inácio de Sousa Verneck (mostrando os caminhos e rios do sertão de Valença) 1808 – Arquivo Nacional

A freguesia foi elevada a vila de Nossa Senhora da Glória de Valença a 17 de outubro de 1823 abrangendo território desmembrado dos termos da cidade do Rio de Janeiro e das antigas vilas de São João Marcos do Príncipe e Resende ocorrendo a sua instalação a 12 de novembro de 1826. A cultura do café espalha-se rapidamente pela região. A produção cafeeira da província do Rio de Janeiro atingiu 5.122 contos em 1828 e superou a produção de açúcar que foi de 3.446 contos. Como comparação, a província de São Paulo, que incluía então o Paraná, produziu apenas 250 contos de café em 1825 e somente em 1886 é que irá produzir mais café do que açúcar.

O Visconde do Rio Preto, um dos maiores benfeitores da região de Valença e Rio das Flores, construiu, nas imediações do Jardim de Cima, o seu austero palacete. Vale destacar que os famosos Jardim de Baixo (Praça XV de Novembro) e Jardim de Cima (Praça Visconde do Rio Preto) foram inaugurados em 1884, projetados pelo paisagista francês François Marie Glaziou.

Foto da Igreja e Praça de Valença – Final séc XIX – Arquivo Nacional

A necessidade de mão-de-obra para as plantações de café fez com o município tivesse uma das maiores populações negras da então província do Rio de Janeiro, senão do Brasil. Em 1888 ainda trabalhavam na lavoura de café cerca de 25.000 escravos.

Foto da Fazenda São Luiz (Lavoura de Café) Final séc XIX – Biblioteca Nacional

A ferrovia “União Valenciana” chegou à cidade em 1871. O comércio atacadista prosperou na cidade incentivado pela facilidade de transporte e pelo desenvolvimento econômico devido à lavoura cafeeira. 

A superexploração e mau uso causaram o empobrecimento do solo e a produção de café caiu em toda região. Entre 1879 a 1884, a província do Rio de Janeiro ainda produziu quase 56% do total de café exportado pelo Brasil; porém, em 1894 a produção despencou para apenas 20% do total. O município, assim como todo o vale do Paraíba do Sul, entrou então em decadência econômica 

 

Entretanto, Valença foi menos afetada do que as outras cidades da região devido à ferrovia que passava pela cidade, o que propiciou a criação de indústrias por alguns empresários locais. As indústrias têxteis começaram a surgir por volta de 1909 fundadas pelos empresários José Siqueira Silva da Fonseca, Benjamin Ferreira Guimarães e Vito Pentagna.

A economia local também foi estimulada em 1910 quando a Estrada de Ferro Central do Brasil encampou as operações da antiga estrada de ferro “União Valenciana”. A Estrada de Ferro Central do Brasil instalou oficinas e um Depósito na cidade. Houve investimentos locais com a construção da variante de Esteves, do trecho ferroviário entre Marquês de Valença e Taboas e de Rio Preto a Santa Rita de Jacutinga. Com isto, a população aumentou e o comércio local prosperou.  

Foto histórica da Estrada de Ferro de Barão de Juparana – Valença – Rj – Séc XIX – Arquivo Nacional

Ao mesmo tempo, as fazendas locais erradicaram os cafezais envelhecidos e passaram a dedicar-se à agropecuária. A produção leiteira prosperou na região.

Em 31 de dezembro de 1943, o nome de Valença foi modificado para Marquês de Valença, dezesseis anos depois, o nome da cidade volta a ser simplesmente Valença.

Foto da cidade de Valença – Rj – Vale do café – séc XX – Arquivo Nacional

Na próxima edição, chegaremos nos tempos atuais e mostraremos os principais pontos
turísticos da bela princesa da serra. Não percam!

Fontes: 

@aclubtour

Arquivo Nacional

Biblioteca Nacional

IBGE

IPHAN

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