Rodolfo Abreu entrevista o escritor Rodrigo Faour, que lança o livro "História da Música Popular Brasileira - sem preconceitos"

Crédito da imagem: Selmy Yassuda

Crédito da imagem: Selmy Yassuda

Historiador da música popular brasileira, Rodrigo Faour já publicou diversos livros sobre o tema. Seu mais recente lançamento, “História da música popular brasileira: Sem preconceitos (Vol. 1) – Dos primórdios, em 1500, aos explosivos anos 1970” chega ao mercado agora.


1. Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre a MPB que não falasse somente dos grandes nomes?

Estava dando um curso de extensão na PUC-Rio sobre a história da nossa música e senti que não havia um livro com uma abordagem mais contemporânea e inclusiva para dar aos alunos. Então, como dediquei minha vida inteira a guardar documentos e registrar essa história, decidi eu mesmo escrevê-lo.


2. Esse livro terá um segundo volume. Como foi seu processo de pesquisa, já que o período histórico é amplo, e como foi feita a organização?

Sim, o vol. 2 vai sair ano que vem. Foi um turbilhão. Eu escrevia e nem acreditava que estava escrevendo. Porque é tão vasta, tão rica a música brasileira que por vezes cheguei a pensar que não conseguiria terminá-lo. Fui cronologicamente. Mas além dos personagens que já conhecia bem, descobri outros interessantíssimos, hoje esquecidos de quase todo mundo – um levava a outro. Tentei equilibrar todos numa balança histórica pelo meu olhar e acho que consegui pelo menos fazer algo que possa jogar luz sobre nossos mais interessantes artistas da música e abrir caminho para obras futuras de outros fãs dessa história fantástica. Felizmente tive amigos que me ajudaram nos gêneros que não dominava bem e pude contar com alguns livros, catálogos e matérias de imprensa que colecionei a vida inteira.

Rodrigo Faour e seu mais recente lançamento literário. Crédito: divulgação.

3. Apesar do sucesso em uma determinada época, alguns cantores e intérpretes não permaneceram na memória do grande público. Quais desses artistas que estão no seu livro que você pode destacar?

Alguns até permanecem na memória do público, porém até o século passado a maioria de nossos historiadores ainda rezava na cartilha de “alta e baixa cultura” e na de um nacionalismo exacerbado que hoje são ultrapassados. Então figuras da música brega-romântica, caipira, do rock, da música dançante, dos que cantavam em inglês e outras línguas, mas eram brasileiros etc não eram considerados tão bons ou “brasileiros” o suficiente para figurar num livro de história da nossa música. E caso fossem abordados era com menos destaque. Até mesmo a segunda Era do Rádio, de 1946 ao fim dos anos 50, era considerada popularesca em relação à Era de Ouro (1929-45) e isto eu tento quebrar desde o primeiro livro que lancei, a biografia de Cauby Peixoto, tentando uma abordagem mais inclusiva e justa.


4. Entre seus outros livros estão biografias de cantores bastante populares, mas que a crítica não prestigiou como deveria. Biografá-los teve por objetivo deixar esse registro histórico mais completo?

Exatamente. Sempre procurei biografar artistas que julgava pouco contemplados pela história ou que seu legado havia passado à posteridade cheia de folclores mal ajambrados. Resolvi então entender como Angela Maria, Cauby Peixoto, Claudette Soares e Dolores Duran deram suas contribuições à Era do Rádio, à “MPB”, à bossa nova e ao “lugar de fala” feminino em nossa música de maneira mais fidedigna.

Biografias de nomes populares da música brasileira, por Rodrigo Faour.

5. Seus outros livros de sucesso refletem valores do público brasileiro através da música, como “Revista do Rádio: Cultura, Fuxicos e Moral nos Anos Dourados” e “História Sexual da MPB – a evolução do amor e sexo na canção brasileira”. Para você, a música vai além de entretenimento?

Excelente sua pergunta. Meu trabalho nunca foi só de historiar a música, sempre foi ligado também a comportamento. Na verdade, a música, como todas as artes, reflete o estado de espírito da sociedade. E como a nossa música é a meu ver a nossa maior e mais rica potência cultural ela tem o poder de traduzir a sociedade brasileira em todos os aspectos. Quando fiz rádio e TV e agora em meu canal www.youtube.com/rodrigofaouroficial continuo fazendo isso e é inclusive uma forma de educar os mais jovens de uma maneira agradável, pois quem não tem referência de um artista mais antigo, pode ser “pego” pela importância comportamental de sua imagem, das letras ou do ritmo transgressor que veiculava em seu trabalho. Além disso, odeio abordagens simplistas, tipo de fã, como vejo muito por aí. Então esse viés é uma maneira de tornar tudo bem mais interessante e fazer as pessoas pensarem, para além do entretenimento. Entretanto, não faço isso de maneira pretensiosa. Há autores que exageram numa abordagem excessivamente sociológica e antropológica da música e esquecem que antes de qualquer coisa ela é, sim, entretenimento.

MPB e comportamento são temas dos livros de Faour.

6. Como apaixonado pela música brasileira, além de publicar livros, você mantém um canal no YouTube onde compartilha informações, faz entrevistas com cantores e promove o legado de diversos artistas. Como está sendo essa experiência?

Fui empurrado para o YouTube porque não consegui mais trabalhos em rádio, TV ou jornal, mesmo tendo me dedicado à música desde adolescente. O mercado do jornalismo mudou muito depois da internet, então fui obrigado a me renovar. Estreei no YouTube em agosto de 2017 e comecei uma pós graduação em Letras, na PUC-Rio, no ano seguinte. A maioria dos vídeos ainda não teve patrocínio, embora algumas gravadoras já tenham feito parcerias comigo em certos vídeos e tive uma série dedicada aos “arquivos da cena LGBTQI+ carioca” bancada pela Lei Aldir Blanc – porque o canal também aborda temas comportamentais, para além da música, e não apenas ligados a ela. Porém creio que isso é questão de tempo já que o canal está chegando aos 70 mil seguidores e já teve vídeos, como a entrevista dos 50 anos de carreira do Odair José que fiz ano passado, cujas quatro partes já bateram mais de 3.500.000 visualizações. E pelos comentários positivos nos vídeos – quase não há “haters”, por incrível que pareça – acho que fui pelo caminho certo. Não faço concessões, só entrevisto ou faço palestras sobre quem acredito ou creio que mereça mais espaço.

Canal de Rodrigo Faour no YouTube.

7. Como você vê a música brasileira produzida na atualidade?

Isso será explicado no epílogo do volume 2 deste livro. Com o excesso de artistas, da globalização e do capitalismo predatório neoliberal, o mercado hoje é muito perverso para quem quer ir além do apelo fácil da sexualidade imagética nos vídeos e da imitação do padrão pop internacional no canto, letras, clipes e impostação vocal. A internet da primeira década deste século é diferente da que está aí hoje. Existe manipulação e interesses visando exclusivamente grana, assim como havia na época da máfia das gravadoras que dominavam o mercado e não deixava brecha para os independentes. Hoje essa brecha é maior, é claro, porém continua difícil vencer a ditadura da massificação de dois ou três gêneros. Ainda não conseguimos um campo verdadeiramente democrático ideal no mercado da música, mas tudo pode acontecer. O mundo está sempre se transformando. O que gostaria – e meu livro, meu canal e meus cursos tentam contribuir para isso – é que os artistas e produtores mais jovens conhecessem mais a riqueza da música brasileira para que a gente não produza apenas um pastiche da música pop internacional, que continuemos esse legado tão interessante que nos fez ter o cancioneiro mais rico e um dos mais originais do planeta.


8. Para quem quer saber mais da MPB, especialmente “sem preconceitos”, além ler o seu livro, que mais indicações você pode dar?

Além do meu canal e dos meus cursos, prestigiem os livros, séries, filmes e programas musicais para além dos gêneros massificados atuais dos meus colegas, compartilhem vídeos na rede que você julgue interessantes de artistas de ontem e de hoje que valham a pena e comprem ingressos e álbuns físicos (quando houver) dos artistas que fujam do comercialismo óbvio. Não adianta chorar que tais cinemas, teatros, livrarias, museus ou bares históricos fecharam se você os acha bonitinhos, mas não os prestigia, não frequenta e não gasta seu dinheiro ali. A internet é uma ótima ferramenta, mas ela sozinha não basta e só deixa milionários os caciques brancos e gringos dos monopólios digitais de sempre.


“História da música popular brasileira: Sem preconceitos (Vol. 1): Dos primórdios, em 1500, aos explosivos anos 1970”. Autor: Rodrigo Faour. Editora: Record.Páginas: 554.


Rodrigo Faour
Jornalista, crítico, produtor musical e historiador da MPB
Professor e Doutorando na PUC-RJ
Mestre em Letras – Literatura, Cultura e Contemporaneidade


YouTube:
www.youtube.com/rodrigofaouroficial


Instagram:
www.instagram.com/rodrigo.faour/


Website:
www.rodrigofaour.com

Publicação Anterior

Douglas Delmar entrevista o Artista Sandro Conte

Próxima Publicação

Chico Vartulli: O arquiteto Mario Santos.

219 Comentários

Deixe um comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado.