XANDY NOVASKI ENTREVISTA ISABELITA DOS PATINS

ISABELITA DOS PATINS – Crédito Arquivo Pessoal

ISABELITA DOS PATINS é, sem sombras de dúvida, a materialização do amor ao próximo, da doçura das crianças e do encanto que é a real brasilidade. Nascida como Jorge Omar Iglesias em terras argentinas, seu amor pelo Brasil já vinha desde os tempos de infância. Profissional dos patins, ainda adolescente recebeu convite para ingressar o Holiday On Ice. Porém, como sua trajetória profissional se daria na Europa e Estados Unidos, sua resposta foi ‘não’, pois o ‘sim’ já vinha sonoro no batuque carioca. Essa foi a sua meta, seu futuro, seu destino. E assim ela é: feliz da vida por morar no Rio de Janeiro e ter conquistado tanta gente. Um amor que agora resultará no tão sonhado título de Cidadão Carioca pelos seus 50 anos de alegria nas andanças pela cidade maravilhosa. Conheça e se encante com essa linda história de superação, conquistas e certezas, e sinta o frescor da liberdade que é se embrenhar sobre os patins da fraternidade de Isabelita!

1) A Isabelita ganhou sua primeira projeção nacional ao tirar uma foto com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Contudo, ela já era destaque na noite, nos passeios por Copacabana, e principalmente pelo talento e vocação que abrilhantavam cada espaço que a recebia. Conta pra gente, como foi que nasceu a Isabelita dos Patins?

O beijo no Fernando Henrique Cardoso foi a loto da minha vida! A Isabelita dos Patins nasceu aqui no Rio de Janeiro num Carnaval de 1971. Isabelita é carioca da gema! Foi no Carnaval que apareci na Avenida Atlântica patinando, onde todos ficaram encantados com minha exibição. Depois de fazer algumas figuras, dentre elas a maior que era eu vindo patinando, deitando e passando por baixo de um carro, todo mundo aplaudiu e gritava. Foi assim que eu, de repente, parei ao lado de uma jovem chamada Glorinha Pereira, que escrevia para um jornal. Ela me perguntou: “Como é seu nome?” E eu respondi: “Jorge.” Porém, ela disse: “Você tem um sotaque espanhol. De onde é?” Então eu falei: “Sou da Argentina.” Então, ela imediatamente soltou: “Você vai se chamar Isabelita dos Patins!”… Isso porque em 1971 a Isabelita Peron era a primeira dama.


2) Você vem de uma época em que ser Drag Queen era, além de se montar e viver uma personagem, resistir a muita coisa. Havia um mundo fora das boates que olhava para esse artista de forma diferente, algumas pessoas com admiração, outras e tantas vezes com preconceito. Como eram esses olhares para a Isabelita?

Os olhares para mim sempre foram muito bons e carinhosos, pois eu era uma bailarina de patins. O povo chamava de caricata, eu encantava a todos.


3) A Isabelita praticamente iniciou um movimento onde as Drags passaram a ter reconhecimento pelo belíssimo trabalho. Foram várias as participações na televisão, comerciais para grandes grifes de moda, dentre outros destaques na mídia. Ao revisitar esse passado, o que vêm a sua mente?

Sim, sim! Eu chamava muito a atenção patinando na Avenida Atlântica, Galeria Alaska, Banda de Ipanema, Banda da Carmen Miranda, da Boca Maldita do Leme, dentre outras. Ganhei fama e sucesso com o povo e com a imprensa. Aí vieram os comerciais, participação em novelas, vários programas de TV e muito destaque na mídia. Esse passado realmente me dá muita saudade, pois tive momentos de muita alegria e felicidade.


4) O Brasil e você têm um casamento, vamos dizer assim, perfeito. Esse amor pelo país veio desde sempre?

Ah, Brasil! Eu te amo! Que coisa boa, que bom você ter aparecido na minha vida! Eu não vou dizer que foi um casamento, e sim um grande amor, pois quando eu tinha nove anos, meu pai trabalhava nos correios e um dia, ao chegar lá em casa, trouxe uns cartões postais de propaganda com foto dos USA, Paris, Itália e Brasil. E eu ganhei o cartão postal com a Enseada de Botafogo. Imediatamente eu disse: “Papai, que lugar lindo!” E meu pai respondeu: “Meu filho, se conforma em ver o cartão postal, pois a gente é pobre e você nunca vai conhecer o Brasil.” Por ironia da vida meus pais se separaram, a minha mãe foi embora e deixou com meu pai. Ele, estando sozinho com quatro filhos, resolveu falar com a irmã dele. Assim, todos nós fomos morar com papai e minha tia na cidade de Rosário (província de Santa Fé). Meu pai imediatamente procurou uma escola para nós. E ele me colocou numa escola chamada ‘Estados Unidos do Brasil’, mas de meninos argentinos, e que no dia sete de setembro sempre havia comemoração. E foi numa dessas comemorações de Sete de Setembro que a diretora do Centro de Estudos Brasileiros, chamada Maria Thetis Nunes (De Aracajú), ao me vir tocar uns instrumentos, me disse: “Menino, você é um rapaz orquestra! Vou te levar para o Centro de Estudos Brasileiros de Rosário para ensaiar o ‘Bumba Meu Boi’ que será apresentado para o Embaixador do Brasil em Buenos Aires.” E assim foram muitos ensaios. E eu fiquei dentro do boy (pois era o mais jovem e o boy era o espetáculo). Fiz um grande sucesso. Ao retornar a minha cidade e ao comemorar outro Sete de Setembro, a diretora do Centro de Estudos Brasileiros me chamou ao palco e me entregou um relógio junto com o adido cultural da Embaixada. Eu fiquei muito feliz. A diretora disse ao adido: “Será que o senhor não arranja um emprego para o Jorgito? (Sim, meu nome é Jorge Omar Iglesias)” … “Mas O que ele sabe fazer?” Imediatamente a diretora disse que eu sabia fazer de tudo um pouco. E eu consegui trabalho no Consulado do Brasil em Rosário. Com meus 13 para 14 anos entrei fazendo e servindo café. Fiquei um ano fazendo café, quando a Secretária do Consulado recebeu uma mensagem que teríamos um Consul. Ela imediatamente me tirou da cozinha e me colocou ao lado dela, que ocupava o cargo de Secretária Geral (Senhorita Marta Casablanca). Quando o Consul foi me apresentado, ele perguntou: “O que o Jorgito faz aqui?” Ela imediatamente falou: “Jorgito é minha mão direita.” Fiquei trabalhando no Consulado com várias atividades até os meus 21 aninhos. Esse Consul foi muito bom e generoso comigo. O Senhor Consul Paulo Versiani Cunha. Ele me chamou para seu gabinete e me perguntou por que eu gostava tanto do Brasil. Eu contei a minha história do cartão postal. Ele me disse: “Jorgito, quando você fizer dezoito anos, esteja eu onde estiver te darei de presente uma viagem de quinze dias para você conhecer o Rio de Janeiro.” E assim, no ano de 1966, eu vim para o Rio. Fiquei apaixonado! E como eu estudei na Escola do Brasil em Rosário, eu vim ao Rio conhecer a Escola República Argentina, em Vila Isabel, bairro onde hoje eu moro. Voltei para a Argentina sonhando com o Rio. E em 1970 vim morar aqui na cidade maravilhosa.


5) E o casamento com os patins, veio de que época?

O casamento com os patins vem desde meus nove anos. Comecei a patinar profissionalmente aos nove anos. E desde lá para cá não parei mais. Os patins são a minha marca registrada. Dos nove aos vinte anos patinei profissionalmente como menino. Eu e uma colega ganhamos quase todos os concursos. Eu patinava tão bem que a companhia ‘Holiday On Ice’ sempre que me via, queria me levar, só que era pra Europa e Estados Unidos. E eu queria era vir para o Brasil!


6) Eu particularmente tentei andar de patins por uns dois anos. Faltava-me equilíbrio, mas, acima de tudo, confiança. Os patins trazem uma sensação de liberdade, contudo, eu saquei que a protagonista da parada será sempre essa ideia de ‘confiar é preciso para continuar’. É assim mesmo, seja sobre eles ou diante da vida?

Realmente os patins trazem uma certa sensação de liberdade. Os patins, como já disse, fazem parte daminha vida e com eles sempre ganhei o pão de cada dia, graças a Deus!


7) Para que a Isabelita surja, temos a maquiagem, as roupas, os acessórios e aquela concentração básica. Quanto tempo leva para que o Jorge dê esse espaço para a Isabelita?

Para que a Isabelita surja, eu levo mais ou menos umas duas horas, uma para me maquiar e outra para me arrumar. Claro que escutando Ângela Maria, Elizeth Cardoso, Emílio Santiago e outros!


8) Sua trajetória é tão marcante que em 2017 a Isabelita foi homenageada pelo Museu do Artesanato do Estado do Rio de Janeiro, em Petrópolis. Como foi a repercussão da “Mostra Isabelita dos Patins: uma história de superação, arte e beleza”?

Foi um belo convite do artista plástico e artesão Cocco Barçante, que fez uma exposição no Museu do Artesanato do Rio de Janeiro na cidade de Petrópolis. Foi uma bela e inesquecível repercussão de arte, glamour e beleza, pois levei quase todo meu acervo para expor. Tenho modelitos oferecidos pela eterna Miss Brasil Martha Rocha, de Ana Botafogo, de Leticia Spiller, de Terezinha Sodré, de Nany People e da amada Sabrina Sato. Lembranças em biju da Elke Maravilha, da Emilinha Borba, da Jane di Castro, da divina Rogéria, da amada Elizeth Cardoso e da Dercy Gonçalves. Um quadro pintado pelo artista plástico Carlomagno, duas belas caricaturas do Chico Caruso. Troféus, caricaturas, quadros, fotos e mimos da Isabelita dos Patins!


9) Como é para você se despir da personagem, retornar ao dia a dia? Pode-se dizer que de vez em quando, mesmo sem a maquiagem e acessórios, a Isabelita desce?

Me despir do personagem e retornar ao dia a dia, para mim é uma coisa normal, pois quase todos os fins de semana eu me monto de Isabelita. Claro que para o Jorge tudo é mais difícil. Se eu pudesse estar 24 horas de Isabelita, ia adorar, pois para ela é tudo permitido (risos). Mas eu sei separar bem as coisas. A Isabelita é um personagem e o Jorge é o cidadão brasileiro. Respeito é bom e eu gosto. Por isso é que sou querido, admirado e respeitado. Hoje sou um jovem senhor de 73 aninhos. Quando estou de Jorge, é Jorge e nada de brincadeirinhas. Tem que me chamar pelo meu nome de cidadão. Com a Isabelita é outro departamento, mas também sou muito rígido, pois quando estou de Isabelita eu me sinto uma bonequinha de biscuit. Claro, um biscuit que pode quebrar, se machucar, assim como aconteceu em 2010 quando tive um infarto. Porém, a vida, diante do Jorge ou da Isabelita, sempre me presenteou com pessoas maravilhosas. No caso do infarto, as amadas Cláudia Jimenez e Marília Pera inclusive me ajudaram financeiramente. Gratidão eterna!


10) Se você olhasse agora para o espelho, com ou sem a roupagem da personagem, o que diria para a Isabelita dos Patins?

Eu diria para Isabelita assim: “Obrigado por você existir!” Com ela conquistei muita coisa. Ela me deu e ainda me dá muitas alegrias e felicidade. Com ela, hoje eu tenho meu apartamento. Com ela, fui padrinho durante 15 anos da Creche Noel Rosa, aqui em Vila Isabel. Com ela, fiz muitas campanhas de agasalhos, de alimentos, de cobertores, de sangue, até ração para nossos animaizinhos. Por ela existir, em 2018 recebi uma bela homenagem da queria e amada Sabrina Sato, ela se vestindo de Isabelita para me homenagear. O carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira, por eu não poder desfilar na Escola por motivos profissionais ($$$$$$), ele disse pra mim: “Isabelita, não tem problema. Você é um ícone, você é o povo, você é o Carnaval. Eu vou te homenagear.” E ele fez a Isabelita dos Patins de cinco metros de altura. Desfilou na Avenida e no Zorra Total. Teve um quadro com o Jorge Dória e Lúcio Mauro Filho, onde o Lúcio apareceu vestido de Isabelita. Tudo isso e muito mais me faz ser uma pessoa feliz. Sei que sou amada. E quando morrer, o Brasil vai dizer: “Isabelita tinha um bom coração.” E eu sempre digo: “O que a gente faz por nós, morre conosco. Porém, o que a gente faz pelos outros ficará na eternidade!”.

Publicação Anterior

Chico Vartulli: O arquiteto Mario Santos.

Próxima Publicação

Juan Pablo de La Plata: Sport Drops reúne Gustavo Borges, Diego Hypolito e as tenistas Luisa Stefani e Laura Pigossi para falar sobre carreira e educação.

323 Comentários

Deixe um comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado.