Ricardo Schöpke entrevista o realizador brasileiro, português e francês Sérgio Tréfaut. Parte 3.

Ricardo Schöpke e Sérgio Tréfaut na Cinemateca Portuguesa. Crédito Benita Prieto.

Ricardo Schöpke e Sérgio Tréfaut na Cinemateca Portuguesa. Crédito Benita Prieto.

Ricardo Schöpke: Por que você saiu da França e foi se tornar realizador em Portugal? O que lhe moveu a isso? A sua raiz em língua portuguesa, tanto do Brasil, como de Portugal?

Sérgio Tréfaut
: Existia uma figura incontrolável dos museus de Portugal, que era a Simonetta Luz Afonso que dirigiu vários museus. Quando ela viu que eu tinha feito tudo, que tava no Jerónimos, todos os grandes museus de Lisboa tinham exposições de fotografia minha, ela disse-me “esqueça, não faça nada!!!” Depois disso, umas amigas minhas me convenceram a fazermos juntos uma exposição fotográfica sobre a Revolução Portuguesa, pois tinham descoberto que os maiores fotógrafos do mundo tinham estado aqui e feito fotografias da revolução: Sebastião Salgado…mas a gente não conseguiu dinheiro, então durante um ano eu tentei, fiz pesquisas e sofri, e não consegui. E pouco a pouco isso se converteu no projeto de filme, e aí fazendo produção e ao mesmo tempo, outros documentários, eu retomei ao cinema, e entrei mais nessa fase, já que os meus sonhos ninguém quer financiar – pois eu escrevi não sei quantos filmes que ninguém queria saber deles. Quando eu comecei escrever umas coisas, tal como jornalista, que é terra a terra; mais não era totalmente terra a terra, porque não são nunca, mas tinha uma dimensão, mais aparentemente, racional concreta, blá, blá, blá…e as coisas começaram a funcionar. E o primeiro filme funcionou, o primeiro filme foi apresentado aqui na Cinemateca quando eu não tava sequer morando em Portugal, estava fazendo a produção de um pavilhão alemão, na Alemanha, mas começaram a funcionar, e foi quando eu tinha 33 para 34 anos, depois do outro país que eu tava, na Alemanha dirigindo um pavilhão temático alemão, nunca tinha ganhado tanto dinheiro na vida, tinha o salário mais alto da minha vida, loucamente, e eu perguntava “What i am doing here?.” “Mas o que eu estou fazendo aqui dirigindo um pavilhão?” E houve um divórcio entre os espanhóis – para quem eu trabalhava, e os alemães que contratavam os espanhóis. E eles queriam me contratar, os alemães, e eu disse: “não, não, muito obrigado, e eu volto para Lisboa”. E aí eu disse pronto, vou tentar fazer filmes. E foi aí que eu fiz um filme que para mim era muito importante, que era sobre a história da minha mãe, e da minha família, e depois a coisa começou a se tornar um hábito. Que a vida das pessoas é um pouco assim, é como você entrar num trem. Tem pessoas que nunca entram em trem nenhum, tem sempre uma coisa aqui e outra ali. Eu sou um pouco assim vai mudando, mas tem pessoas que casam e passam 20 anos casados, 30 anos casados, 50 anos casados. Do ponto de vista profissional tem pessoas que tem um emprego toda a vida, eu não tenho emprego. Tive emprego pontualmente, mas o fato de que o cinema fosse algo que eu podia fazer e pelo qual ia sem garantia de amanhã, mas com alguma continuidade. Foi algo que começou quando eu tinha 35 anos, e eu tou com 56 anos, e se manteve. Períodos mais complicados, períodos menos complicados, mas pra mim foi sendo uma espécie de trem ao qual eu entrei e fazia parte desse trem morar também em Portugal, mas desse trem eu fui tentando sair, fazendo um filme no Egito, fazendo um filme na Polônia, e na Rússia, e não sei quantos mais, ou fazendo filmes que me ligavam ao Brasil também, e a um dado momento eu disse: “não, é agora ou nunca, eu estou com 50 anos, ou eu vou voltar e morar no Brasil e experimentar isso, ou então já está demais.”


Ricardo Schöpke: Por que resolveu habitar em território brasileiro justamente no período mais tenebroso, e funesto, de nossa história política?

Sérgio Tréfaut
: Tem uma questão de idade, tem um momento que você diz é agora ou nunca. É agora ou nunca, se vou ficar aqui, vou apodrecer e vou ficar como os musgos da parede. E depois também era uma aventura, era claramente uma aventura, eu ia para a casa de uma amiga, me instalava em casa dessa amiga, morando no Rio de Janeiro e tinha familiares em São Paulo que dizia: “Ah você vai pra esse lugar onde ninguém é fiável”. E depois todos os preconceitos, os meus amigos portugueses que acham: em Portugal eu abro a boca em um táxi e sou um brasileiro na hora, eu entro no café e eu sou brasileiro na hora. Mas para a minha família afetiva eu sou uma mistura e não me veem como um estrangeiro, me veem como um deles, e sabem que eu faço parte também desse universo aqui. Que não é um universo que se modifica do trabalho, e da classe intelectual portuguesa me exclua, ao contrário me integra, mas quando eu filmava no Alentejo, tinha uns meninos que diziam: “mas por que o brasileiro está fazendo um filme sobre os alentejanos? E o que é você sabe disso?” E depois, no final ficaram contentíssimos, encantados. Felizmente, eu sou contra completamente a história do lugar da fala. Eu acho que toda a gente tem o direito de falar sobre tudo, depois paga as consequências do que disse. Pra mim, na minha história pessoal, era algo que eu desejava, sempre, desejei sempre, e a um dado momento já não era possível. Houve períodos que eu pensei que iria morar em Madri, e tal, mas tinha que ser. O Brasil ou nada. E a instalação no Rio de Janeiro, era uma instalação que eu não sou medroso, mas que eu ia com cuidado. Eu tinha um projeto de filme. Uma coisa é você ir com a cara e coragem sem nada. Eu tinha um projeto de filme financiado por Portugal e pela França para fazer no Brasil. Eu tava protegido, e além disso eu ia me instalar e alugar uma casa e fiz isso. Mas do ponto de vista afetivo senti que os meus amigos cariocas eram família, eram pessoas que me abriam as portas, que mobiliavam a minha casa, que me acolhiam nas casas deles, que me tratavam como da família deles. E isso foi para mim muito determinante na decisão de sim, eu fico, e sim, eu quero, além do amor que eu tenho de ir fazer compras na esquina, e do sentimento que eu tenho pela pessoa que vende no Bar do Serginho, ali ao lado, onde eu tomo caipirinha e onde eu compro papel higiênico, tudo. Então, esse espírito do Rio de Janeiro, minhas relações afetivas, amorosas, tudo isso, é diferente. É totalmente diferente, e eu sinto que lá, não estou no meu único lugar, de modo algum, pois eu sinto falta do médio oriente, por exemplo, venho à Lisboa e me sinto muito confortável. Vou à Madrid, e à Sevilha, e me sinto muito confortável, vou à Rússia e me sinto muito confortável, mas a minha base nos próximos 10 anos será o Rio de Janeiro com certeza!


Ricardo Schöpke e Sérgio Tréfaut na Cinemateca Portuguesa. Crédito Benita Prieto.

Ricardo Schöpke: Um período em que se elegeu um golpista, um apologista da tortura e da ditadura? Algo muito emblemático devido a sua história de ruptura com o Brasil, e o seu retorno justamente em um cenário de idade das trevas fake e tosco.

Sérgio Tréfaut
: Eu sou um privilegiado, muito claramente, eu reparo, que por um lado as pessoas do meu grupo cultural e social todas querem ir embora. Eu não tenho o problema que muitos dos brasileiros, cem por cento brasileiros têm, que é aquela fratura de que na minha família tem de um grupo e tem do outro. Não. A minha família não tem. A minha família não tem essa divisão. O que tem é essa tristeza de ver que todas as pessoas que eu vou conhecendo tentam fugir do país, neste momento. Essas por de uma caça às bruxas, que não é uma caça às bruxas delas irem para as prisões, mas é uma caça às bruxas do cinema ter sido aniquilado e destruído, isso é óbvio. Mas não são só eles. Toda a população brasileira, você entra num táxi e está ansiosa para sair do Brasil. Porque não vê futuro nenhum. E não vem só do Bolsonaro, vem de uma crise econômica que vinha de antes e que se acentuou com a pandemia. Há um período de felicidade brasileira que vai até 2012, 2013, e há um período de preocupação e desespero que agora é muito grande. Ou seja, toda a gente quer ir embora. Porque é que eu posso ficar lá, porque do ponto de vista estrutural, porque os financiamentos para a minha vida não só vem do Brasil. Ou seja, porque eu tenho filmes que são financiados por Portugal e pela França neste momento. Projetos de pesquisa que são assim, isso me permite continuar no país que está no naufrágio. E essa é a sensação. O cotidiano, como é que uma pessoa se relaciona com o cotidiano? Meu irmão mora em São Paulo. Ele sofre horrores, ele vê a televisão de manhã à noite, e aquilo tudo é um sofrimento, é uma tortura. Eu não sou uma pessoa que vejo televisão de manhã à noite. Quando eu escrevo artigos eu me foco, eu não gosto de ser invadido pela realidade, eu gosto de procurar a realidade e de me informar sobre a realidade, mergulhar nela quando eu quero, da maneira que eu quero, mas não ser bombardeado permanentemente. O que é o horror é a vida cotidiana no sentido de você ser confrontado com uma pobreza muito grande, isso você no Rio de Janeiro é confrontado de uma maneira muito violenta. E as pessoas falam: “e você não tem medo da violência?” Não. Eu até tive duas tentativas de assalto. Uma não se concretizou, e não foi comigo, e tal, foi com o carro em que eu estava. Aconteceu, e eu não fiquei traumatizado. E outro dia, no Rio de Janeiro, nós estávamos em filmagens também, e tentaram assaltar o câmera. Isso não me traumatizou. O que me é muito doloroso e o grau de injustiça social que você tem para sobreviver de encontrar carapaças. Porque no dia a dia se você não vive isolado, em uma redoma, eu descendo de casa para Glória, sentando em uma mesa de café, você é abordado permanentemente por pessoas que as vezes são uns homens que pedem para comer. Então, isso é violento, isso é muito violento, e você tem que aprender a conviver com isso. Agora que as pessoas não queiram viver nesse universo, não é por isso que esse universo vai desaparecer. Não é porque não vive na Suécia que não existe “biafra”, não é porque você não vive em Calcutá, que Calcutá possa ser um paraíso, continua a ser o que é. O Rio de Janeiro não é porque eu não to lá é que ele vai ser melhor. Você precisa conviver com a realidade. Eu consigo conviver com a realidade, e me fazer pensar sobre a realidade.

Ricardo Schöpke e Sérgio Tréfaut na Cinemateca Portuguesa. Crédito Benita Prieto.

Ricardo Schöpke: Você já lançou filmes no circuito brasileiro comercial? Você é tratado no Brasil como um brasileiro, ou como um realizador português, e assim não tem o direito em entrar nas cotas de exibição de filmes brasileiros? És tratado como um estrangeiro no Brasil?

Sérgio Tréfaut
: Isso não tem nada de psicológico, isso tem de factual, ou seja, quando um filme tem a Ancine, quando um filme tem o financiamento da Ancine, parcial, ele é um filme brasileiro. Ou seja, o “Raiva” que não parece ter nada de brasileiro – a criancinha é brasileira -, mas não parece ter nada de brasileiro, mas tem, tem o técnico de som, tem a Karen Harley, mas não é um filme brasileiro para quem vê o filme, mas é um filme brasileiro. O “Paraíso” não é um filme brasileiro por não ter financiamento e nem a Ancine, e nesse momento o que acontece nas salas do Brasil e tão difícil, por causa da pandemia. É natural que as pessoas não queiram estar nos cinemas. É mais razoável pensar no lançamento desse filme, o “Paraíso”, numa coisa televisiva, plataforma nesse momento, para que as pessoas possam o ver. A única exibição que eu fiz propositadamente foi uma vez que as minhas personagens tiveram todas vacinadas, a gente fez uma projeção ao ar livre, no Palácio do Catete, porque essas pessoas eu queria que eles vissem enquanto são vivas. Essas eu queria muito que vissem. E as que estavam lá, foi uma felicidade incomensurável. A Ilka que eu filmo com 100 anos, ela veio à projeção com 102 anos e fez questão de me abraçar.

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