Flávio Santos: Edna Savaget

A Pioneira Edna Savaget

Na Rádio Vera Cruz do Rio de Janeiro, em meados da década de 30, uma menina de 8 anos, sob o pseudônimo de “Peixinho Dourado”, declamava trechos de poesias infantis. A menina se tornaria uma das maiores e mais longevas comunicadoras do rádio e da televisão brasileira. Edna Savaget foi uma das pioneiras no comando de programas dedicados às mulheres na TV. O programa da Vera Cruz, o Escola do Lar, era comandado pela mãe de Edna, Dona Carmen Lúcia Savaget, casada com Felipe Savaget, poetisa e outra comunicadora pioneira que se preocupava com a formação cultural feminina e de quem herdou a ousadia.

Nascida na Estação Riachuelo, subúrbio do Rio de Janeiro, em 19 de maio de 1928, Edna Savaget Teixeira Leite, estudou no colégio Pedro II e se formou em jornalismo na 1.a turma da Faculdade Nacional de Filosofia, no ano de 1951, estudou violino por muitos anos e confessava que gostava mesmo era de poesia.



O Início.

Começou sua vida como escritora publicando artigos e poesias em revistas culturais e literárias. Em 1949, ao lado de outros talentos da nova geração como Herberto Salles, Adonias Filho, Bráulio do Nascimento e Hilda Hilst, publicou um artigo na edição n. 9 da Revista Branca, um caderno cultural mensal. No mesmo ano, seus versos foram publicados no Diário Carioca e posteriormente na Gazeta de Notícias. Também contribuiu para o Caderno da Bahia, editado em Salvador, durante o início dos anos 50. Colaborou com o Jornal de Letras, com o suplemento Letras e Artes do jornal A Manhã, com reportagens e contos para a Revista Carioca e Radiolândia, com a revista O Cruzeiro e foi editora da revista Figurino, todas do Rio de Janeiro da década de 50.

Foi foca no vespertino A Noite, em 1949, onde começou a trabalhar como repórter policial, com apenas 17 anos, por um pedido do pai ao jornalista Antônio Vieira de Melo. Sua primeira matéria foi sobre uma greve de estivadores, mas logo no momento em que a classe estava brigada com a imprensa. Edna conseguiu o furo de reportagem fingindo ser filha de um estivador.



Poetisa e escritora.

Seu livro de estreia, Contato, de 1952, era um pequeno volume com quatorze poemas, ilustrado pelo artista Santa Rosa, editado pela própria Edna e com boa aceitação da crítica especializada. Em outubro de 1960 lançou seu segundo livro, também de poesias, Breviário de Salvador, com coquetel no Clube Monte Líbano. Por esse trabalho ganhou um prêmio em um concurso organizado pela Gazeta de São Paulo. Lançou em 1987 o romance Plenamente Solidão. Depois, vieram, Silêncio no Estúdio, sobre os bastidores da TV Tupi, da TV Globo e o livro infantil A Menina e o Peixinho. Chegou a dizer que seu próximo livro seria um romance, mas nos últimos anos de vida estava para escrever sobre a história da TV no Brasil, mas não concretizou.



Era do Rádio.

Começou no rádio, em 1951, após aceitar o convite de Floriano Faissal para apresentar um dos quadros do inovador Boa Tarde, Madame na PRE-8, Rádio Nacional do Rio. O programa estreou no dia 6 de agosto de 1951 sob a organização de Patrícia Régis, então especialista em assuntos femininos, e pretendia “fugir aos cânones tradicionais” dos programas dedicados à mulher.

O Boa Tarde era dividido em 6 seções de 5 minutos cada, a saber: Teatrinho, O que toda mulher deve saber, Música, Seja Linda!, Rádio-Telefone e A mulher no Esporte. Sobre este último quadro, em 1954 o Brasil disputou a Copa do Mundo de Futebol na Suíça, e Deisy Lúcidi, que acompanhava seu marido Luís Mendes que era o correspondente da Rádio Nacional, apresentou o boletim A mulher na Copa do Mundo, um especial para o Boa Tarde.

Edna produziu, escreveu e apresentou, em 1954, com a colaboração de Walda Menezes, o programa Aqui entre nós, na rádio MEC, uma atração repleta de entrevistas com personalidades artísticas e culturais brasileiras, além de promover campanhas beneficentes como a “Não deixe vazio o sapatinho do menino pobre”. Em 1956 dirigiu o programa Suplemento Feminino, nas tardes de sábado, na Rádio Eldorado. Já era então considerada a nova “especialista em assuntos femininos”.



TV Tupi.

Começou a trabalhar na Tupi em 1957, mas estreou como produtora (e diretora-geral) de televisão em 28 fevereiro de 1958, uma segunda-feira às 15h, com o programa feminino, Boa Tarde Cássio Muniz, na TV-Tupi, levada por Geraldo Casé e tendo como diretor de estúdio Haroldo Costa. O programa era estrelado por Maria da Glória, que interpretava uma dona de casa com seus problemas cotidianos.

O elenco ainda contava com Renato Consorte, Célia Biar e muitos outros. Edna era um personagem misterioso que nunca aparecia, sua voz era ouvida fazendo comentários. Em 1959 escreveu o roteiro do programa infantil Quem quiser que conte outra, também apresentado por Maria da Glória.



TV Continental: mande o povo pensar.

O deputado federal Rubens Berardo era proprietário da Rádio Continental. Ele arrendou, em 1958, a TV Continental, herdando os equipamentos sofisticados da Flama Cinematográfica, do bairro de Laranjeiras, zona sul do Rio. O marido de Edna, o arquiteto Leopoldo Teixeira Leite, com quem se casou na igreja da Santíssima Trindade em 1955, é o responsável pelo projeto do prédio da TV Continental.

A emissora, canal 9 no Rio, infelizmente faliu em 1971. Chegou a trocar o nome para TV Guanabara e se mudar para Vila Isabel. Em 1961, Edna produziu, sob comando do diretor artístico Haroldo Costa, E mande o povo pensar, às 22:40, um programa televisivo sobre literatura com boa resposta do público. Participou, com Eleida Casé (mãe da atriz Regina Casé) do popularíssimo Edifício Semina e do já firmado na grade da emissora desde 1959, o Estamos em Casa, faixa nobre das sextas-feiras, às 22h. Produziu ainda os programas de Cauby Peixoto, Agnaldo Rayol e Elizeth Cardoso. Antes da falência definitiva, Edna volta a trabalhar na TV Tupi para apresentar o programa Super Bazar. Savaget foi a primeira a falar sobre parto sem dor na TV brasileira. Corria o ano de 1964 e o censor do regime militar não gostou dos termos utilizados…



Global.

O jornalista Roberto Marinho começou seu reinado televisivo em abril de 1965. Entrava no ar a ZYD-81, TV Globo, canal 4 do Estado da Guanabara. Foi o ano de estreia do programa Sempre Mulher, com apresentação de Célia Biar e coordenação Edna Savaget, às 14h. Foi o 1.o programa feminino da Globo. Edna era então contratada da TV Tupi e os diretores da Globo, Rubens Amaral e Mauro Salles, tiveram que implorar pelo “empréstimo”. No mesmo ano, Savaget estava na coordenação de outro programa, o Festa em Casa, com apresentação de Paulo Monte. Foi uma das apresentadoras do Tele Globo, jornal que seria substituído pelo Jornal Nacional anos depois.

No programa diário Encontro às Quatro, de outubro de 1965 e com apresentação de Célia Biar e Paulo Araújo, Haroldo Costa aparecia sempre às quartas-feiras com o quadro Você sabe o que quer dizer samba? O “Encontro” tinha coordenação de Edna e direção de Joel Vaz. Participou da criação do informativo Show da Cidade, que seria o embrião do futuro jornal Hoje, de 1971. Savaget era editora-chefe, apresentava a seção literária do Show e fazia entrevistas.



TV Tupi: a volta.

Em 1958* começa o programa Boa Tarde, encomendado pela agência de publicidade Casé, que marcou época entre o público feminino. Bonita, inteligente e articulada, Edna estabelece o formato definitivo dos seus programas: um pouco de moda, culinária, artesanato, cursos, entrevistas com psicólogos e médicos, conselhos aos jovens, atrações culturais, astrologia e dicas para resolver prolemas cotidianos do lar. Em outubro de 1970 o programa passa a se chamar Programa Edna Savaget, nome escolhido pelo diretor Alcino Diniz.

Nos bastidores, entre 1968 e 1972, comandou a organização do vespertino Jornal da Tarde e a reformulação de parte do telejornalismo da Tupi, com a criação da Rede Nacional de Notícias. Nos seus últimos anos na TV Tupi, 1977 e 78, apresentou o programa de entrevistas Entre Aspas, sobre acontecimentos e atualidades da vida artística e cultural da cidade do Rio, e o programa Robert Milost e Edna Savaget. No final da década começaram os problemas administrativos e dívidas trabalhistas e a Rede Tupi foi à falência. Edna vai para TV Bandeirantes do Rio, canal 7.



Novos desafios.

Em 17 de julho de 1978 foi ao ar o Programa Edna Savaget, na TV Bandeirantes, sem muitas modificações do velho formato, sempre vespertino. Edna começa e sofrer com a concorrência de programas popularescos como o Aqui e Agora: o Povo na TV, dirigido por Wilton Franco na Tupi. O programa Povo na TV era um noticiário focado na já então alardeada “escalada da violência” no Brasil, além de apresentar reclamações da população. Por ele passaram Sérgio Malandro, Wagner Montes e o futuro deputado Roberto Jefferson, quando a atração foi para a nova TV Studios, de Sílvio Santos.

O programa de Edna amargava os últimos lugares no IBOPE. Uma diferença de quase 20 pontos em relação ao líder do horário. Mesmo assim, não modificou o conteúdo nem o nível de seu programa. Numa entrevista à revista Cruzeiro, em 1979, Edna achava que as mulheres estavam “Redescobrindo os encantos da vida domestica…”, por estarem submetidas, na prática, a uma exaustiva dupla jornada de trabalho.



TV Mulher.

Um marco na televisão brasileira, o TV Mulher estreou no dia 7 de abril de 1980, uma “TV dentro da TV Globo”, como diziam, e que prometia revolucionar os cansativos programas femininos, começando pelo horário escolhido, às 9 horas da manhã. A nova atração foi produzida em São Paulo, durava longas 3 horas e era apresentado pela jovem Marília Gabriela em parceria com Ney Gonçalves Dias. Contou com todo o poderio financeiro, artístico e profissional da Rede Globo.

Depois de alguns programas, Maria Helena Dutra, em sua coluna chamada Televisão, no Jornal do Brasil, afirmou que a originalidade estava apenas no novo horário e que a nova atração era “uma mistura do que Edna Savaget, Xênia, Maria Teresa Gregory e outras já realizaram”. Os programas das décadas posteriores, apresentados por mulheres nas TVs brasileiras, tinham uma única diferença em relação aos de Edna: rostos novos.

Na verdade, depois do impacto inicial, o programa TV Mulher costumava perder para a programação infantil da TV Studios, amargando derrotas para o palhaço Bozo e tendo que alterar o horário para às 11:30, ainda em 1984. A razão, segundo pesquisas de audiência, era que as mulheres da época estavam ocupadas com as tarefas domésticas naquele horário.



Padrão Bandeirantes de qualidade.

Em 1981, João Jorge Saad, então presidente da Rede Bandeirantes de TV, contratou um dos gênios da televisão brasileira, o ex-Globo Walter Clark para ser seu diretor-geral. O acontecimento causou um burburinho no mundo televisivo e era uma promessa de acabar com a liderança absoluta nos números de audiência da Rede Globo. Sua entrevista coletiva foi um acontecimento concorrido, o novo diretor prometia uma nova TV Bandeirantes, agora voltada para o esporte e o jornalismo.

A reformulação da grade de programas implementada por Clark, em meados de 1981, ocasionou a demissão de Edna. Seu programa foi substituído pelo Cidade Aberta, de variedades e serviços, apresentado no Rio por Vera Barroso. A aventura de Clark foi uma tentativa de imitar a Globo sem os recursos e infraestrutura da “Vênus Platinada”. Junto com Edna foram despedidos Hebe Camargo, Moacyr Franco e Chacrinha.



Anos 80: idas e vindas.

Com a demissão, logo em dezembro de 1981 voltava ao ar, fazendo uma participação efêmera no Primeira Página, programa de entrevistas no estilo “mesa redonda”, mediado por Teresa Fernandes na TV Educativa do Rio. Os anos 80 começavam e o programa de Edna continuou na mesma toada, o mesmo formato destinado a um pequeno público fiel. Se justificava dizendo que “as mulheres continuam a padecer dos mesmos males”. Acreditava que sua audiência era composta por mulheres: “que ainda pilotam um fogão apesar de reconhecerem que o mundo é bem maior do que a cozinha de suas casas”. A percepção que a crítica tinha do seu programa, jocosamente chamado de “aulinha de culinária e jardinagem”, definição que a irritava, pois, se tratava de memória seletiva. Entretanto, não era assim que parte do público e da intelligentsia encaravam.

O teatro besteirol foi um gênero teatral de comédia com peças divididas em esquetes, influenciado pelo texto dos autores teatrais Mauro Rasi, Tim Rescala, Miguel Falabella e Vicente Pereira. Um teatro de deboche que fez muito sucesso na década de 1980.

Da segunda geração do besteirol carioca, assinada por Maninha Cerrone, Lola Lorraine e Marcelo Caridat, dentro do espetáculo Perdidos num espaço, a esquete Diviníssimas, uma sátira aos programas “femininos”, apresentada pelas personagens gêmeas, Roseclair e Joseclair, eram inspiradas em Hebe Camargo e Edna Savaget. Dentro do quadro de humor, as personagem davam conselhos e distribuíam brindes.

Além da baixa audiência, dos concorrentes apelativos, os programas de Edna sofriam pela falta de recursos das emissoras. Tanto na Record Rio (estreou em maio de 1983 um programa que durou nem um ano) como na volta à TV Bandeirantes (um programa matutino, o Ela, de 1984) Edna foi vítima do fechamento dos respectivos núcleos de produção no Rio.

O último programa Edna Savaget na Bandeirantes foi ao ar no dia 30 de junho de 1989. Voltou a trabalhar na TV em 1996, participando eventualmente do programa de entrevistas Sem Censura, da TV Educativa do Rio, então apresentado por Lúcia Leme. Depois de 33 anos de trabalho na TV, sua participação foi interrompida por problemas de saúde.

Edna morreu de Câncer no dia 13 de setembro de 1998, no Rio, no seu apartamento em Botafogo, aos 70 anos. A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro concedeu o Título de Benemérito post-morte à Edna, em 2003. Em 2017, Emília Silveira dirigiu o documentário Silêncio no Estúdio, uma coprodução da Globo Filmes e da Modo Operante Produções, sobre a vida e a carreira de Edna Savaget.

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* E não como dizem, 1961. Vide Revista Radiolândia, ed. 215. pág. 52.

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