Douglas Delmar entrevista o Escultor gaúcho Vinícius Ribeiro

Vinícius Ribeiro – Acervo Pessoal

Vinícius Ribeiro - Acervo Pessoal

Vinícius Ribeiro nasceu e vive em São Luiz Gonzaga, região das Missões, noroeste do Rio Grande do (território que permaneceu ocupado pelos jesuítas e índios até a expulsão destes pelos exércitos de Espanha e Portugal, que se estabeleceram na região após o Tratado de Madri, em 1750.).

Ainda na infância, Vinícius teve contato com histórias em quadrinhos e enciclopédias ilustradas, conhecendo a vida e as obras dos grandes mestres da escultura. Mais tarde, começou a confeccionar pequenas peças de artesanato em resina. Artista autodidata, a mais de quinze anos, trabalha exclusivamente com esculturas. Atualmente produz peças de diversos materiais e tamanhos, dentre os quais são concreto armado (monumentos, estátuas e bustos), pedra e resina.

Vinícius já possui diversos trabalhos seus expostos por São Luiz Gonzaga e outras cidades. Suas obras também se tornaram pontos turísticos, pois ajudam a contar um pouco da história e da cultura missioneira. O Escultor gaúcho defende a ideia de que a arte é profissão viável!

Monumento Sepé Tiaraju - Acervo Pessoal

. Como nasceu o seu interesse pela escultura?

Na infância, ao ter contato com as antigas enciclopédias, foi quando conheci a obra dos grandes mestres da escultura mundial: Michelangelo, Leonardo da Vinci, Antônio Canova e tantos outros…

· O que te inspira a criar suas obras?

Acima de tudo criar um símbolo! Acho que essa é uma das missões dos artistas: criar símbolos

· Quais técnicas e materiais você mais utiliza na produção de suas esculturas?

Na escultura tradicional é possível extrair ou acrescentar algo. Extrair é esculpir. Exemplo: esculpir na pedra; já acrescentar é modelar. Exemplo: modelar na argila.

O material que mais uso é o concreto armado e nele realizo as duas técnicas no mesmo material. Ou seja, acrescento e depois extraio.

· Muitas das suas obras retratam vultos históricos e também artistas do Rio Grande do Sul, como o líder indígena Sepé Tiaraju, o Cacique M'Bororé, os cantores Noel Guarany, Mano Lima, Cenair Maicá, entre outros. Qual a importância da Cultura Missioneira para você? E como ela reflete na sua arte?

Imensa importância! Esta nossa região missioneira vivenciou uma experiência inédita na humanidade de convivência pacífica e produtiva entre Guaranis e Jesuítas. Porém, foi trágica e inexplicavelmente devastada, reduzindo o esplendor a ruinas. As artes têm a função e também a obrigação de contar essa história à sua maneira, despertando nas pessoas o interesse e o gostar.

O primeiro contato de muitas pessoas com a história das missões foi através das artes! Um exemplo disso são as músicas apresentadas pelos inúmeros músicos missioneiros nesses últimos 50 anos. Antes deles, poucas pessoas falavam e muito menos entendiam sobre as Missões e o que realmente aconteceu aqui…

Monumento Justiça Missioneira - Acervo Pessoal

· Você esculpiu o Monumento ao Pajador Jayme Caetano Braun, um grande artista missioneiro. A obra se encontra em São Luiz Gonzaga/RS e é um dos pontos turísticos da cidade. Conta pra gente como foi o processo de criação do Monumento. E qual foi a sensação ao ver seu trabalho finalizado?

O monumento do Jayme Caetano Braun surgiu por vergonha mesmo, quando estava inaugurando uma escultura em Porto Alegre em dezembro de 2006 (que coincidentemente era uma estátua em homenagem ao próprio Jayme), fui questionando no evento pelo tradicionalista Paixão Cortes com a seguinte pergunta despretensiosa de historiador que ele era: “Vinícius, o que São Luiz fez em homenagem ao Jayme?” Eu engoli em seco (pois eu sabia que não tínhamos feito nada) e dei um “peitaço” diante ao grupo presente dizendo que estávamos nos preparando para fazer algo “grandioso”.

Logo, em 30 de janeiro, dia do Pajador, na praça da Matriz em São Luiz Gonzaga fiz uma enquete: “Qual tamanho você gostaria que fosse feito uma escultura em homenagem ao poeta Jayme Caetano Braun? Coloquei vários tamanhos: 2 metros, 3, 4, 5 e por último 6 metros…. Ganhou o de 6 metros e então tive que correr atrás para realizar a homenagem. Há uma grande distância entre dar uma ideia e realiza-la. Para concretizar essa ideia, convidei as entidades: Casa do Poeta, CTG Galpão de Estância, Atelier de Artes Los Libres e o jornal A Notícia. Juntos iniciamos uma campanha de doações voluntárias com os admiradores do Jayme. O que nos dá muita alegria é saber que na escultura propriamente dita não há nenhum centavo de dinheiro público nela. Coube a prefeitura a confecção do pedestal.

Provamos com essa exitosa campanha que a Arte tem o poder de unir os povos e transformamos o trevo mais abandonado de São Luiz Gonzaga em local aprazível e encantador.

Monumento Jayme Caetano Braun - Crédito Tiarajú Goldschmidt

· Falando nisso, conte um pouco sobre a “Pajada” que, aliás, faz parte da cultura missioneira.

Pajada é pra mim, uma das mais difíceis manifestações artísticas que existe. É contrapor a outro opinando em décimas sobre algo, em versos rimados e improvisados, com temática diversa, porém sempre relacionada com as coisas do pago. É um tema complicadíssimo, fiz um texto no meu blog, quem quiser ler, favor ver aqui:

http://viniciusribeiroescultor.blogspot.com/2021/06/pajada-tem-que-ter-estilo.html

· Qual a importância da arte em sua vida? Ela modificou sua forma de ver o mundo? Como?

A arte “parece” ser supérflua, porém sempre foi indispensável para a sobrevivência sadia da espécie humana. Um mundo sem contato com a arte vai nos brutalizando aos poucos sem notarmos. Ela ajuda a conhecermos e compreendermos nossas emoções para que sejamos conscientes destas e não vítimas. A filosofia, a espiritualidade e as artes nos ajudam a ver o mundo com outros olhos…

· Quais artistas você admira? Algum deles já serviu de inspiração para suas obras?

Admiro muitas escolas da escultura mundial, procuro saber um pouco de todas. Muitos artistas me inspiram, tantos os antigos como atuais. Digo que a história de superação, de dedicação e domínio da técnica deles me inspiram sem jamais tentar ser parecido ou copiar. Eu sei bem em qual degrau da minha escada estou, não olho para a escada dos outros para não me sentir humilhado e muito menos arrogante.

· Além da escultura, quais são suas outras paixões?

História e turismo! Cada povo tem sua riquíssima história a ser preservada e contada! Preservar é Cultura! Contar é Turismo!

· Vinícius, a Revista do Villa agradece a sua participação. Desejamos todo sucesso em sua trajetória artística e cultural. Para finalizarmos, deixe uma mensagem aos nossos leitores!

Quando o Brasil comemorou 500 anos aqui na amada de Sete povos Missioneiros, nós comemorávamos 250. Conheça as Missões doregião ch Rio Grande do Sul e venha sentir de perto sobre o Esplendor que aqui existiu e ainda existe…

Quer saber mais? Visite meu blog: http://viniciusribeiroescultor.blogspot.com/

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