Rodolfo Abreu: Entrevista com a coreógrafa Jackie Motta

Jackie Motta tem uma vida dedicada à dança, atuando em palcos no Brasil e em vários países do mundo. Trabalhou com grandes nomes como Lennie Dale, Marly Tavares, Lia Rodrigues, João Saldanha, entre outros. Só na Companhia de Dança Deborah Colker foram 27 anos coreografando os espetáculos que levaram multidões aos teatros. Em 2021, a dançarina e coreógrafa virou a página, mudou-se com o marido para Paraty, litoral do estado do Rio, e iniciou nova fase em sua vida profissional, com o projeto Dança em Casa. Jackie Motta conversou com Rodolfo Abreu para a Revista do Villa.

Foram quase três décadas coreografando na Companhia Deborah Colker, em produções premiadas e de grande visibilidade. O que essa experiência trouxe para você e para sua carreira?

No começo eu era bailarina de palco. Fiz muito musical, teatro, até cinema e televisão. Fui então trabalhar com a Lia, depois com o João e a Deborah, e descobri a dança contemporânea. O trabalho ganhou mais consistência, uma dimensão conceitual. Percebi que eu tinha muita coisa para dizer. Acho que foi nessa época que eu passei a desafiar a gravidade, não no sentido de fazer acrobacia, embora tenha feito também, mas tirando cada vez mais os pés do chão. Nos últimos anos passamos a ter uma carreira internacional, viajando por toda parte para apresentar temporadas e participar de festivais. Hoje a dança brasileira é reconhecida no mundo, e me orgulho de ter dado minha contribuição.

Como foi a experiência de coreografar projetos especiais junto com a Deborah Colker, como o evento de abertura das Olimpíadas do Rio 2016 e o desfile das escolas de Samba do Carnaval Carioca? É verdade que você coreografou também um espetáculo do Cirque du Soleil?

O espetáculo de abertura dos Jogos Olímpicos é um desafio muito grande, não só pelo nível de exigência, uns 40 milhões de pessoas do mundo inteiro assistindo pela TV, mas também pela multidão que você tem que dirigir em cena. São centenas de participantes entre profissionais e voluntários. Trabalhamos feito loucos, mas valeu muito a pena. Tive também, por pelo menos cinco anos, a função de coreografar comissões de frente de escolas do samba no Rio de Janeiro. É uma coisa muito intensa, com o desafio coletivo de alcançar a nota máxima aos olhos dos jurados. Aliás, descobri que Olimpíadas e escola de samba tem uma coisa em comum: é um dia só, ou vai ou racha, não tem como ir melhorando aos poucos.

Já o Cirque du Solei foi um trabalho de relojoeiro, eu tinha que coreografar trapezistas e palhaços, tudo ajustado na música e na iluminação. Um trabalho muito delicado. Ao meu lado eu tinha alguns dos melhores profissionais do mundo naquela arte. Tudo isso tendo que morar nove meses no Canadá, aquele frio congelante, carregando os filhos comigo.

Uma experiência para nunca mais esquecer. Meu maior prazer foi quando o espetáculo estreou no Rio e meus amigos puderam assistir.

Como é seu processo para a criação de coreografia de um espetáculo?

Vejo a criação coreográfica como um processo coletivo, a gente cria junto com o corpo de baile. Mas não pode deixar de ter liderança, e essa é a tua responsabilidade. Lembro que no início o que me conduzia mais era a música, o ritmo, a marcação; com o tempo passei a prestar mais atenção nos personagens, nos temas e situações. Aí vem a busca dos movimentos que possam expressar aquela ideia, nunca de maneira literal.

Um exemplo: na pandemia, mais ou menos isolada em casa com a família, criamos uma coreografia chamada “A Espera”. Esperando o que? A vacina, um passeio na rua, o abraço de um amigo? Não importa, o que me motivava era a ideia de esperar. Era ali que tinha que encontrar a poesia do movimento. E acho que ficou bem legal.

Você começou cedo na dança. Como foi sua trajetória até se tornar coreógrafa?

Ainda lembro de ficar horas arrumando o coque para ir dançar na escola de ballet do Theatro Municipal do Rio. Minha mãe me levava de ônibus, eu tinha seis anos. Depois descobri o jazz, que passava por uma explosão naquela época, e quem mais explodia era o Lennie Dale. Depois eu acompanhei quando ele montou o Dzi Croquettes. Acho que foi esse americano maluco quem abriu para mim toda a variedade do mundo da dança. Desde cedo eu dava aulas também, começando como assistente do Lennie. Teve uma época em que eu dançava e coreografava, até que o corpo pediu um descanso e eu fui parar na coxia e no house mix. É uma outra arte, que também me deu muito prazer.

Entre seus novos projetos, está o “Dança Em Casa”. Nos conte do que se trata essa novidade?

Essa foi a nossa grande onda desde 2020, quando todo mundo ficou trancado em casa. Não tinha teatro, nem público, muito menos patrocínio. Juntamos três bailarinas, eu e minhas amigas Pilar Giraldo e Bianca Lopes, para oferecer às pessoas a alegria de dançar pelo Zoom. Foi muito legal, aliás está sendo. Escolhi trabalhar com pessoas de mais de cinquenta anos e pouca vivência de dança. O importante é tomar consciência do corpo, esticar os músculos, exercitar a memória e principalmente se divertir bastante. Criamos personagens, tem figurino e espetáculo no fim do ano. Foi muito bom para meus alunos, e para mim também. Aprendi muito com eles.

Hoje, com mais ofertas de escolas de dança, mais pessoas querendo trabalhar com dança, que conselho você pode dar para os jovens que desejam trilhar essa carreira?

Quando comecei a dançar com o Lennie, ele me disse assim: você tem que botar tesão, tem que soltar a mente. Nunca cruze os braços, nada é impossível. Não deixe ninguém te dizer que você não consegue. Eu anotei e levei isso pela vida toda. Depois fui acrescentando outras verdades: trabalhe com dedicação, até suar a sapatilha. Observe os outros, porque eles podem te ensinar tanto quanto você ensina a eles. Aprenda a aceitar as contribuições. E não esqueça nunca que isso não é exercício, não é teoria, não é aula, na verdade é a forma de arte mais sublime que o corpo humano pode oferecer.

Jackie Motta
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