Roberto Lúcio: Quem tem medo da língua portuguesa?

Parece que 2021 será lembrado em Portugal como um ano controverso para a música e à língua portuguesa. Discussões acaloradas tomaram conta da mídia a partir de janeiro com a medida que obrigou as rádios a apresentarem um mínimo de 30% de canções nacionais. Em março, fomos surpreendidos com a vitória de uma música totalmente em inglês no tradicional Festival da Canção. E desde outubro, com a estreia de uma nova edição do já consagrado programa de televisão The Voice Portugal, o público tem visto dezenas de apresentações em línguas estrangeiras. Será que esse será lembrado como um ano de vitórias ou de derrotas para a língua portuguesa?

Desde a pandemia no ano passado, com shows cancelados em função da necessidade do isolamento social, artistas no mundo todo tiveram que se reinventar para manter sua fama e seu próprio sustento. Enquanto a grande indústria internacional passou a oferecer lives, os artistas locais e menos conhecidos se viram em dificuldade de sobreviver apenas com a venda de álbuns físicos, além das músicas tocadas nas rádios e no ambiente virtual. O problema econômico para a classe artística levantou uma discussão sobre o enfraquecimento da identidade portuguesa em um mundo globalizado.

Após 2020 com enormes prejuízos, mais de 450 músicos e autores portugueses redigiram um texto-manifesto, alertando quanto à necessidade “do contacto com o público” e de ao menos serem ouvidos. E a ministra da Cultura, Graça Fonseca, anunciou o aumento da quota nas rádios como uma medida que buscava “incrementar a divulgação de música portuguesa” e “a sua valorização em benefício dos autores, artistas e produtores”.

Parecendo ignorar a valorização do idioma, o público lusitano respondeu de forma inusitada e a canção totalmente cantada em inglês “Love Is On My Side”, dos The Black Mamba, recebeu votação avassaladora e foi a escolhida para representar Portugal no 65.º Festival Eurovisão da Canção.

A crítica musical Marcela Pereira foi uma das muitas pessoas que se manifestaram contra a escolha do público.

“Há formas musicais que fazem sentido serem cantadas em inglês. Uma musicalidade que tem a ver com o Rock in Roll americano, se cantada em português perde um pouco. As canções em inglês não eram a maioria que estavam no Festival da Canção. Mas as pessoas estão habituadas a ouvir cantores e artistas em inglês. Para representar Portugal no Festival Eurovisão o que faz verdadeiramente sentido é levar alguma coisa que nos represente, porque senão vamos ser mais um. Se formos olhar para as músicas, elas estão todas mais ou menos iguais e cantadas em inglês.”

O cantor Devi D também foi um dos que questionaram o resultado da votação. “Eu não sou nada contra que os artistas componham músicas em inglês. Mas para um concurso que tem como fundamento representar seu próprio país, cada um deveria levar sua própria cultura. Não estou a dizer que deveria ser apenas fado. Há vários estilos. Mas para representar seu próprio país tem que ser na língua nativa.”

E a polêmica continua. Basta observar as músicas mais pedidas pelo público em geral e vemos que os mesmos artistas internacionais se destacam nas paradas do mundo todo. Em Portugal, nomes como Bárbara Bandeira, Beatriz Costa e Ana Moura lutam por espaço ao lado de Ed Sheeran, Coldplay, The Weeknd e Adele.

Acrescentando lenha na fogueira, a edição mais recente do programa “The Voice Portugal” prossegue com muitas canções em português, mas também vemos apresentações em inglês, italiano e espanhol. A expectativa sobre a final dessa vez não se restringe quanto apenas ao mais novo artista descoberto; o público também se pergunta sobre em qual língua as músicas que irão decidir a competição serão cantadas.

No mais recente capítulo dessa discussão que parece não ter fim e envolve dinheiro, indústria musical, identidade cultural e gosto popular, o aplicativo spotify trouxe essa semana a lista pessoal das músicas tocadas para cada usuário. Se você quiser saber realmente de que lado está, basta ver o seu próprio top 10 e conferir se tem um gosto mais globalizado ou se valoriza mais as produções de seu próprio país.

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