Claudia Pamplona: O Branding Mágico das Ondas do mar

Na coluna de hoje Claudia Pamplona traz uma imagem que tem um branding mágico e que boa parte do mundo já viu. Se não foi pessoalmente, foi através de quadros, fotos, camisetas, biquinis, chinelos, cangas, lençóis, lápis, canecas, enfim… uma infinidade de mercadorias são valorizadas por imprimir estas curvas pretas e brancas de grande importância para a arte e o comércio.

E se você sabe onde encontramos estas ondas, vamos ver se realmente conhece a sua história? Esta é parte da foto da Praça do Rossio, no Centro de Lisboa, Portugal.

Se cogitou essa possibilidade, está de parabéns! Porque com certeza a maioria das pessoas associam única e diretamente esta foto a parte do calçadão de Copacabana. Isto porque inicialmente esta imagem foi muito visualizada através de clássicos cartões postais. A estampa também era usada em muitos objetos por artesãos que trabalhavam no próprio calçadão reproduzindo a imagem em mercadorias que eram vendidas como souvenir para os turistas.

Vale a pena lembrar que na década de 50, Copacabana foi um dos principais “points” dos músicos da Bossa Nova e a sua praia ganhou o status nobre de “Princesinha do Mar” na música e na voz de Dick Farney pelo mundo afora. Portanto, desde então, além da beleza natural e do glamour, o local tornou-se um dos principais pontos turísticos de alvo internacional. Sendo muito associada à arte e ao marketing da Cidade do Rio de Janeiro.

Entretanto, para quem já visitou o Passeio do Rossio, em Lisboa, fica a dúvida de a quem pertence essas ondas que com certeza remetem a uma homenagem ao mar, especificamente apesar de lados diversos, continentes diferentes, mas o mesmo oceano; cujo nome é Atlântico.

Para nos ajudar a entender toda a história polêmica desta marcante imagem, a Revista do Villa convidou a artista plástica Isabela Francisco, que tem um coração luso-brasileiro mas conseguiu nos conceder uma entrevista muito esclarecedora.

Primeiramente, pedimos a Isabela Francisco que falasse um pouco da arte e da história dos dois pontos turísticos: a Praça do Rossio e a Praia de Copacabana.

Para Isabela, não tem como um brasileiro não se surpreender ao chegar na Praça do Rossio e se deparar com o seu pavimento. A conexão com uma das praias mais famosas do mundo é imediata, praia Copacabana. A calçada é um dos elementos mais marcantes da expressão criativa e artística portuguesa. Tudo começou com a presença romana no território português mas a verdadeira afirmação da calçada portuguesa surgiu apenas no século XIV e essa referência foi ainda mais evidente com a reconstrução de Lisboa por Marquês Pombal, após 30 terremoto de 1755. Entretanto, o gosto pela calçada com sentido artístico foi marcado no século XIX, com o oficial Eusébio Furtado, que alimentou a intenção de ver as ruas da Cidade sedimentadas desta forma.

Nesta fase, nasce um passeio onde os transeuntes ganham uma plataforma que lhes garante comodidade e segurança. E um dos exemplos mais proeminentes é justamente a Praça do Rossio. A esta calçada em especial é dado o nome de “Mar Largo” onde podemos presenciar extensa as ondas feitas entre, pedras brancas e a pedras pretas que representava junção do rio Tejo ao oceano Atlântico. Já o calçadão de Copacabana, no Rio de Janeiro, foi uma ideia do prefeito Paulo de Frontin para homenagear os colonizadores portugueses do Brasil. Assim, é feito o calçadão da praia no início do XX. Sendo importante notar que o estilo curvilíneo do calçadão de Copacabana atual foi delineado na década de 70, com o aumento da faixa de areia e o alargamento das pistas da Orla. Foi Burle Marx quem manteve o desenho original mas aumentou as suas curvas.

Continuando, perguntamos: Do ponto de vista da arte existe distinção do padrão de beleza e qualidade entre os dois trabalhos?

Para mim são verdadeiras belezas. Tanto a calçada do Rossio quanto o calçadão de Copacabana e percebo a mesma qualidade em ambos trabalhos. Os mestres calceteiros, que eram grupos de profissionais especializados nesse tipo de pavimentação na época, vieram direto de Portugal para fazer a colocação das pedras no calçadão de Copacabana. Eles vieram exclusivamente para reproduzir este trabalho, ou seja mantendo o padrão. As pedras também são originais, lusitanas. Depois o Brasil descobriu jazidas com pedras parecidas que possibilitam a sua manutenção; que ainda hoje é realizada por calceteiros que utilizam a mesma técnica, deixando os dois espaços com a mesma configuração artística.

Perguntamos a entrevistada como artista plástica: Qual é a técnica utilizada nos dois pavimentos?

Tudo começa com a presença romana no território português. Os romanos eram um povo perito na arte do empedramento e da calcitar, estes foram responsáveis pela semente desta técnica no povo português, que já tinham também a prática de projetar estupendos mosaicos. Os moldes dos calçamentos variam entre assentamentos em forma de quadrados alinhados entre si, em filas paralelas, em leque, maletes com pedras irregulares de tamanhos variados, cestavados de forma hexagonal, o mar largo e o assentamento circular. As pedras são sempre extraídas de Portugal, destacando-se o calcário e o basalto. Existem também pedras mais coloridas que são utilizadas para a produção de calçadas mais êxóticas. Os mestres calceteiros tinham técnicas próprias que marcavam a sua identidade a obra, tornando-as singulares e personificadas.

Para você, como é avaliar uma obra tecnicamente urbana que se tornou um ícone, uma obra de arte, de relevante expressão comercial?

Para mim, a arte é a vida em movimento. Ela tem que ter o dom de provocar emoções, causando espanto, admiração, ou até mesmo a insatisfação. Ela precisa “tocar, acordar e sacudir o outro”. Então, quando alguma arte ou alguma expressão artística se transforma num ícone, que por si só já diz ” o que é e ao que veio”, eu penso que o seu objetivo foi atingido. Então, quando você vê as ondas do mar da Praia de Copacabana no calçadão e impressas em camisetas, sacolas, canecas, entre outros objetos, identifico o imenso poder criador desta arte.

Finalizando, perguntamos à “Isabela Francisco por Isabela Francisco”, como é transitar nos dois pavimentos?

Para Isabela, transitar em Copacabana e na Praça do Rossio são experiências completamente diversas. “Por mais que os calçamentos sejam iguais na sua forma e para muitos, é difícil identificar se é um ou outro, particularmente a emoção é muito diferenciada. Estamos falando de diferentes continentes, a diversidade entre os dois lugares é muito grande, considerando principalmente o clima e os perfis das duas populações.

Finalizando, para mim , a imagem que é impressa no âmbito comercial remete às ondas da Praia de Copacabana. “Essa conexão entre a praia, a imagem do calçamento e a sua fotografia; é tão forte que pode haver pessoas que pensem que a Praça do Rossio é inspirada no calçadão de Copacabana“, brinca artista plástica.

Isabela Francisco na série "Sou Sol"

Isabela Francisco é tutora do projeto Fazendo Arte Por Toda Parte, que integra muitos valores mas que destaca-se pelo poder da interação. A artista concentra o seu talento de forma lúdica através de vídeos explicativos, como por exemplo: Calçadas Portuguesas.

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