Flavio Santos - Gilberto Martinho: o coronel da teledramaturgia brasileira.

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Gilberto Martinho de Freitas nasceu em Araranguá, Santa Catarina, em 14 de janeiro de 1927. Até sua chegada ao Rio de Janeiro, na década de 40, pouco ou quase nada se sabe de sua vida em Santa Catarina. No Rio, Gilberto trabalhou como escriturário e datilógrafo no escritório da Metro Goldwyn Mayer do Brasil (rua do Passeio, 62), enquanto estudava na Escola de Comércio.

Atraído pela vida artística desde moço, foi em 1948, quando assistiu a uma representação teatral da Companhia D-O, da atriz Dulcina de Moraes e do seu marido, o também ator Odilon Azevedo, que fez com que Gilberto, que resolveu “morrer para de novo nascer”, segundo suas palavras. Contra a vontade e opinião de sua mãe, pois ela achava que “artista era tudo vagabundo”, ingressou no Seminário de Arte Dramática do Teatro do Estudante do Brasil. Estudou por dois anos, sob a orientação do teatrólogo Paschoal Carlos Magno. No Teatro do Estudante, encenado no Teatro Phoenix, dentro do “Festival  Shakespeare”, Gilberto Martinho fez temporada com a peça “Romeu e Julieta”.

Provavelmente por sua atuação em uma dessas peças, entre os anos 1948-49, foi convidado pela atriz francesa Madame Henriette Morineau, de grande prestígio no Brasil, para participar do elenco da companhia Artistas Unidos, entrando efetivamente na vida profissional e excursionando pelo Brasil.

Henriette Morineau. Ano 1949. Revista A Scena Muda.

O tipo alto e forte, ou como se dizia na época, espadaúdo, tinha o que se chamava de “máscara para papéis característicos”. Foi logo notado pelos críticos e se tornou um novo galã de companhias de teatro e produtoras de cinema.

O crítico Antônio Olinto destacou a interpretação feita “com absoluta propriedade” de Gilberto Martinho no papel de um operário na película Maria da Praia, de 1951. O filme era um drama sob a direção de Paulo Vanderley. A Associação Brasileira de Cronistas Cinematográficos concedeu a Gilberto Martinho o Prêmio Revelação do ano de 1951, por sua participação na película, interpretando o personagem Alfredo.

Galã do Cinema. Revista A Scena Muda. 1952.

Originalmente em inglês, Tomorrow Will Be Different foi uma peça teatral apresentada em Londres, em 1946. Escrita pelo carioca Pascoal Carlos Magno, foi encenada na ótima temporada de 1952, no ainda Theatro Regina (atual Dulcina), Gilberto interpretou a personagem Roberto e teve uma atuação disciplinada sob comando do diretor Octávio Graça Mello.

Gilberto se maquiando. 1952. Revista Rio

Com boas atuações no palco e na tela grande, era considerado um astro promissor pelo crítico da revista A Scena Muda, Salvyano Cavalcanti de Paiva, que o considerou um “autêntico astro de amanhã”.

Gilberto foi um dos atores pioneiros da televisão no Brasil. Assis Chateubriand inaugurou a TV Tupi em 1950 e Gilberto participou de várias encenações d’O Grande Teatro Tupi.. Nesta casa, porém, seu principal sucesso televisivo foi no ano de 1957.

No dia 8 de outubro de 1957 estreava na Tv Tupi do Rio de Janeiro, canal 6, a primeira aventura do sucesso infantojuvenil O Falcão Negro, produzida por Péricles Leal. Gilberto atuou por sete anos ao lado de Haydeé Miranda.

Gilberto Martinho como o Falcão ao lado de Aidê Miranda. 1953. Revista do Rádio

Sobre essa fase de trabalho de Martinho e de sua desenvoltura com a espada, o colunista do Jornal do Brasil, Artur Xexéu, nos lembra de uma passagem engraçada:

“(…) os figurantes do programa infantil (…) tinham um certo temor de enfrentar o jeito naturalista com que Gilberto Martinho, (…) utilizava sua espada. Um deles, já escolado com as estocadas que levava toda semana, resolveu radicalizar. (…). Certo dia, (…) Falcão Negro puxou a arma, apontou-a para o figurante e soltou a frase-clichê: ‘Morra, miserável!’ (…) o figurante pulou pra trás, escapando do golpe mortal. (…) o tal figurante, mesmo fugindo da estocada, respeitou a marcação e caiu morto. (…) não fosse a presença de espírito de Gilberto Martinho que, mesmo surpreso (…), alterou o diálogo com precisão: – Quer dizer que além de miserável, és cardíaco?”

Não eram incomuns os pequenos acidentes. Em 1958, Gilberto levou um golpe de espada na cabeça e teve que se ausentar da produção por algumas semanas. O mesmo em 1960, quando levou uma estocada na perna.

Falcão Negro. Gilberto e Dari Reis. Imagem de Internet.

Ainda no teatro e cinema da década de 1950, Gilberto participou do filme Mãos Sangrentas, de 1955, uma produção paulista que retratava a fuga de presos em Anchieta. Mostrando o problema crônico do sistema carcerário nacional. O filme tinha produção de Roberto Acácio, direção do argentino Carlos Hugo Christensen e foi estrelado por Tônia Carreiro. Gilberto foi considerado revelação masculina, com excelente desempenho, ganhando o prêmio “Saci”, do jornal Estado de São Paulo, como coadjuvante, interpretando o presidiário “Cachorro”.

Gilberto Martinho em Mãos Sangrentas. 1956. Revista Cinelândia.

Em O Grande Pintor, de 1955, contracenou com humorista Ankito e Margot Morel. O filme contou ainda com participação de Wilson Grey.

Gilberto Martinho atua em O Grande Pintor junto a Margot Morel. 1955. Revista Cinelândia.

No mesmo ano, no Teatro Dulcina, participou da divertida comédia em três atos, com boa resposta do público, “Senhorita Barba Azul”, de Gabor Dregely, com tradução e adaptação de R. Magalhães Júnior, estrelada pela dama do teatro brasileiro Bibi Ferreira. No mesmo ano, em fevereiro, Gilberto foi substituído por Francisco Dantas, depois de uma má atuação, com péssima crítica jornalística. Alexandre Alencastre, da coluna “Ribalta” da revista A Scena Muda, disse que a interpretação de Gilberto não convencia no melhor papel da peça. Ele se afastaria por dois anos do teatro, se dedicando mais ao cinema.

Em 1956 participou de “Contrabando”, um filme de Mário Latini, com boa atuação, substituindo José Lewgoy. Obra com várias paralisações que levou alguns interessados a pedir o afastamento do diretor. O filme se desenvolve com a velha trama entre contrabandistas e “homens da lei”. Gilberto vive o protagonista, a figura violenta do personagem Timoshenko. Também fez participação, no mesmo ano, no filme do campeão de bilheteria, Amácio Mazzaropi, “Fuzileiro do Amor”, com Roberto Duval, Therezinha Amayo, Wilson Grey e Ângela Maria, um musical com direção de Eurides Ramos.

O dramaturgo americano Richard Nash escreveu em 1954 a comédia romântica The Rainmaker, que se tornou um sucesso e foi traduzida para vários idiomas. Aqui no Brasil, a tradução ficou por conta de Manuel Bandeira. A peça “O Manda Chuva” encenada pela Companhia Duce Rodrigues no Teatro Serrador, em 1957, foi um fracasso e ficou pouco tempo em cartaz. Foi protagonizada por Jece Valadão e teve a participação de Gilberto Martinho como Noé.

Revista Leitura. 1957. Jece Valadão com os braços abertos e Gilberto Martinho com lenço no pescoço.

Em 1963 o Brasil entra num período tenso da política nacional com reflexos na vida cultural. No período ainda “brando” da ditadura militar, em 1965, participou de “Chico do Pasmado”, uma sátira política com números musicais, de autoria de Aurimar Rocha, Renato Sérgio e músicas inéditas, especialmente compostas para a peça por Billy Blanco, apresentada no Teatro de Bolso do Rio. Gilberto, representando o personagem deputado Margarina Flôres, contracenou com Alzira Cunha, Aurimar Rocha e o onipresente Wilson Grey. Tratava-se de uma alusão à chamada “política de remoção de favelas” dos governos da Guanabara. No caso, dos moradores da favela do morro do Pasmado.

Aurimar produziu anteriormente a sátira “O Cunhado do Presidente”, para combater Leonel Brizola. A crítica do Correio da Manhã achou que o diretor pecou ao optar pela brincadeira, pela sátira de um assunto sério e oportuno como a remoção dos favelados. Gilberto foi elogiado pela crítica da Revista do Rádio.

Ainda na Tupi, em, 1964, participou da primeira novela gravada em vídeotape no Brasil, “Alma Cigana”, na TV Tupi, escrita por Ivani Ribeiro. Foi seu primeiro papel em uma novela, interpretando o personagem Barrabás.

Le Robe Mauve de Valentine foi escrita pela teatróloga Françoise Sagan e traduzida por Luiz Lima para a temporada de 1966 no Teatro Serrador. Em “O Vestido lilás de Valentina”, Gilberto viveu o marido complacente Jean Lou, com participações de Cláudio Marzo e Márcia de Windsor. Foi um sucesso de público, mas a crítica não gostou, e parte dela começou a implicar com a “aparência de vilão do cinema nacional” de Gilberto. Um ano depois estreava o terceiro filme de outro futuro campeão de bilheteria, Renato Aragão, o Adorável Trapalhão, com direção de J. B. Tanko, onde Gilberto fez uma pequena participação.

Gilberto em O Vestido Lilás de Valentina. 1966. Diário de Notícias

Quando ainda se fazia novela no prédio do Jardim Botânico, Gilberto estreou na Rede Globo do Rio, canal 4, no ano de 1967. Entrava no ar “Anastácia, a Mulher Sem Destino”, telenovela baseada no folhetim  A Toutinegra do Moinho, de Émile de Richebourg, adaptada por Emiliano Queiroz e, ao final, por Janete Clair para TV. Gilberto interpretou Garan, um dos 100 (!) personagens da novela.

Gilberto seria convocado para trabalhar nas novelas da Rede Globo por quase todos os anos entre 1967 e 1989, exceto 1988. É dessa fase da sua carreira artística que a maioria das pessoas tem memória. Os autores de novela, aproveitando a voz grave, o porte e o ar sisudo de Gilberto, entregaram ao ator alguns dos personagens mais lembrados das telenovelas nacionais, notadamente, “coronéis” nordestinos, delegados, fazendeiros e latifundiários.

Com Fábio Sabag (dir.) nos estúdio do Jardim Botânico da TV Globo. Revista Cinelândia. 1967.

E foi na primeira versão global da telenovela “Irmãos Coragem”, trama escrita por Janete Clair em 1970, que Gilberto interpretou um dos seus maiores sucessos, o coronel Pedro Barros, o todo-poderoso da cidade de Coroado e pai de Lara, interpretada por Glória Meneses.

Gilberto Martinho como Pedro Barros e Emiliano Queiroz (Dir.) 1970. Acervo Globo.

No teatro, Carlos Moura traduziu o texto de “Os Últimos”, de Máximo Gorki, espetáculo que fez temporada no desaparecido Teatro Mesbla, com cenários de Arlindo Rodrigues, coprodução de Paulo Goulart e direção de Carlos Murtinho. Gilberto participou da peça ao lado de Almir Telles, Míriam Pires, Eleonor Bruno, Annio Patino, Ana Ariel, Sílvio de Abreu e grande elenco.

Em 1975 foi a vez do sucesso mundial. A novela “Gabriela” foi uma adaptação de Walter George Durst para a televisão do romance de Jorge Amado, “Gabriela, Cravo e Canela”, de 1958. Numa das tramas paralelas, Gilberto foi o intérprete do reacionário coronel Melk Tavares, personagem que vivia o típico conflito de gerações com sua filha, a personagem Malvina, vivida por Elizabeth Savalla, “uma-mulher-à-frente-do-seu-tempo”. A famosa surra que o coronel Melk dá em Malvina é uma das cenas mais lembradas das telenovelas da Rede Globo.

Gilberto como o coronel Melk Tavares. 1975. Imagem de internet

Além das novelas, o ator ainda participou do programa “Caso Especial” e dos teleteatros da emissora. Em 1973, “Medéia Carioca” foi um teleteatro de adaptação de Oduvaldo Viana Filho do clássico Medeia. Na versão de Vianinha e direção de Fábio Sabag, a tragédia grega de Eurípides se passa nos subúrbios cariocas. Gilberto tem atuação marcante como o pai da noiva de Jasão, na versão suburbana vivida pela atriz Elisângela.

A première do drama escrito por J. B. Priestley, “An Inspector Call”, foi em 6 de julho de 1945, em Moscou. Em 1973 a TV Globo resolveu fazer uma adaptação com “Está Lá Fora um Inspetor”. Gilberto foi elogiado pela crítica do Jornal do Brasil. No mesmo ano foi Viriato, personagem principal de “Uma Questão de Opinião”, do roteirista Paddy Chayefsky, escritor então com três Óscares de Hollywood.

Outro produto de sucesso do Rede Globo foi a novela “Escrava Isaura”, de 1976. Com direção-geral de Herval Rossano e autoria de Gilberto Braga, foi adaptada do romance de Bernardo Guimarães. Gilberto viveu o Comendador Almeida, fazendeiro e pai do vilão da trama, o terrível Leôncio, vivido pelo ator Rubens de Falco. Henriette Morineau, a mesma que o contratou no final de 1940, fez uma participação especial na novela.

Comemorando seus 20 anos no ar, a Rede Globo produziu a minissérie “O Tempo e o Vento”, grande sucesso em 1985. Adaptado da primeira parte da trilogia de Érico Veríssimo e que contava a saga da família dos Terra Cambará, no do estado do Rio Grande do Sul do final do século XIX. Gilberto viveu o coronel Ricardo Amaral.

Gilberto como coronel Ricardo Amaral na minissérie O Tempo e O Vento. 1885. Imagem de Internet.

Sua última participação em uma novela global foi em “Roda de Fogo”, de 1986, como Gilson Góes, no grande sucesso de audiência de Lauro César Muniz. Nos anos 90 fez pequenos papéis no programa interativo “Você Decide”.

Como Gilson Góes, na novela Roda de Fogo. Imagem de internet. 1986.

Sempre com presença marcante em cena, as interpretações de Gilberto Martinho ficaram na memória do público. O homem que emprestava seus traços fortes aos personagens, lutava contra um câncer de pulmão nos últimos quatro anos de sua vida. Morreu aos 74 anos no hospital Copa D’Or, no dia 19 de agosto de 2001. Gilberto foi casado por 34 anos com Dona Maria Lucinda e deixou 3 filhos e três netos. Foi sepultado na cidade de Barra de São João, estado do Rio de Janeiro onde morava desde 1991. A Rede Globo custeou todo o tratamento do ator.

*1 BNRJ – Fotos do acervo da hemeroteca da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

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