Flavio Santos: O Brasil e a Revolução Verde

Trator Massey Harris da ESAL. Sem data. Crédito blog Tratores antigos

A cidade de Lavras e sua Escola Superior de Agricultura – ESAL – receberam em abril de 1969 a visita de quatro membros do Comitê dos Companheiros da Aliança do Colorado-EUA. Os estados de Minas Gerais e do Colorado eram “estados irmãos” dentro do projeto “Aliança para o Progresso”. John Kennedy era candidato à presidência dos EUA pelo Partido Democrata quando propôs, em outubro de 1960, um programa de 10 pontos para o desenvolvimento da América Latina e com duração de 10 anos, que incluía o apoio à democracia, empréstimos, estabilização de preços, estímulo à reforma agrária, intercâmbio cultural e ajuda técnica. Uma resposta americana diante da vitória final dos revolucionários liderados por Fidel Castro na ilha de Cuba em 1959.

Trator Massey Harris da ESAL. Sem data. Crédito blog Tratores antigos

Impressionados com a modernidade da ESAL, deram depoimentos entusiasmados ao jornal Tribuna de Lavras. Disse o Dr. Johnson, diretor de Agronomia da Colorado State University, em Fort Collins: “Estou impressionado com as possibilidades de desenvolvimento e de produção regional do País”. Na mesma toada, repercutiu o Dr. James Blackledge, presidente do Comitê dos Companheiros para Aliança do Colorado: “Fiquei impressionado com as ideias novas e modernas da escola”. O chefe do Departamento de Desenvolvimento do Estado do Colorado, o Dr. Robert Barroch, acrescentou: “Fiquei muito bem impressionado com o Departamento de Ciência do Solo”. Por fim, o repórter John Wilson, do Denver Post, deixou sua impressão: “Esta Escola, de alta categoria e de grande utilidade pública reflete a dedicação e sapiência do seu Diretor, o Dr. Alysson Paulinelli”.

Benjamin Harris Hunnicutt. Sem data. Acervo Universidade Mackenzie SP.

O agrônomo Alysson Paulinelli nasceu em 1936, em Bambuí, centro-oeste de Minas Gerais. Foi diretor da ESAL no final da década de 1960 e foi considerado um dos responsáveis pela transformação da escola em uma instituição de alto nível. A cidade de Lavras já era famosa por sua exposição agropecuária, fundada pelo missionário Benjamin Harris Hunnicutt, em 1922, e já incentivava o intercâmbio e viagens de estudos no exterior desde 1923. Paulinelli era presidente do Sindicato Rural de Lavras e presidente da ABEAS – Associação Brasileira de Educação Agrícola Superior, em 1970.

Dona Helene Barros Paulinelli e seu marido Allysson Paulinelli. 1971. Jornal Tribuna de Lavras. Acervo BNRJ

Com enorme prestígio e bom relacionamento com políticos mineiros do “Regime Militar”, chegou a ser cogitado para o governo de Minas em 1970, pela ARENA, o partido de apoio da ditadura. Em 1971 foi convidado para o cargo de Secretário Estadual de Agricultura, no governo de Rondon Pacheco, tomando posse em março de 1971. Durante sua gestão, repercutiu em Brasília, Rio e São Paulo o aumento da produtividade da agricultura e pecuária de Minas. Paulinelli teria conseguido safras recordes de arroz e algodão, aumentando 20 vezes a de soja. Um colunista empolgado do Jornal do Brasil sugeriu, num trocadilho, um suposto “salto (produtivo) de Minas”. Os números surpreendentes na agricultura mineira levaram o estado a ser escolhido para o lançamento da Campanha Nacional da Produção e da Produtividade do Governo Federal, em 1972, ainda na administração do general Emílio Médici.

Secretário Alysson Paulinelli discursa na cidade de Nanuque. 1971. Jornal O Imparcial. Acervo da BNRJ.

O mundo vivia o impacto do primeiro “choque” do petróleo, de outubro de 1973, quando os países produtores da OPEP, em retaliação ao apoio americano ao estado de Israel na Guerra do Yom Kppur (1973), subiram os preços do barril de 3 para U$12. Além disso, existia uma crise no mercado de matérias-primas e de alimentos. Em 1968 foi criado o obscuro Clube de Roma com o intuito de pensar o futuro do planeta principalmente em questões ambientais. Em 1972 o Clube produziu o famoso “Relatório Meadows” com previsões preocupantes (e alarmantes) sobre crescimento populacional, ambientalismo e produção de alimentos. Transformado em livro, foi um sucesso mundial de vendas.

Ministro Paulinelli na UFRJ. Rio de Janeiro. 1974. Acervo do Arquivo Nacional do RJ. Fundo Agência Nacional

Ernesto Geisel, general eleito indiretamente pelo Colégio Eleitoral como novo presidente da República no dia 15 de janeiro de 1974, recebeu no dia 28 o ex-secretário Paulinelli para “conversar generalidades” em seu gabinete no Largo da Misericórdia, centro do Rio de Janeiro. O governo militar e suas dissimulações. Foi confirmado no dia 21 de fevereiro do mesmo ano como o mais novo de um ministério com idade média de 53 anos. Paulinelli saiu festejado da secretaria de agricultura mineira no dia 28 de fevereiro de 1974.

Ministro Paulinelli com ruralistas na Fazenda Sobrado. São Paulo. 1976. Acervo do Arquivo Nacional do RJ. Fundo Agência Nacional. Fotógrafo Arquimedes

Como era o setor agropecuário no Brasil nos idos de 1974? Intervencionista e centralizador, no governo Médici ainda existia o chamado “confisco cambial sobre as exportações” que regulava e criava cotas estaduais de exportação de alguns produtos para não prejudicar o mercado interno e elevar a inflação. Os preços da carne eram tabelados e sempre considerados baixos pelos pecuaristas. Nos períodos de crise o Brasil importava carne, óleo comestível, arroz e armazenava toneladas em estoques nos galpões da antiga Cibrazem. Em São Paulo, de abril a outubro, existia a entressafra da produção de leite e o deficit no abastecimento era de mais de 430 mil litros por dia. A solução era a importação de leite em pó do mercado internacional. Em 1974, apesar dos estímulos econômicos, a agricultura nacional crescia 4,5% ao ano, desde 1968, enquanto o PIB crescia a 11%. O CIP, Conselho Interministerial de Preços, fixava a quantia e podia até enquadrar na Lei de Segurança Nacional a quem desobedecesse suas ordens. Segundo a Fundação Getúlio Vargas, o peso dos alimentos no bolso do trabalhador era da ordem de 48% em 1973.

Paulinelli com avicultores de 8 estados em Itaipava. Rio de Janeiro. 1977. Acervo do Arquivo Nacional do RJ. Fundo Agência Nacional. Fotógrafo Darilio

O novo ministro era otimista e garantia que a agricultura iria crescer de 6 a 7% ao ano, normalizando o abastecimento geral em 3 ou 4 anos. Que a produção e exportação de soja iriam crescer sem diminuição da área ocupada por gêneros básicos tradicionais do consumo do brasileiro, ou seja “sem prejuízo do mercado interno”. O jornalista e escritor Ivan Lessa ironizava as pretensões de Paulinelli: “como é jovem esse ministro”. Nas décadas de 1960 e 1970 muitos candidatos a cargos majoritários tinham como promessa de campanha a regularização do abastecimento. Certa vez, Paulinelli ouviu de um técnico que a agricultura era como uma bicicleta, não tinha como melhorar muito. O Ministro respondeu: “Pois agora vai virar uma motocicleta incrementada”.

Presidente Ernesto Geisel na Expo Agro 77. Barretos. São Paulo. 1977. Acervo do Arquivo Nacional do RJ. Fundo Agência Nacional

Foi nessa época que a Revista Time apontou o ministro, então com seus 38 anos, assim como outras seis personalidades latino-americanas, como “possíveis futuros líderes mundiais”. Destacando o trabalho do “supertecnocrata” na Secretaria de Agricultura de Minas.

Geisel e Paulinelli visitam silos de estocagem de trigo na Fazenda Unai. Minas Gerais. 1977. Acervo do Arquivo Nacional do RJ. Fundo Agência Nacional

Paulinelli deu uma prévia do seu pensamento, ainda em março de 1974, do que seria o ideal para o setor agropecuário do Brasil: “a função do governo não é plantar e colher, e muito menos comercializar os produtos agropecuários. (…). Tal função deva ser manejar instrumentos adequados, numa política agrícola firme e estável, que venha estimular os nossos produtores e empresários a realizarem com êxito a tarefa de produzir e abastecer.” As palavras-chave eram produtividade e expansão. Era preciso fazer vigorar no Brasil uma mentalidade empresarial, inclusive com ajuda de capitais externos, com empresas binacionais, gerando controle da inflação e criando recursos econômicos oriundos do campo.

Ministro Paulinelli entrega colheitadeiras a agricultores em Brasília. 1976. Acervo do Arquivo Nacional do RJ. Fundo Agência Nacional. Fotógrafo Arquimedes

A Embrapa, Empresa Brasileira de Pesquisas Agrícolas, foi idealizada em 1972, no governo Médici, seria responsável pela política nacional de estudos agropecuários, tecnológicos e socioeconômicos do setor. Com capital de CR$ 200 milhões, substituiu o Departamento Nacional de Pesquisas e Experimentação Agropecuária. A empresa possuía 11 institutos de pesquisa e 70 estações experimentais. O quadro de funcionários era de cerca de 6 mil. Muitos técnicos abandonavam a instituição em busca de salários melhores na iniciativa privada. Até para os cargos de gerência e administração das instituições de pesquisas faltava pessoal capacitado.

Ministro Paulinelli reinaugura frigorífico no bairro de Irajá. Rio de Janeiro. 1977. Acervo do Arquivo Nacional do RJ. Fundo Agência Nacional

Sob a nova direção do também mineiro e agrônomo, Almiro Blumenschein, a Embrapa foi reformulada e o Ministério da Agricultura criou convênios com o MEC para formação de pesquisadores com doutorado e mestrado. Paulinelli fez contato com técnicos da Universidade de Haifa, Israel, como o Dr. H. Y. Finkel, numa tentativa de conhecer os problemas e soluções para a agricultura no semiárido. Em dezembro daquele ano, o ministério firmou acordo agropecuário com a Alemanha Ocidental e entre a Embrapa e o IITA, Instituto Internacional de Agricultura Tropical, com sede na Nigéria. O acordo visava ao treinamento de brasileiros naquele país, assessoramento técnico e colaboração com a Embrapa Amazônia. A empresa fechou o ano de 1975 com 300 especialistas estudando em programas de pós-graduação, com 100 deles, no exterior.

Paulinelli lança campanha de Produtividade na AABB de Niterói. Rio de Janeiro. 1974. Acervo do Arquivo Nacional do RJ. Fundo Agência Nacional

A análise de solo já era usada largamente no estado de São Paulo e de forma incipiente nos demais estados, apensar de existirem 43 laboratórios especializados no país. Além do laboratório do Rio de Janeiro, criado em 1964, para onde eram enviadas amostras de solo de todo país. Geisel lançou em novembro de 1974 o Programa Nacional de Fertilizantes e Calcário Agrícola para aumentar a produtividade através da correção do solo e tornar o Brasil autossuficiente até 1980.

Entrega de prêmio de produtividade por plantação de arroz. 1978. Acervo do Arquivo Nacional do RJ. Fundo Agência Nacional. Fotografo Martins

No início do governo Geisel a expansão agrícola esbarrava no problema da falta de estrutura, silos, de logística. As estradas não chegavam até as áreas da fronteira agrícola e as ferrovias estavam em fase de desinvestimento. Para piorar, o preço das terras era considerado caro no centro-sul do Brasil, no triângulo mineiro e em São Paulo. Os jornais mostravam uma grande preocupação com a natureza da ocupação da Amazônia, com o desmatamento, dentro do II PND – Plano Nacional de Desenvolvimento (1974-1979), agora muito mais modesto e a Embrapa já descobrira que o solo amazônico era “pobre” para ao cultivo sob padrões da década de 1970.

O centro-oeste se mostrou muito mais viável e próximo dos grandes centros brasileiros. O Programa de Desenvolvimento do Pantanal – Prodepan, estendeu a infraestrutura, manteve subsídios, concedeu crédito para compra de terras e criou um sistema de seguros, via IRB, para o crescimento da produção no cerrado brasileiro.

Paulinelli no Inst. Bras. de Desenvolvimento Florestal. 1977. Acervo do Arquivo Nacional do RJ. Fundo Agência Nacional

A “lua de mel” dos jornalistas e analistas mais críticos com o jovem agrônomo acabou nos primeiros anos de ministério. A desconfiança com os números divulgados pelo regime, o estabelecimento de metas nacionais um tanto irrealistas, a obsessão com a autossuficiência, a inflação nos preços de gêneros básicos e as novas crises de desabastecimento, minaram a credibilidade do modelo. Os números melhoraram muito, mas não o suficiente.

Geisel e Paulinelli visitam plantação de trigo na Fazenda Unai. Minas Gerais. 1977. Acervo do Arquivo Nacional do RJ. Fundo Agência Nacional

Segundo Ipea, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, a balança comercial em 2021 do agronegócio brasileiro apresenta um superavit de US$ 105,1 bilhões, representando 43% das exportações, equivalente a US$ 120,6 bilhões ou 27,4% do PIB nacional. Tudo isso produzido em 7,6% do território nacional, algo como 64 mil hectares.

Paulinelli inaugura 4.a Feira Internacional de Alimentação no Anhembi. São Paulo. 1975. Acervo do Arquivo Nacional do RJ. Fundo Agência Nacional

Os entusiastas do agronegócio brasileiro costumam guardar na memória e concentram seus elogios apenas para os trabalhos dos técnicos (fundamentais, é verdade) da Embrapa. Quando, na verdade, a transformação ocorrida no campo que converteu o Brasil numa potência mundial agroexportadora foi um esforço coletivo, obra de várias frentes de trabalho. Envolveu dinheiro estatal, pesquisa e tecnologia, obras dispendiosas de infraestrutura, muito trabalho de famílias do campo e, principalmente, tempo.

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