André Conrado: Barra da Tijuca – De sertão à Miami carioca – Parte 3

Foto entrada da Barra da Tijuca – Anos 80 – Multirio

Nos anos 1990 a bela restinga sofreu uma transformação gerada pelo grande crescimento imobiliário. Devido a construção de grandes condomínios residenciais, houve uma necessidade espontânea de lançamentos de empreendimentos comerciais. Nesse mesmo período, iniciou-se a construção da Avenida Governador Carlos Lacerda, conhecida como Linha Amarela, que melhoraria muito as condições de acessibilidade e incentivou grandes empresas a se estabelecerem na Barra.

Foto aérea da Barra da Tijuca - Anos 90 - IBGE

Em busca de exclusividade e principalmente segurança, as classes média e média alta escolheram o bairro e seus condomínios fechados, tidos como atraentes por oferecer conforto e tranquilidade. Com o crescimento do local, aumentou a demanda por mão de obra, tanto na construção civil quanto no setor de serviços.

Foto histórica do lançamento do Condominio Atlântico Sul - Praia da Barra - crédito Saudades do Rio

A Sociedade Emergente

Em 1994, a cidade do Rio de Janeiro passava por uma grande crise, tão grande ou mesmo pior, do que a que ela enfrenta atualmente. As taxas de homicídios explodiam, a violência assolava a sociedade com uma onda de sequestros. Foi nessa época, que uma nova expressão começou a se fazer cada vez mais presente no vocabulário carioca: “fulano é um emergente”, diziam. Mas o que seria um “emergente”?

O termo apareceu pela primeira vez, na coluna de Hildegard Angel, que na época escrevia para o caderno “Ela”, aos sábados, no jornal “O Globo”.

Foto da Coluna Hildegard Angel - Caderno Ella - O Globo

Hildegard, filha da estilista Zuzu Angel, e irmã de Stewart Angel Jones, seguia a tradição do jornalismo que cobria a vida cotidiana dos ricos e famosos do Rio de Janeiro com um toque todo especial de bom-humor.

A violência, a desindustrialização e a decadência econômica empobreceram a cidade, e o glamour da elite que a representava, já não era mais o mesmo. Foi neste contexto de decadência econômica, que Hilde criou a expressão “emergente”. Ela representava a ponta do iceberg de um processo bem mais profundo.  Um “emergente” era antes de tudo, um “novo rico”, alguém que ao contrário de decadência e empobrecimento da cidade, mostrava que conseguiu enriquecer, em uma cidade onde a maioria empobrecia.

O “emergente” era também aquele estava disposto a consumir produtos que naquele momento, mesmo os ricos e famosos hesitavam em abrir as carteiras.

Foto de Eder Meneguine e Isabelita dos Patins - Sociedade Emergente - crédito Society Rio

Nascido e criado no subúrbio do Rio de Janeiro, o “emergente” enriqueceu em atividades que os ricos tradicionais em outros tempos, torciam o nariz. Eram donos de redes de padarias como a antológica Vera Loyola; de cadeias de postos de gasolina e supermercados. Ele exibia com seus bens, a comprovação de que era possível “dar a volta por cima”. Era enfim, o “dinheiro novo” que a cidade estava precisando.

Foto de Vera Loyola - Sociedade Emergente - Final dos anos 90

A sociedade emergente marcava o momento em que a elite econômica da cidade do Rio de Janeiro sofria uma grande transformação.

O dinheiro estava mudando de bolsos no Rio de Janeiro, e também de endereço…

A partir da década de 90, os ‘emergentes” iniciaram um movimento de mudança do eixo residencial “rico” da cidade. Na maior parte do século XX, a “Zona Sul” era o horizonte cultural, não apenas da elite da cidade, mas do restante da sociedade. Nesta cartografia simbólica, Copacabana, Ipanema e Leblon eram exportadoras de estilo de vida.

Os “emergentes” mudaram esta cartografia. A Barra da Tijuca, com uma arquitetura emulando claramente Miami e Los Angeles, tornara-se o lugar preferido de residência destes novos ricos.

Foto aérea da Barra da Tijuca - Final dos anos 90 - IBGE

Neste mesmo tempo, as indústrias que empregavam milhares de pessoas fechavam as portas. Uma época em que a indústria naval, que empregava milhares de operários foi desmontada, peça por peça, pois não havia mais encomendas

A inflação era um fantasma que assombrava a todos, embora o Plano Real surgisse no horizonte como uma promessa.

Assim, notou-se um processo crescente de favelização nos arredores das lagoas e de outras áreas de risco existentes no bairro.

Foto da Comunidade Rio das Pedras - Final dos anos 90 - Rio on watch

Inicialmente, essas favelas abrigavam os trabalhadores dos empreendimentos imobiliários que estavam sendo construídos, mas tornaram-se local de moradia permanente para uma população que não parava de crescer. Um exemplo é a comunidade do Rio das Pedras, que teve expansão muito significativa.

Um novo estilo de vida 

Na Barra, as ruas funcionam, prioritariamente como canal de circulação, e menos como espaços de convivência e sociabilidade. Para sair dos condomínios, a opção é o automóvel, que pode levar a uma grande diversidade de restaurantes, shopping centers, casas noturnas, bares, cinemas e, claro, a praia.

Para chegar ao mar, muitos condomínios também dispõem de um serviço de balsa, que encurta distâncias e evita o acúmulo de carros, sem vagas para estacionar – sobretudo nos finais de semana ensolarados.

Foto do Canal de Marapendi - Quebra Mar - Barra da Tijuca - Final dos anos 90 - IBGE

O status que o bairro confere e a consequente valorização, sobretudo imobiliária, explicam o fato de muitos empreendimentos atribuírem seus endereços à Barra ou mesmo incorporarem o nome do bairro.

Melhoria do transporte

A inauguração da Linha Amarela (Avenida Carlos Lacerda), no final dos anos 90, ajudou os moradores da Barra, passando a ligar diretamente a Baixada de Jacarepaguá com a Ilha do Fundão, sem a antiga necessidade de passar pelas engarrafadas ruas da Zona Sul.

O que pouca gente sabe é que ela integra um inteligente plano de urbanismo criado na década de 60 pelo ex-governador Carlos Lacerda, chamado Plano Doxiadis, que previa a construção de 6 linhas (sem previsão de pedágio urbano): Amarela, Vermelha, Verde, Azul, Marrom e Lilás (apenas as 2 primeiras saíram do papel; a Linha Azul acabou se transmutando na Trans Olímpica e na Trans Carioca).

Foto da construção da Linha Amarela - Zona Oeste do Rio - Anos 90 - Prefeitura do Rio

Na próxima edição, acompanharemos a virada do milênio e as transformações na bela Barra.

Foto da Praia da Barra da Tijuca - Anos 2000 - @aclubtour

Fontes:

@aclubtour

Arquivo Nacional

Biblioteca IBGE

Biblioteca Nacional

MultiRio

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