André Conrado: São Conrado – A beleza entre as montanhas – Parte 1

Foto histórica do Bairro de São Conrado – século XIX – IMS

A maioria dos bairros do Rio de Janeiro que surgiram com o Brasil Colônia, passaram por muitas transformações, sendo completamente descaracterizada em termos de arquitetura.

O bairro de São Conrado, no entanto, não passou por esse processo de demolição gradual e reconstrução. As intervenções humanas e as mudanças que o local tem sofrido são recentes, do início do século XX.

A primeira ocupação da região ocorreu nos tempos coloniais. O bairro, que é cercado pelas florestas do Parque Nacional da Tijuca, pelo Morro do Cochrane, pelo Morro Dois Irmãos, pela Pedra da Gávea, pela Pedra Bonita e pela Agulhinha da Gávea, pertencia à Fazenda São José da Lagoinha da Gávea, cujo dono era Salvador Correia de Sá e Benevides, um dos governadores da cidade do Rio de Janeiro. A fazenda tinha uma grande extensão, abrangendo a área da Gávea, Jacarepaguá e Tijuca.

No século XIX, as terras dos herdeiros de Benevides começaram a ser desmembradas. Antônio Ferreira Viana, Conselheiro Imperial de D. Pedro II e Ministro da Justiça do Segundo Reinado, adquiriu grande parte e transformou sua casa em local de repouso e veraneio. Até então o acesso a São Conrado era feito principalmente pelo mar. Por terra, o acesso se dava pelo caminho conhecido atualmente como Estrada da Gávea, que só recebeu esse nome em 1917, após ser ligada à Rua Marquês de São Vicente.

Foto histórica do Bairro de São Conrado - Final séc XIX - Arquivo Nacional

A localidade recebeu o nome de São Conrado devido à Igreja homônima. Sua construção iniciou-se em 1904, por seu devoto o Comendador Conrado Jacob de Niemeyer, dono de grande extensão de terras na região, para ser frequentada pelas famílias abastadas que haviam começado a residir em chácaras locais.

Foto histórica da Igreja de São Conrado - Anos 20 - IMS - Biblioteca Nacional

São Conrado foi da criado através de uma estrada projetada pelo professor Charles Armstrong em 1912. O mestre objetivava facilitar o acesso à escola em que lecionava, situada na Chácara do Vidigal.

Foto histórica da Avenida Niemeyer - Início do séc XX - Braziliana Fotográfica

Em 1919, a via foi alargada e prolongada, ligando assim a antiga praia da Gávea à praia do Leblon.

Foi nomeada Avenida Niemeyer em homenagem a seu construtor, o engenheiro e militar Comendador Conrado Jacob Niemeyer; dono das terras que formariam o futuro bairro.

O Comendador também melhorou as condições da Estrada da Gávea, conhecida como “Trampolim do Diabo” por causa de suas curvas sinuosas. Lá, foram realizadas, nos anos de 1930 a 1950, corridas automobilísticas do Circuito da Gávea, um percurso que tinha início na Rua Marquês de São Vicente, passava pela Niemeyer e acabava na Estrada da Gávea.

Através do loteamento das propriedades de Conrado Jacob Niemeyer, ao longo dos anos 1920 e 1930, o novo bairro de Chalés e Palacetes emancipou-se da Gávea.

Muito mais que um bairro de passagem

A bela avenida Niemeyer é até os dias atuais uma das principais vias da cidade, que ligam o bairro do Leblon à São Conrado.

Em 1921, quando a Niemeyer era a única via de acesso ao bairro, integrantes da Cia Tramway – pertencente à Light – criaram o Gávea Golf & Country Club.

Foto do Gávea Golf and Country Club - Anos 30 - Acervo do Clube

O primeiro loteamento no bairro surgiu em 1930 e deu origem à aprazível Rua Capuri. Em 1932, a sede da antiga Fazenda de São José Alagoinha da Gávea construída no século XVIII foi adquirida pelo Comendador Italiano Osvaldo Riso.

Em 1980, sua filha, Cesarina Riso, passou a usar a bela casa como centro de cultura e eventos, dando o nome de Villa Riso. O local funciona até hoje, promovendo encantadores eventos.

Foto do desenho da Villa Riso - São Conrado - Início séc XX - Biblioteca Nacional

Entre 1940 e 1950, o Largo de São Conrado já era bastante frequentado. Ali, em meados dos anos 50 instalou-se o famoso Bar Bem.

Construído pelo pai da “emergente” Vera Loyola, Ignácio Loyola o Bar Bem vendia-se como um agradável ponto de recreio as margens das estradas turísticas no então Distrito Federal e posteriormente Guanabara. Possuía um projeto muito interessante, de forma circular embasado em uma grande “bandeja” retangular que servia de varanda e terrasse, além da correta distribuição do sol pela fachada com vidros na área do sol da manhã. O bar atraia quase todo o tipo de frequentador, de solteiros em dia de semana, até famílias nos fins de semana.

Foto do antigo Bar Bem - Anos 60 - São Conrado - Biblioteca Nacional

Novos loteamentos foram surgindo, como o Jardim Gávea. Em 1949, foi inaugurada a Estrada das Canoas, onde, dois anos depois, Oscar Niemeyer projetaria a Casa das Canoas como sua residência. O local é tombado como patrimônio histórico e cultural da cidade.

Foto da Residencia de Oscar Niemeyer - anos 60 - Casa das Canoas

Já em 1968 um grande marco do bairro seria inaugurado. O Hotel Nacional foi o único hotel projetado por Oscar Niemeyer e contou com paisagismo de Burle Max. Preocupado em preservar a natureza e aproveitar a paisagem do local, Niemeyer construiu uma monumental torre de vidro cilíndrica com 45 andares.

Segundo depoimento do próprio Oscar Niemeyer, publicado no site da fundação que leva seu nome, esse foi o primeiro hotel no país projetado junto à praia a ter boate, restaurante e outros serviços. Na década de 1970, a alta sociedade carioca frequentava o local, que, de 1972 até 1995, recebeu celebridades e sediou festivais conceituados, como o Free Jazz Festival – o que deu cada vez mais notoriedade ao bairro.

A inauguração do Túnel Dois Irmãos (em 1971) – atual Zuzu Angel –, que liga a Gávea a São Conrado, e da Autoestrada Lagoa-Barra (em 1981) foram outros dois fatores que levaram à ocupação do bairro. A construção dessas vias proporcionou um acesso mais rápido a São Conrado e o transformou em um bairro de passagem.

Com a falência da empresa que administrava o hotel, o imóvel ficou sob custódia do governo federal até 2009 quando foi comprado em um leilão. O belo hotel foi reaberto apenas em 2016, após finalizada uma gigantesca reforma.

Foto do Hotel Nacional Rio - São Conrado - Atual

Desde então, com o conceito de resort urbano, o hotel não apenas atende hóspedes viajantes, mas também é frequentado por moradores da cidade. Além disso o hotel tem em maioria, colaboradores residentes da comunidade da Rocinha.

Na próxima edição falaremos do surgimento da comunidade da Rocinha. Não percam!

 

Fontes:

@aclubtour

Arquivo Nacional Digital

Biblioteca IBGE

Biblioteca Nacional

Instituto Moreira Salles

Prefeitura do Rio

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